terça-feira, 31 de julho de 2007

agostos por dentro


Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima à negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.
Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisas de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções - úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia, categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um. Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tido isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iuguslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboleta - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismo. Assumidos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar o assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

Caio Fernando Abreu,
Sugestões para atravessar agosto,
OESP, 06. 08. 1995.
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imagem: A Viagem de Chihiro (Spirited Away, 2001).
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lágrima negra tinta


Visione del silenzio
Angolo vuoto
Pagina senza parole
Una lettera scrita sopra un viso
Di pietra e vapore
Amore
Inutile finestra.

Caetano Veloso,
Michelangelo Antonioni.
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imagem: Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau em A Noite (La Notte, 1960), de Michelangelo Antonioni (1912 -2007)
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segunda-feira, 30 de julho de 2007

pessimistas?


O italiano Valerio Zurlini e o russo Andrei Tarkovski dividem, em 1962, o Leão de São Marcos, prêmio máximo do Festival Internacional de Veneza: Zurlini por Dois Destinos (Cronaca Familiare), Tarkovski por A Infância de Ivan (Ivanovo Detsvo).
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da vida das marionetes


Como trago dentro de mim um tumulto constante que tenho de manter sob vigilância, sinto angústia perante o imprevisto e o imprevisível. O exercício da minha profissão torna-se, desta maneira, uma administração do indizível. Eu comunico, organizo, ritualizo. Há diretores que materializam o caos existente neles mesmos e, na melhor das hipóteses, deste caos criam um espetáculo. Detesto esse tipo de amadorismo.

Ingmar Bergman (1918/ 2007),
em Lanterna Mágica - Uma Autobiografia.
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imagem: Liv Ullmann e Ingrid Bergman, em Sonata de Outono (Horstsonat, 1978).
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o silêncio


Há vários anos já, mês de dezembro, caminhando com meu irmão pelo centro da cidade, conversávamos sobre como havia sido cheio de perdas importantes e dolorosas aquele ano que estava acabando. Minha resposta ao comentário dele concordava, enumerando, com cara de tristeza: Fred Astaire, Rita Hayworth, Carlos Drummond de Andrade... A reação veio rápida: "Mas eu tava falando de gente de verdade! Evinha, Tio Odilon, Neném de Tio Juvenal! Parece que tu só pensa em artista! "
Mas, para mim, por mais doídas que fossem as perdas de parentes - idosos, alguns nem mesmo tão próximos, seja por laços de consangüinidade ou relação de amizade - não era nelas que eu pensava mais, mesmo.
Isso se repetiria várias vezes, nos anos seguintes: morreu Tom Jobim! Choro e mais choro. Morreu Mastroianni! Tantas lágrimas quanto uma viúva. Acidente de carro mata a Princesa Diana! Mentira! ELA NÃO!!!
E hoje, dez anos depois daquele carão dado por meu irmão, novamente fiquei tristíssima pela morte de uma pessoa "de mentira", um "artista", tão longe de mim quanto os outros, e tão querido quanto: morreu Ingmar Bergman.

E eu não sei o que pensar, não sei qual a importância dele para o cinema mundial ou o que a sua perda representa.
Eu só estou triste.
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imagem: Bibi Andersson e Liv Ullmann, em Persona - Quando Duas Mulheres Pecam (Persona, 1966).
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domingo, 29 de julho de 2007

a walk on the wilder side


Segundo Luiz Carlos Merten e vários outros críticos de cinema, Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944) seria "o mais noir dos filmes noir", por trazer em sua estrutura todas as figuras e situações emblemáticas do estilo. O genial filme de Billy Wilder, assim, serviria como "definidor do estilo".
Só hoje, ao finalmente assisti-lo, pude entender a afirmação, mesmo que ainda seja o meu favorito outro noir do mesmo diretor, Crepúsculo dos Deuses( Sunset Boulevard, 1950). Excetuando-se, claro, a peruca hor-ro-ro-sa de Barbara Stanwick (que destruiria qualquer femme fatale, mais ainda uma não tão bela...), tudo é admirável no filme, a começar pelo fato de que, sim, ele traz todos os elementos que definem o noir, mas foi realizado no início dos anos 1940, quando ainda nem se usava o termo, então o cineasta austríaco criou muito do que depois se consolidaria em outros filmes.
A trama loira-fatal-convence-amante-a-matar-marido-e-lucrar-com-isso aparentemente não é nenhuma novidade, mas é a armação dramática e a opção por escolhas nada óbvias que o tornam um filme mais do que especial. Aliás, como qualquer filme de Wilder, brilhante em dramas, comédias, policiais, whatever.
"Matei um homem por dinheiro e por uma mulher. Não consegui o dinheiro. Também não terminei com a mulher" , diz, logo no início de sua confissão (e do filme) o vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray), cidadão acima de qualquer suspeita que se envolve com a loira-fatal-típica, aqui Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwick), e acaba por se render à sedução dela, à sua própria ganância e, last but not least, à tantação de enganar o investigador de fraudes contra a seguradora, o infalível e estressado Barton Keyes (Edward G. Robinson, maravilhoso).
Como convém ao estilo, ninguém é muito inocente na trama (originalmente do americano James M. Cain, com roteiro de Wilder e Raymond Chandler!), e os personagens mostram toda a sua humanidade ao cometer um crime, movidos por sentimentos como carência, medo, ambição, paixão. O herói(?!) é um homem que cometeu um erro terrível, mas isso não o torna universalmente mau, fica bem claro.
E há os diálogos perfeitos de sempre (sempre = filmes de Billy Wilder), as reviravoltas e as opções pouco convencionais - o fato de o início já antecipar o final do filme, a alternância entre passado e presente todo o tempo. Tudo contribuindo para fazer dele a primeira das obras-primas do cineasta, que ainda daria muitas mais ao cinema, graças a Deus. Ou a Billy Wilder, claro.
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a kiss is still a kiss (i)


Jean-Paul Belmondo & Anna Karina, em O Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou, 1965), de Jean-Luc Godard.
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sábado, 28 de julho de 2007

life in plastic/ it's fantastic


Por quê?

* porque eu coleciono Barbies, ainda hoje.
* porque corpo, padrões de beleza e distúrbios alimentares me interessam.

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A arma de guerra chamada Barbie

A boneca criada em 1958 é pioneira na configuração de um modelo corporal que talvez seja o mais tirânico da história ocidental.

