quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

retrô


Vou terminar 2008 me enquadrando na categoria "cinéfila não-praticante" (com ou sem hífen, meu Deus? continuo totalmente por fora da nova reforma ortográfica), tenho que admitir.
Poderia apontar vários culpados pelo descanso: o trabalho (you know I work all day...); a falta de mais opções nos cinemas e locadoras locais; o fato de ser uma dona-de-casa, agora; a preguiça, mesmo.

O fato é que, como manda a tradição dos finais de ano, estava pensando hoje, logo ao acordar, em quais teriam sido os melhores filmes vistos ao longo de 2008. Nem sei se serão 10, como também manda a tradição, mas vamos tentar:


1. Na Natureza Selvagem (Into the Wild) - o filme mais tocante do ano, com a melhor trilha sonora. Fiquei ainda mais fã de Sean Penn.
2. Desejo e Reparação (Atonement) - já havia me apaixonado pelo livro, o que quase me fazia não ver o filme, pra que não lhe diminuísse o impacto. Graças a Deus mudei de idéia, a tempo de ver e gostar muito da adaptação, quase perfeita. E tem, além de tudo, Vanessa Redgrave mais uma vez iluminada.
3. Não Estou Lá (I'm Not There) - este foi um ano definitivamente Bob Dylan, para mim. E as múltiplas versões deste filme, principalmente a de Cate Blanchett, me encantaram.
4. Batman - O Cavaleiro da Trevas (The Dark Knight) - uma das notícias mais tristes do ano foi a morte de Heath Ledger, fazendo aumentarem ainda mais as expectativas em torno do novo filme do homem-morcego. Expecativas muito bem respondidas por Christopher Nolan e seu filme; ainda que não seja, sempre para mim, claro, melhor que os dois filmes de Tim Burton...
5. Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street) - por falar em Tim Burton, olha ele aqui! Tudo bem que é um musical estranho, e que Johnny Depp às vezes se pareça perigosamente com Bento Carneiro... mas é um filme ótimo, original e mórbido-na-medida-certa, como quase tudo do diretor.
6. Sangue Negro (There Will Be Blood) - a melhor atuação do ano foi a de Daniel Day-Lewis, pra variar.
7. Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men ) - não é o melhor filme dos Irmãos Coen, mas é um dos melhores, o que já garante estar acima de muitos outros. Dá pra perdoar até o cabelo do Bardem.
8. Vicky Cristina Barcelona - Bardem de novo, agora bem mais charmoso, irresistível mesmo. Por falar no filme mais divertido de Woody Allen nos últimos tempos, acho que vou ouvir a trilha pela centésima vez.
9. Ensaio sobre a Cegueira (Blindness) - [e eu ainda não li o livro] Para confirmar (precisava?) o talento de Fernando Meirelles, um filme excelente, com elenco perfeito e impactante como poucos.
10. Juno - ser original, divertido, leve e sem julgamentos de valor fazem dele - junto com a luminosa atuação de Ellen Page - um dos melhores dos últimos tempos, sem qualquer dúvida.
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sopro, golpe


Você tem interpretado bon vivants que esquecem os males do coração embarcando em novas paixões. Soa como um Antoine Doinel [personagem de filmes de Truffaut como "Beijos Proibidos" e "Amor em Fuga"] dos anos 2000, não? Enquanto admirador confesso de Jean-Pierre Léaud [intérprete de Doinel], como vê essa comparação?
Sou mais que um admirador de Jean-Pierre Léaud, sou um aficionado. Deveria fazer um período de desintoxicação em Léaud, porque sou dependente. A questão é que, se puder dar às pessoas a gana de viver a vida como uma aventura como Doinel me deu, ficarei feliz.


Trecho de entrevista com o belo ator francês Louis Garrel, um dos mais interessantes do cinema europeu recente.
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domingo, 28 de dezembro de 2008

boas festas


(foi copiado descaradamente do meu amigo André, mas tudo bem...)