Uma temporada após a outra, desfiles de moda acendem seus holofotes nas mais diversas cidades do mundo. Olhos fascinados (ou entediados) assistem aos vaivéns das passarelas, onde as modelos que servem de “cabide para as roupas” costumam despertar mais curiosidade que as extravagantes vestes em exibição.
O corpo das modelos exerce um magnetismo não isento de polêmicas, tais como os escândalos e burburinhos ligados à anorexia, mas seu brilho nunca diminui. Elas continuam atraindo os olhares, surpreendentemente idênticas umas às outras, e todas muito diferentes das comuns mortais que as admiram em silêncio -e que gostariam de se parecer com elas. Exércitos de mulheres de todas as procedências querem copiar esses corpos-modelos que tanto se assemelham entre si, como numa clonagem universal de um protótipo que há décadas permanece incólume: a Barbie.
Embora já esteja ficando quase velha, essa boneca esguia e eternamente jovem continua sendo o ícone de um padrão de beleza dos mais insistentes. Tendo habitado a infância das meninas do mundo inteiro há quase meio século, a Barbie tornou-se um verdadeiro clássico na imposição das leis do “corpo bom” em nossa sociedade. Todo um baluarte pedagógico, a famosa boneca é uma pioneira na configuração de um modelo corporal que provavelmente seja o mais tirânico da história ocidental.
Pois as medidas da Barbie são humanamente impossíveis: se os 29 cm de plástico oco que a conformam fossem transformados em carne feminina, para conservar as proporções de sua silhueta curvilínea demandariam uma altura de 2m13 e as seguintes medidas de busto, cintura e quadris: 96-45-83 cm.
Os cálculos indicam que uma mulher com essa contextura pesaria menos de 50 kg, portanto não possuiria a quantidade de gordura corporal suficiente para ter ciclos menstruais regulares e não conseguiria nem sequer andar. Isto significa que até mesmo as modelos que mais aproximam seus corpos dessa imagem ideal ainda permanecem longe da “boneca perfeita”. As medidas habituais das profissionais da passarela são 1m75 de altura e os clássicos 90-60-90.
Quanto às mulheres “reais”, a meta está bem mais longe dessa harmonia numérica: para ter as formas da Barbie, uma mulher ocidental de porte médio deveria esticar sua altura corporal em 40 cm, extrair uns 25 cm da sua cintura e uns 20 cm dos quadris e, além disso, acrescentar mais alguns centímetros nos seios.
Há, ainda, um dado bombástico: em 1958, quando a esposa do dono da empresa Mattel teve a idéia genial de fabricar esse novo brinquedo, o design da Barbie foi encomendado a um especialista com um currículo expressivo. Trata-se de Jack Ryan, um engenheiro, que antes de chefiar o departamento de pesquisa e desenvolvimento da Mattel, também trabalhou para o Pentágono e para a empresa Raytheon, fabricante de equipamento bélico.
Nesse emprego anterior, o engenheiro foi responsável pelo design dos mísseis Sparrow e Hawk. Sabe-se que os brinquedos nunca são artefatos neutros ou “inocentes”; ao contrário, eles propõem “estilos de vida” capazes de influenciar uma geração inteira -ou várias, como é o caso da bem-sucedida boneca norte-americana. Nesse sentido, a Barbie não é uma trivial mercadoria, e tampouco é apenas uma boneca. Ela é, sobretudo, um tipo de corpo: um poderoso modelo corporal que com ela nasceu e com ela ainda se desenvolve. Ela é, aliás, uma verdadeira arma de guerra, cujo efeito consiste na radiação do “corpo perfeito” por todos os cantos do planeta.
A história da Barbie é muito eloqüente. Ela foi a primeira boneca cujo corpo ousou imitar as formas de uma mulher adulta, enquanto os brinquedos mais tradicionais destinados às meninas sempre reproduziram a figura do bebê ou de uma criança. “Be anything”, promete o slogan da Barbie: seja o que desejar, você é livre para inventar seu próprio destino, pode escolher o tipo de trabalho que irá desempenhar quando for adulta. Faça o que você quiser, desde que a sua aparência seja como deve ser; isto é, o mais parecida possível com a boneca impossível.
Pois a Barbie encarna duas tendências aparentemente contraditórias: por um lado, ilustra a ampliação da autonomia e das liberdades de escolha para as mulheres; por outro lado, também representa a ardilosa transformação do corpo em uma mercadoria que deve ser constantemente aperfeiçoada. Duas tendências que se aprofundaram nas últimas décadas, e não há dúvidas que a própria Barbie contribuiu para sua expansão. Por isso, quando as meninas crescem e não conseguem atingir nem o sucesso e nem o talhe prometidos na infância, costumam recorrer a consolos mais acessíveis para aliviar suas frustrações: as modelagens do bisturi, por exemplo, ou então os antidepressivos -que um jargão mais antiquado chamaria de barbitúricos.
Não deixa de ser significativo, portanto, que esta altíssima loira de silicone tenha sido lançada em 1959, prenunciando não apenas a “liberação feminina” que logo viria, mas também a popularização das modelos hipermagras que seguiram o exemplo da manequin Twiggy. Com suas inéditas medidas enxutas e sua aparência “desnutrida”, essa modelo britânica escandalizou o mundo quando apareceu pela primeira vez nas páginas da revista “Vogue”, em 1965.
No entanto, apesar das convulsões iniciais, suas formas descarnadas logo conquistaram tanto o público como os mercados, e hoje nem suas medidas nem seu aspecto causam espanto algum. Ao contrário, parecem perfeitamente “normais”. Tanto, que seria difícil identificar a magricela Twiggy se ela desfilasse em qualquer “fashion week” do planeta.
Na época do seu lançamento, porém, há mais de quatro décadas, até a revista que a descobrira admitiu o choque da novidade que tais formas corporais apresentavam. A “Vogue” viu-se obrigada a publicar a seguinte advertência junto às fotografias: “Suas pernas fazem pensar que ela não tomou suficiente leite quando era bebê, e seu rosto mostra a expressão que deviam ter os habitantes de Londres durante a guerra”.
Paralelamente a estes dois fenômenos emblemáticos -a aparição da Barbie em 1959 e de Twiggy em 1965-, que marcaram os primeiros passos no advento deste novo ideal do corpo feminino, o mundo ingressava em uma nova era. Nesse ambiente transtornado pelas revoltas da juventude e pelas reivindicações feministas, vivenciava-se uma flexibilização da rigidez moral que até então tinha constrangido os relacionamentos e costumes.
Nesse quadro, começava a agonizar a velha “cultura da intimidade”, que teve seu auge no século 19 e na primeira metade do 20, e deu à luz às subjetividades interiorizadas da modernidade. Um mundo, enfim, no qual os sofrimentos eram vivenciados como conflitos interiores (pessoais e privados), muitas vezes provocados pela necessidade de “reprimir” os desejos individuais em face à severa moral vigente.
Diante da agonia desse universo, na segunda metade do século passado, começou a despontar um novo regime de constituição das imagens corporais e dos “modos de ser”, um movimento histórico extremamente complexo que ainda está em andamento, e que deslancharia uma crescente exteriorização do eu. Desse processo participaram ativamente aquelas duas personagens femininas: tanto a boneca Barbie como o corpo-modelo cuja linhagem Twiggy inaugurara.
Constantemente se renovam as roupas, os estilos e os incontáveis acessórios que a empresa Mattel comercializa há 48 anos sob a lucrativa marca Barbie, mas a silhueta da boneca permaneceu praticamente idêntica ao longo de todo esse tempo. Em 1965, suas pernas se tornaram flexíveis; em 1968, o rosto ganhou um aspecto ainda mais jovem, com longos cílios contornando seus enormes olhos azuis. Depois, os cabelos lisos cresceram ainda mais e o corpo ganhou maior mobilidade.
Em 1997, quando a moça já era bem mais que uma balzaquiana, os fabricantes resolveram responder às crescentes críticas acerca da influência negativa que estaria exercendo sobre as meninas do mundo inteiro, alastrando um padrão corporal inatingível e contribuindo, dessa maneira, para a “epidemia” de distúrbios alimentares e transtornos da imagem corporal. Assim, nos exemplares mais recentes, tanto a cintura como os quadris da boneca engrossaram levemente, na tentativa de tornar seu corpo um pouco mais “realista”, enquanto os seios foram diminuídos. De todo modo, as mudanças são bastante sutis, e a Barbie continua sendo a Barbie.
A verdade é que o mercado desaconselha alterações mais profundas nessa esbelta figura, que é líder de vendas entre todas as bonecas jamais criadas: somente no ano em que virou quarentona, faturou US$ 2 bilhões. Vendem-se anualmente mais de 100 milhões de exemplares em 140 países: a cada segundo, três meninas deste planeta ganham um novo clone. Mas tais números se referem apenas à marca oficial; esquecendo as incontáveis imitações que, a rigor, cumprem idêntica função. Existe até um dado tão inútil como ilustrativo: se colocássemos todas as Barbies vendidas nos primeiros 30 anos -isto é, apenas até 1989- enfileiradas da ponta das madeixas aos curvos pés, seria possível dar quatro vezes a volta ao mundo. Ninguém pode dizer que seja pouca coisa.
É claro que não se trata apenas de uma mercadoria a mais, porém de um produto intensamente fetichizado. Não por acaso, esta boneca já foi tema de sérios estudos acadêmicos e protagonizou exposições em museus e centros culturais. Sob o nome de “complexo de Barbie”, ainda, conhece-se a síndrome que leva algumas mulheres a recorrer à cirurgia plástica e outras técnicas afins para provocar drásticas mudanças em seus corpos, tendentes a se parecerem com a loiríssima boneca.
Algumas o fazem explicitamente, e chegam a ficar famosas por causa disso: escrevem livros sobre sua cruzada, contam suas experiências na televisão e mostram orgulhosas os resultados. Um exemplo é Cindy Jackson, cujo site na internet dispensa comentários: http://www.cindyjackson.com. Mas não é preciso evocar esses extremos: são inúmeras as mulheres que perseguem essa meta sem explicitá-lo, por isso é tão comum encontrar êmulas anônimas da Barbie andando pelas ruas de qualquer cidade.
Como uma prova da vigorosa influência cultural desse modelo, não surpreende que os padrões de beleza vigentes em nossa sociedade tenham mudado radicalmente nos últimos 50a anos. Junto com esses protótipos ideais, também foi se metamorfoseando a silhueta das mulheres reais de todo o planeta. Basta citar apenas um exemplo bastante elucidativo: em 1951, a moça que ganhou o concurso de Miss Suécia media 1m71 de altura e pesava 68,5 kg; pouco mais de três décadas depois, sua colega de 1983 media 1m75 e pesava 49 kg.
Entre uma e outra rainha de beleza escandinava, houve uma verdadeira barbierização dos padrões. Em termos médicos, o índice de massa corporal (IMC) da primeira era de 23,4, um valor que ainda é tido como normal, enquanto o da segunda é de 16, e já está bem aquém do mínimo considerado saudável.
As manequins sempre foram magras: algumas décadas atrás, quando ainda não eram celebridades e nem constituíam o sonho que toda menina quer encarnar quando crescer, pesavam 8% menos que a média da população, mas atualmente essa diferença é de 23%. No ano passado, ecoando uma série de notícias trágicas sobre mortes de modelos que sofriam de anorexia (entre elas, a brasileira Ana Carolina Reston), os organizadores da “fashion week” de Madri impediram a participação de todas aquelas profissionais cujo índice de massa corporal fosse inferior a 18. Para uma jovem de 1m75 de altura, esse valor implica um peso de 56 kg.
Proibições semelhantes foram adotadas em desfiles realizados em outros países, mas a decisão foi polêmica e muito criticada, inclusive por alguns médicos, que sublinharam a ineficácia de utilizar apenas um indicador isolado e arbitrário. De todo modo, sabe-se que a grande maioria das modelos atuais ficaria desempregada se a nova regra se generalizasse, pois estima-se que seu IMC oscile entre 17 e 17,5, podendo chegar até 15,6 -quando os parâmetros médicos continuam a indicar que o valor “normal” repousa entre 18,5 e 25.
Confirmando esse brusco emagrecimento e alongamento ocorrido nas últimas décadas, tanto dos padrões corporais considerados ideais como das medidas reais dos corpos-modelo, uma revista afirmou que as medidas de Gisele Bündchen “são perfeitas: 1m79 metro de altura e 54 kg”. Isso implica um índice de massa corporal de 16,85 -portanto, ela também seria banida dos desfiles, caso a nova regra vingasse. Cabe frisar, porém, que o perfil dessa modelo gaúcha se aproxima, bem mais que a maioria de nós, dos padrões propostos pela Barbie; contudo, ela tampouco chega a atingi-los.
Por isso, aquele engenheiro Jack Ryan -criador de mísseis para o Pentágono e da boneca Barbie para e empresa Mattel- ergue-se como uma encarnação moderna do mítico escultor grego Pigmalião, aquele que esculpira uma estátua perfeita da qual acabou se apaixonando. Afinal, o designer de equipamento bélico que forjou a boneca mais famosa do mundo foi o sexto marido da bela atriz Zsa Zsa Gabor, loira e esguia estrela de Hollywood dos anos 50 -considerada a primeira celebridade que ficou famosa apenas por causa da sua celebridade; não por acaso, foi tia-avó de outra loira hoje célebre: Paris Hilton.
O casamento do inventor e sua musa, porém, foi tão “imperfeito” que sequer durou um ano. Contudo, assim como Pigmalião, o engenheiro norte-americano acabou criando, artificialmente, uma mulher mais “perfeita” que qualquer exemplar real e carnal do gênero feminino. Seguindo os passos da sua ancestral mitológica -aquela escultura construída em marfim na Grécia Antiga-, a boneca de plástico nascida em um laboratório do século 20 logo se converteria no ícone do “corpo perfeito”, um modelo a ser desejado e imitado fervorosamente.
E uma verdadeira arma de guerra, pois tal desejo é tão ardente quanto universal, capaz de converter todas as diferenças em meros desvios com relação a essa poderosa norma. Nos últimos anos, os avanços do padrão corporal magro, esbelto e “sarado” têm enxugado, gradativamente, todas as alternativas que a diversidade étnica e cultural do mundo pré-globalizado tinha a oferecer.
Um exemplo é bem local: as famosas mulatas do carnaval carioca recorrem, cada vez mais, à lipoaspiração e ao silicone para tornear seus corpos de acordo com os moldes globais. Outro exemplo é bastante longínquo, remete àquelas silhuetas exóticas que alguma vez encantaram o pintor Paul Gauguin e foram imortalizadas em todas as cores de sua obra.
Trata-se de um arquipélago da Micronésia rodeado pelo Oceano Pacífico, onde os corpos e certos hábitos das nativas estão mudando de um modo peculiar: poucos anos depois da televisão dos Estados Unidos ter irrompido no cotidiano desse grupo de ilhas outrora isoladas, as mulheres começaram a se preocupar intensamente com o próprio peso e com o aspecto corporal, recorrendo a severas dietas e exercícios físicos. Além de mudarem os padrões de beleza ancestrais, multiplicaram-se os casos de anorexia e bulimia na região. Tudo para se parecer com ela: a Barbie.
Pois mesmo constituindo um ideal inatingível, sempre existe a possibilidade de comprar o rosto e o corpo das modelos, uma promessa que é vendida nas mais diversas embalagens: nas prateleiras de supermercados e farmácias, nas academias de ginástica e nas clínicas de tratamentos estéticos, e agora também nos “reality-shows de transformação”.


(Paula Sibila)

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imagem: a Barbie - Twiggy.

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sexta-feira, 27 de julho de 2007

candeias sem vento


A criança olha
para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
quer tocar o céu.

Não sente a criança
que o céu é ilusão:
Crê que não o alcança,
quando o tem na mão.

Manuel Bandeira.
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Porque hoje, 27 de Julho, é o Dia do Pediatra - e eu sou feliz assim!
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imagem: Flora Guiet, a petite Amélie, em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, 2001), examina alguém.
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quinta-feira, 26 de julho de 2007

we accept you, you are one of us


para Bessie Loos

Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,
Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.

Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!

Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.

Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.

Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;

Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.

Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.


Georg Trakl,
Canção de Kasparhauser.
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imagem: François Truffaut e Jean-Pierre Cargol, em O Garoto Selvagem (L'Enfant Sauvage, 1970)
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quarta-feira, 25 de julho de 2007

tintarella di luna




Já faz algum tempo que vi A Moça com a Valise (La Ragazza con la Valigia, 1961), a primeira vez, quando ainda se podia assistir ao Eurochannel em Campina. Mas a impressão de beleza, melancolia, paixão e desencanto ainda permaneciam bem vivas quando pude vê-lo novamente, agora com imagens e som bem mais nítidos, num dos DVDs que a Versátil lançou do italiano Valerio Zurlini.
Não que eu realmente me importe com qualidades técnicas; o que me emociona, me toca, me encanta no filme é a beleza da história dos dois personagens meio perdidos, tão diferentes e tão próximos, tão ansiosos por um amor e uma felicidade que, sabem eles e sabemos nós, os espectadores, nunca serão concretos.
Há cenas belíssimas, algumas comoventes, outras de extrema melancolia, algumas outras em que reina a sensulidade de Claudia Cardinale (Aida, a cantora e mãe solteira, abandonada no início do filme), jovem e tão linda. E Jacques Perrin (Lorenzo, o adolescente solitário e aparentemente tão frágil, que a acolhe) brilha em muitos momentos - um ator que vi tão pouco, só me lembrava dele como o Totó adulto de Cinema Paradiso.
Nem saberia apontar a cena mais bela, entre tantas que há no filme:

. LorenzoAida pela primeira vez, enquadrada pelas colunas à frente da mansão da família dele; ele a vê tão pequena da sua janela no alto - tão só quanto ele? Então ele desce as escadas degrau por degrau, em sua direção, e são tão claros a sua surpresa, o seu encantamento. Aliás, são várias as escadas mostradas no filme, sempre levando a lugares inseguros;
. As cenas na estação de trens, brilhantes, dignas da exatidão de Hitchcock. Em uma delas, aparece o grande Gian Maria Volonté, em papel pequeno;
. A cena de Aida e Lorenzo juntos na praia, ao final do filme;


Mas a minha favorita, pensando bem, é aquela em que os dois jantam na cozinha da casa de Lorenzo, ela de roupão emprestado, fascinada por todo o conforto e luxo, e ele cada vez mais deslumbrado com ela, mais bela e viva que qualquer coisa ali.
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imagem: Claudia Cardinale e Jacques Perrin, em A Moça com a Valise.
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a educação pela pedra


1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
E manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto,
Tecendo a Manhã.
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imagem: ele.
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terça-feira, 24 de julho de 2007

um certo galileu


Vi agora no UOL: uma revista inglesa, a Radio Times, fez mais uma daquelas pesquisas de opinião para conhecer as preferências de seus leitores, desta vez para elaborar, à la Rob Fleming, uma lista dos "Melhores Filmes Britânicos de Todos os Tempos".
Tendo à disposição variedade, número e qualidade invejáveis de opções, a lista teve em seu topo um dos mais engraçados e mordazes filmes já feitos, o impagável A Vida de Brian (Life of Brian, 1979). Claro que, sempre fã do Monty Phython, eu não poderia deixar de achar ótima a escolha!!
Foi o primeiro filme do grupo inglês que eu vi, ainda adolescente, e já o revi (inteiro ou apenas algumas cenas) várias vezes depois, sempre com gargalhadas e mais gargalhadas, mesmo que até já saiba de cor o que acontecerá em muitos momentos. Não importa, eu continuo morrendo de ir com a cena do apedrejamento, a do eremita, as em que aparece Pilatos (Michael Palin, hilário) e, claro, a da crucificação. A história do judeu Brain Cohen (Graham Chapman), confundido desde o nascimento com Cristo, o Messias, é algo que só o humor inteligente e delirante dos MP poderia imaginar, e acho impossível não gostar do filme (talvez até não o ache O MELHOR, mas chega bem perto).
Vi e gostei de outros filmes do MP depois - e quando assisti a Em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail,1974), quase achei que havia encontrado um superior a Brian... - mas nada se compara ao riso livre, anárquico e iconoclasta que o filme dirigido por Terry Jones provoca, visto pela primeira ou pela nemseiquantésima vez...

(ah, e ainda por cima o filme foi produzido por um fã generoso do grupo: George Harrison - é, o beatle... - que até aparece em uma ponta como o Sr. Papadopolous)
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A lista:

1. A Vida de Brian (Terry Jones, 1979)
2. Ou Tudo ou Nada (Peter Cattaneo,1997)
3. Quatro Casamentos e um Funeral (Mike Newell, 1994)
4. Trainspotting (Danny Boyle, 1996)
5. Lawrence da Arábia (David Lean, 1962)
6. Todo Mundo Quase Morto (Edgar Wright, 2004)
7. Os Desajustados (Bruce Robinson, 1987)
8. Desencanto (David Lean, 1945)
9. Zulu (Cy Endfield, 1964)
10. Em Busca do Cálice Sagrado (Terry Jones & Terry Gilliam, 1974)
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imagem: always look on the bright side of life...
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segunda-feira, 23 de julho de 2007

sem ana, blues (ii)


M' r 'len,
ótimo receber tua(s) carta(s) hoje de manhã. Não sei se tenho muito o que dizer, também estou ainda em estado de choque. A gente não podia imaginar que Ana realmente conseguisse [o suicídio]. Ou podia? Primeiro chorei e senti medo e pena. Deu vontade de deitar, dormir três meses. Aí reagi, tomei banho, fiz a barba, botei uma roupa bem limpinha e fui assistir ao último dia do Leiteiro. Que foi lindo. A casa cheia e a platéia apaludindo em pé no final. Clélia (que melhorou incrivelmente) empacou no final e repetia, com cara de louca: "Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos ao fim do mundo." O tempo todo eu sentia que, se tivesse algo a dizer (ainda) para Ana C., estava tudo naquele texto.Uma choradeira coletiva nos camarins depois.
E então sair com I. - tão lindo, mais lindo ainda -, tomar um vinho, depois vir dormir. E não conseguir: na minha cabeça, Ana C. parada à beira de uma janela. Pensamentos mórbidos: o que ela teria sentido um segundo antes de se jogar no espaço. Depois do choque, certa raiva. Com que direito, Deus, com que direito ela fez isso? Logo ela, que tinha uma arma para sobreviver - a literatura -, coisa que pouca gente tem. Pedi a Deus que não permitisse que ela ficasse muito tempo no limbo onde ficam os suicidas. Terá ouvido? Deus não andará com aquela surdez provocada pela poluição sonora?

Caio Fernando Abreu,
em carta a Jacqueline Cantore,
em 01. 11 . 1983.
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imagem: Ana C.
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domingo, 22 de julho de 2007

quem procurais não está aqui


...ainda intranqüila com o filme visto...
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Em uma das seqüências mais belas e significativas de A Primeira Noite de Tranqülidade (La Prima Notte di Quiete, 1972), Daniele Domenici (Alain Delon) e sua aluna Vanina (Sonia Petrova), visitam a capela onde está a pintura A Madona do Parto, de Piero della Francesca, apontada por Daniele como "um dos mais belos quadros do Renascimento".
O desencantado professor mantém durante todo o filme sua postura existencialista, e se define como ateu quando questinado pelo personagem de Giancarlo Gianini. Existecialista também era Valerio Zurlini, mas seu filme é rico em símbolos cristãos, em evidências do antagonismo de ideais: a filosofia existencialista X a tradição da fé cristã. E essa dicotomia o torna mais belo e inquietante.

A fala de Daniele:

Em 1960, a comunidade camponesa de Monterchi encomendou esta Madona a Piero della Francesca. Os autores da encomenda não eram papas nem príncipes nem banqueiros. Pode ser que inicialmente Piero tenha feito o trabalho um pouco levianamente.
Apesar disso, eis o milagre desta doce camponesa adolescente, nobre como a filha de um rei.
O silêncio do campo ao seu redor é tão completo. Até este momento ela deve ter-se divertido, conversando com seus animais. Ela os chama pelo nome. E ri.
Depois, de repente, tudo acabou. Pois, através dos séculos, o destino escolheu justo a sua pureza.
Ela parece compenetrada, mas não é feliz. Talvez já sinta tragicamente que a vida misteriosa que cresce dia-a-dia em seu ventre acabará numa cruz romana, como a vida de um malfeitor.
E, séculos depois, um grande poeta se dirigiria a ela com estas palavras sublimes:

"Virgem mãe, filha de teu filho
humilde e superior à criatura
por eterno conselho predestinada

"Enobreceste tanto a natureza humana
que o seu feitor não desdenhou
vir de quem criou, feitura."

Mas é provável que ela não entendesse...

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Aqui, da Divina Comédia de Dante Alighieri:

Virgem Mãe, filha de teu Filho,
humilde e mais elevada que toda
objetivo fixo da eterna Sabedoria

Tu és aquela que a humana natureza
enobreceste tanto, que o seu criador
não desdenhou fazer-se sua feitura.

Em teu seio se reacendeu o amor
por cujo ardor, na eterna paz [do céu]
assim germinou esta flor [dos santos no céu]

Aqui [no céu] és, para nós, brilhante face
e caridade, e lá em baixo, entre os mortais,
és de esperança fonte viva.

Mulher, és tão grande e tanto vales,
que querer graça e a ti não recorrer,
seu desejo quer voar sem ter asas.

A tua benignidade não socorre apenas
quem pede, mas muitas vezes,
generosamente, ao pedir precede.

Em ti misericórdia, em ti piedade,
em ti magnificência, em ti se reúne
tudo quanto na criatura há de bondade".
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imagem: A Madona do Parto, de Piero della Francesca.
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perché è bello un verso del Petrarca?


Enquanto vejo desenhos animados no cinema, em casa escolho os DVDs na prateleira do desassossego. Depois de me encantar com A Moça com a Valise (La Ragazza con la Valigia, 1961), agora outro filme de Valerio Zurlini me emociona, porque, como já disse Carlos Reichenbach, o mais cinéfilo dos cineastas brasileiros, e grande fã do diretor italiano, este é um filme que "desconcerta, mas impregna a memória de quem ama os filmes necessários e imperfeitos".
O penúltimo dos poucos (acho que são nove, ao todo) filmes de Zurlini, A Primeira Noite de Tranqüilidade (La Prima Notte di Quiete, 1972), é uma obra cheia de desesperança, mas também de poesia e lirismo, além de ter a melhor atuação da carreira do francês Alain Delon - belíssimo, mesmo de barba por fazer, com os cabelos desalinhados e usando todo o tempo um velho sobretudo de pele de camelo, pertencente ao diretor, na vida real.
Delon vive um professor de Literatura, Daniele Dominici, em crise existencial e matrimonial aparentemente de longa data, desambientado e existencialista como costumam ser os personagens de Zurlini. Ao se mudar para Rimini (depois de O Passado, o nome volta... ) para ensinar em um liceu, descobre em uma aluna - a lindíssima Sonia Petrova (a cara da modelo Daria Werbowy!) - uma tristeza semelhante à sua, e uma "pureza" (esperada) que poderia redimir sua vida, dar-lhe novo sentido. Mas, como acontecera em A Moça..., também aqui há uma história de amor fadada ao fracasso, personagens estrangeiros no mundo, ilusões que se mostram frágeis, desencanto.
É difícil ficar indiferente a tanta melancolia, tanto quanto à beleza do olhar desencantado de Delon, como se já esperasse pelo final trágico, como se já houvesse abandonado toda a esperança, ao entrar no seu mundo.
Não se pode ficar indiferente, também, à maestria do cineasta em criar imagens de beleza e impacto raros. Assim são a seqüência em que Daniele observa sua amada Vanina dançando na boate com o namorado (cena que remete, de novo, a A Moça... ), ou a visita dos dois (Daniele e Vanina) ao local onde está a pintura A Madona do Parto, de Piero della Francesca, uma imagem que traz a simetria e a pureza ideais para ele.
Valerio Zurlini colocava em seus filmes várias referências a seus interesses extra-cinematográficos, como a pintura (já foi chamado "o cineasta da paisagem") ou a literatura - desde o nome de sua protagonista, vindo de Vanina Vanini, obra de Stendhal, ou ao próprio título do filme, como disse o diretor: "A primeira noite de tranqülidade é um verso de Goethe, é a morte. Exprime a idéia de repouso ambicionada pelo homem e só possível com a morte".
O verso é inclusive citado no filme pelo personagem de Giancarlo Gianini - ótimo , assim como a bela Lea Massari, dilacerada e carente como Monica, a esposa de Daniele.
Um filme doloroso, mas belíssimo e profundo, como poucos.
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imagem: Alain Delon e Giancarlo Gianini, em cena do filme.
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sábado, 21 de julho de 2007

e-quando-eu-me-apaixonei-não-passou-de-ilusão


Para meu coração basta o teu peito
para que sejas livre as minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que dormindo estava em tua alma.

Tu trazes a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho nas corolas.
Com tua ausência escavas o horizonte.
Eternamente em fuga, irmã das ondas.

Já disse que o teu canto era o do vento
como cantam os mastros e os pinheiros.
És como eles alta e taciturna.
E entristeces de pronto, como uma viagem.

Acolhedora como antiga senda.
Abrigas ecos e vozes nostálgicas.
Desperto e alguma vez emigram, fogem
pássaros dormidos em tua alma.

Pablo Neruda,
em Veinte poemas de amor y una canción desesperada.
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allonsanfan


Julho costuma ser um mês meio árido - não, árido não! o problema é que talvez seja açucarado demais! - para quem quer ir ao cinema, ao menos aqui, onde moro. Com poucas salas de exibição (que nem cinema tem mais, tem só as salas do shopping ...) e a programação toda voltada para as férias escolares do meio do ano, haja desenhos e filmes infantis!
Mas, mesmo desejando ver mais filmes "adultos", não deixam de ser divertidas algumas das produções "para crianças", e acabo vendo quase todas, se tiver tempo.
Bem, esta semana vi Ratatouille - Ra.ta.tui (Ratatouille, 2007), de Brian Bird, o mais novo desenho da Disney, e gostei! Não tanto quanto de outros antes, mas me diverti, ri e me encantei com algumas cenas, como todas as que mostram "externas" de Paris, ou aquelas em que aparece o crítico de gastronomia, o ferrenho Anton Ego. Pena que só vi dublado em Português, perdendo assim a voz original do grande Peter O'Toole (deve estar ótimo!).
Algumas coisas já apareceram muito em outros desenhos infantis - a defesa da diferença, e da tolerância com ela, a busca da auto-aceitação - mas é um cenário pouco utilizado nos filme do gênero - a cozinha, e logo a de um restaurante francês e chique! ainda mais infestada por ratos! - e não há exatamente personagens fofos e perfeitos, o que dá um charme gauche a mais.
E, um brinde, os desenhos nos créditos finais parecem antiguinhos, daqueles meio irregulares, pré-computação gráfica, belos belos!
Saí do cinema sonhando com a ratatouille preparada para surpreender - e deliciar - o crítico...
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sexta-feira, 20 de julho de 2007

a man out of nowhere


Sou um que travou conhecimento com a noite.
Eu fui passear na chuva - e na chuva voltei.
Deixei longe a luz mais distante da cidade.
Passei pelo vigia em sua ronda
E para não explicar baixei os olhos.

Fiquei imóvel sem o barulho dos meus passos
Quando de longe um grito interrompido
Veio, por sobre as casas, de outra rua,

Mas não era chamado ou despedida;
E mais longe ainda, numa altura incrível,
Contra o céu, havia um relógio iluminando

Proclamando que a hora não era certa nem errada.
Fui um que travou conhecimento com a noite.

Robert Frost,
Travar conhecimento com a noite.
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imagem: Autoretrato, de Francis Bacon.
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quinta-feira, 19 de julho de 2007

la trahison des images


Datações XIII. Substantivo feminino.

1. ato ou efeito de mentir, engano, falsidade, fraude.
2. há bito de mentir.
3. afirmação contrária à verdade, a fim de induzir a erro.
4. elaborada à base de mentiras.
5. pensamento, opinião ou juízo falso.
6. derivação: por extensão de sentido: o que é enganador, que ilude, que se aproxima da verdade ou que é real apenas na aparência.
7. ilusão, fábula, ficção.

mentira,
verbete no Dicionário Houaiss.
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imagem: L'homme au chapeau melon, de René Magritte.
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quarta-feira, 18 de julho de 2007

em caso de dor, ponha gelo


Ando novamente lendo muito meu amado Caio Fernando Abreu, agora o livro que reúne parte de sua correspondência - Cartas, organizado por Italo Moriconi. Como várias vezes em leituras anteriores, muitas vezes me reconheço, vejo expostos muitos dos meus sentimentos, angústias, carências, mas claro que de uma forma infinitamente mais bela do que eu jamais conseguiria.
Como ele estaria hoje, se vivo?
Pensei nisso porque algo que chama a atenção ( a minha, ao menos) na ficção ou nas cartas de Caio F. é a sua falta de melindres em expor suas dúvidas e medos, sua solidão e sua necessidade de amor, suas dores. E, da mesmo forma que esse desespero era moda em 73, como cantava o cearense Belchior, hoje, em 2007, todo mundo sabe que dor é algo completamente fora de moda, um sentimento que não combina com o astral que todos esperam de nós. Usar preto, hoje? Só se for para festas, coquetéis. Esconda sua dor, dance, faça ginástica, beba, se drogue, beije muito & muitos, busque a fama, sorria-você-está-sendo-filmado, transforme sua imagem, fique rico.
E, por outro lado, num outro comportamento no mínimo estranho de hoje, parece que há algo de fashion no reino de doenças sérias e torturantes como depressão, síndrome do pânico, TOC...
Já ouvi mais de uma vez, em conversas em locais públicos, várias pessoas comentarem coisas como: "Ah, eu já tive síndrome do pânico; é um horror!", e a resposta: "Eu também! Imagina que eu não conseguia nem entrar num shopping!" Já vi também, e é bem freqüente, celebridades irem à Ilha de Caras para sofrer pelo término de alguma relação, ou até pela perda de alguém querido. Um sofrimento que deve ser brevíssimo, porque logo lá estão elas em outras manchetes, fotografando em festas e "conhecendo melhor" outras celebridades de igual profundidade.
Pode parecer - e ser! - mais um sinal da minha chatice, mas acho esses comportamentos ofensivos, uma falta de repeito com quem relamente teve sua vida invadida por problemas tão delicados e dolorosos.
A mesma falta de repeito que ocorre quando alguém me diz: "Não fica assim deprê!" Ora, como posso resolver minhas dores, fechar meus arquivos, se eles não forem assumidos, vividos (& revividos), sentidos e esgotados, até que tenham seu impacto reduzido ao mínimo?
O que há de mal em respeitar a dor alheia, num mundo onde ela está presente em cada esquina, mas em que preferimos não enxergá-la, e deviar o olhar para a vitrine mais próxima?
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imagem: Emily Watson, desconcertante como Bess, uma mulher com uma dor, em Ondas do Destino(Breaking the Waves, 1996).
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terça-feira, 17 de julho de 2007

red roses for a blue lady


Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-se, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho...

Carlos Drummond de Andrade,
Consolo no praia.
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imagem: Sorrow, gravura de Vincent van Gogh.
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sem ana, blues (i)


(...)

Lá pelas tantas Ana C. liga e diz que tá vindo. Pergunto a GM como está realmente Ana C. Climas, caras. GM diz que vai sair para pegar o banco aberto e me deixar só esperando Ana C.
Parágrafo novo. Ao fundo, acordes iniciais do Bolero de Ravel.Fumo horrores. Vejo o sovaco direito do Cristo pela janela. Batidas na porta (não tem campainha, claro). Débeis. Abro.
Ana C. MAL. Põe mal nisso. Magra, consumida, trêmula, chorosa. Não sei contar direito. Nunca vi ninguém tão frágil. Com toda minha gripe, eu era um poço de saúde ao lado dela. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). E lúcida. Parou de ir trabalhar, vai pedir uma licença. [...] O mais estranho: o caso de amor continua, e ótimo. Ana C. está sofrendo de medo de amor. Não sabe bem. Medo de amor? Culpa do prazer? Não escreveu mais nada depois do Contagem regressiva, não consegue dormir, as mãos tremem, são incapazes de datilografar ou segurar uma caneta. Está com Júpiter e Urano em oposição ao Sol/Mercúrio/ Vênus radicais, justifica, perguntaram? Deixei-a numa sessão de bioenergética, ia a um acupuntor hoje. Me convidou para irmos, com a namorada e maybe GM, para o sítio dela em Petrópolis, hoje à noite ou amanhã. Parece a Isabelle Adjani em Nosferatu, depois que começa a ser sugada. Linda, naturalmente, mas troppo morbo. Conversando com GM, somos mais por uma terapia bageense, tipo te fresqueia, prenda, come uma costela gorda, toma uns mates, dança uma chula, uma tirana do lenço, te joga nua no açude na hora da sesta. Porque tá uma crise sensível demais, dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreher pra rebater. Something like that.
E subi o morro mal, pesado. Horas pra voltar.
(...)
Pausa. Telefone. Ana C. Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaallllllllllllll. A voz, um fio. Está a mesma. A bioenergética não adiantou. Se continuo a fim do sítio, nos encontraríamos às 17h na casa de GM. Continuo (com medo). Vou. Nos encontramos. Ana C. está excessivamente débil, excessivamente yin, autocomplacente na própria fragilidade. Continuo a ser pela terapia Fala Grosso Veado. S'as que descobri que a fraqueza me deixa impaciente, deve ser Marte em I.
Paro pra olhar a paisagem, as palmeiras. M. me disse que, na natureza, tudo que tem pontas é de Oxóssi. Descobri que a maioria das pessoas que conheço me desvitalizam. E eu não vou permitir mais, nunca mais. Você é uma exceção. Maria Clara, o Jorge, outra. Pedro Paulo, outra. Me diz uma côsa, Vênus conjunção Lua não bota muita mulher na roda? Tava a fim não.
O céu tá cinza e, ainda assim, vejo o horizonte. Montanhas. O mundo é maior daqui do que da rua Camiranga. Vou ter que amamentar muito Ana C. Lua e Vênus em Câncer não dão uma capacidade fantástica de alimentar bebês? E dê-lhe Malzebier.
(...)

Caio Fernando Abreu,
em carta para sua amiga Jacqueline Cantore,
em 20.05.1983.
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imagem: Ana Cristina Cesar, a Ana C. de quem ele fala, que se suicidaria em 29 de novembro de 1983.
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sábado, 14 de julho de 2007

só dure o tempo que mereça


Tenho mil segredos para te contar
Abri todas as conchas do mar
Dentro delas achei pérolas
Com algumas te fiz um colar

Um colar de pérolas
Lisas e bem redondas
Lindas bolas claras
Contas de perder a conta

Em todos os dedos você vai usar
Anéis que eu mandei buscar
Uns no fim do mundo três gemas em Minas
Outros dez na Conchinchina meu amor
É teu meu tesouro
Ouro puro e lírios

Meu amor eu juro
Meu palácio com antúrios
Peço pense bem devagar essa oferenda
Se recusas ou aceitas
Essa oferenda
Peço pense devagar
Nessa oferenda
Só não tens a vida toda
Pra pensar

Itamar Assumpção,
Oferenda.
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imagem: Claudia Cardinale, a mais bela das italianas, em A Moça com a Valise (La Ragazza con la Valigia, 1961).
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sexta-feira, 13 de julho de 2007

que reste-t-il de nos amours


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Paulo Leminski & Alice Ruiz.
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quarta-feira, 11 de julho de 2007

é tão curto o amor, tão longo o esquecimento


barra do dia é amanhã
sangue vertido é paixão
pera vermelha é maçã
laranja azeda é limão.

vou de adeus em adeus
atrás de nova ilusão
amores que foram meus
agora de quem serão.


nelson ângelo & cacaso,
barra do dia.
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imagem: Travis (Harry Dean Stanton) e Jane (Nastassja Kinski), finalmente se encontram, no peep-show de Paris, Texas (1984), o mais americano dos filmes europeus.
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saint jean


Não tentarei descrevê-la.
Era indescritível.
Era uma incitação, uma dádiva, uma loucura.
A qualidade das rendas e das sedas, a maneira de se entrelaçarem, o modo de se abrir e de se fechar, revelar e ocultar, imitar e transformar, parecer-se e desaparecer, tudo isso contrastava maravilhosamente com aquela simplicidade guerreira, andrógina de que já falei: Diana, a santa combatente, Diana, a gamine parisiense.
Censurei-me.
Ela odiava essa palavra.
Désolé.

Carlos Fuentes,
Diana, a Caçadora Solitária.
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imagem: Jean Seberg, que inspirou a descrição acima.
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domingo, 8 de julho de 2007

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é da natureza do amor ser refém do destino.

Francis Bacon.
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sábado, 7 de julho de 2007

07.07.07


Sete motivos para gostar de Acossado (A Bout de Souffle, 1959), primeiro longa-metragem do polêmico franco-suíço Jean-Luc Godard(mesmo que não se goste dele):

1) o roteiro foi escrito por Godard e um então amigo, colega na revista Cahiers du Cinéma, que logo estrearia também na direção de filmes: François Truffaut.

2) a influência do filme nos anos seguintes, em várias cinematografias, incluindo para o nosso Cinema Novo, e na cultura de uma maneira geral, é inegável.

3) Jean-Paul Belmondo & Jean Seberg formam um dos casais mais belos & charmosos do cinema. Sempre.

4) é, ainda, o melhor filme de Godard (e, sim, isso é muita coisa!). Ao longo das décadas de 1960 e '70 o cineasta abraçaria a política e os experimentalismos de maneira extrema e radical, cometendo o pecado de tornar seus filmes chatos e tediosos. Mas sua importância para a Nouvelle Vague e para todo o cinema é evidente, mesmo que seja mais pelo que ajudou a destruir - noções de linearidade, atuações algo empostadas dos atores etc. - que pelo que construiu.

5) a liberdade está presente, viva & pulsante, em todo o filme, como poucas vezes antes ou depois.

6) o filme tem Paris, sem imagens de cartão-postal mas lindamente fotografada em p&b pelas mágicas lentes de Raoul Coutard, habitual colaborador do cineasta.

7) é bem melhor que sua refilmagem americana - A Força do Amor (Breathless, 1983), por Jim McBride, com Richard Gere e Valerie Kaprisky.
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imagem: Jean-Paul Belmondo & Jean Seberg, claro!
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terça-feira, 3 de julho de 2007

assim, afastando de leve as cortinas


Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura.
Nunca fui outra coisa.
Nasci menino, hei de morrer menino.
E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista.
Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.

Nelson Rodrigues.
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domingo, 1 de julho de 2007

espelho, espelho meu


(noto que as referências neste blog começam a ficar perigosamente sérias. vamos a outras leituras, rápido!)
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Não que eu compre, mas... de vez em quando, em salas de espera e afins (o que me leva a pensar: por que uma psicanalista teria Contigo! para seus pacientes? o que quer dizer com isso?), acabo encontrando aquelas admiráveis & informativas revistas femininas. Eu geralmente vôo sobre a Quem com unhas & dentes; acho a mais divertida delas, a mais variada.
A mais recente traz matéria de capa sobre "Beleza aos 20, 30, 40 e 50 anos". E é lida avidamente, claro!!
Se não fosse esse meu superego absurdo, bem poderia anotar algumas dicas; mas tenho vergonha e tento decorá-las, confiando além do que deveria na minha desmemória.
* Sabrina Satto diz que uma pomada usada em "machucado roxinho" acaba com olheiras. Será?!
* alguém (quem? quem?) indica Hipoglós, com o mesmo fim. Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada...
* Maitê Proença diz que toma um copo de água morna assim que acorda. (ah, o Dalai Lama faz isso também, mas não para melhorar olheiras, acho. Se ele faz, é porque é bom, certo?).

Oh-oh. Eu não gosto de água. Menos ainda de manhã cedo. Menos menos ainda morna, que dá náusea.
Tá, é por isso que eu não sou tão zen quanto o Dalai.
Nem tão linda quanto Maitê Proença, já sei... :(
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imagem: Tears, de Man Ray.
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