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

angry young man


Hoje, 25 de Dezembro, é dia de festa, de celebração e de presentes, mas acabei de ver uma notícia triste e impossível de ignorar. Morreu ontem, na Inglaterra, um dos mais importantes dramaturgos britânicos do século XX: Harold Pinter, aos 78 anos, vencido por um câncer.
Pinter foi revolucionário nos palcos ingleses e também escreveu e até atuou no cinema - como em Palácio das Ilusões, uma adaptação de Jane Austen por Patricia Rozema - sendo responsável, entre outros, pelo roteiro dos maravilhosos O Criado, de Joseph Losey, e A Mulher do Tenente Francês, de Karel Reisz.
Em 2005 foi premiado com o Nobel de Literatura, que recebeu fazendo um belo e contundente discurso em que criticava os planos bélicos de George W. Bush e Tony Blair.

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Aqui, na íntegra, o discurso:

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bizarre love triangles


É uma conclusão recorrente: desde mais os menos 1988 não se passa um ano em que eu não veja ao menos um filme de Woody Allen, e quase sempre gostando muito. OK, isso acontece também com Hitchcock, é verdade, mas o assunto agora é Woody.
Ontem, plena véspera de Natal, me dei um presente e fui ver, à tarde, sem pressa e numa sessão surpreendemente populosa (e eu achava que não ia dar quórum...) Vicky Cristina Barcelona, com o saldo final mais comum: saí ainda mais fã de Woody Allen do que ao entrar no cinema, e com ainda mais vontade de ver seus filmes.
É cheio de clichês de turistas-americanos-se-perdendo-na-liberdade-européia? É. Os personagens são estereótipos? São, mas não tão unidimensionais assim. Parece que o diretor, mais uma vez, homenageia outros de seus colegas, ao filmar ao estilo deles? Também.
Mas nada disso atrapalha, muito pelo contrário, e mais contribui para a alegria de ver um filme divertido, charmoso, com boas atuações de atores exatos para os papéis, trilha sonora ótima. Faz parte da diversão tentar identificar a "presença" de diretores europeus, sempre admirados por WA; se na década de '70 ele queria-ser-Ingmar-Bergman e em Memórias era felliniano, em Match Point se aproximava de Truffaut e, agora, chega muy cerca de Almodóvar, a referência mais óbvia (há até uma cena tão parecida com a participação de Caetano em Fale com Ela) e, talvez, de Eric Rohmer e sua busca pela liberdade amorosa, sem grandes dramas, sem grandes tragédias.
Saí do cinema feliz, e me lembrando de uma das declarações do diretor sobre o filme: "Já é bastante difícil conseguir viver com uma pessoa. Com duas, tende a ser mais complicado. Na vida real, a maioria das pessoas não pode conviver com essa situação. Mas, no cinema, dá para fazer isso."
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

mais uma lista


Listas, listas...
...e eu continuo não resistindo a elas.
A última que vi divulgada pode não ser definitiva - qual delas é? - mas que tem prestígio, ah, isso tem!
A über Cahiers du Cinéma lança um livro com a sua seleção dos 100 filmes que considera imperdíveis - 100 Films pour une Cinémathèque Idéale.
Aqui:

http://www.omelete.com.br/cine/100016903/Principal_revista_de_cinema_do_o_solta_lista_com_100_filmes_obrigatorios.aspx
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

tudo é conjetural

Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.
Era uma alusão às Filipinas. Pois que não amo a política, e ainda menos a política internacional, fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da memória ou da digestão; basta-me um sono quieto e apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas.


Machado de Assis,
Dom Casmurro.
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...na espera por Capitu, que estréia amanhã.

Há duas semanas revi partes de Os Maias; vi todo o início, com a história de Pedro da Maia e Maria Monforte, pulando para o final, quando Marília Pêra já ocupa o papel que fora de Simone Spoladore.
Sempre me deslumbro com as cenas, com aquele clima meio O Leopardo, com a música do Madredeus.
Hoje É Dia de Maria e A Pedra do Reino também são encantadoras, então só posso esperar algo muito bom da adaptação de Dom Casmurro por Luiz Fernando Carvalho.
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agenda

Para quem está em João Pessoa, uma ótima pedida para toda a semana que inicia hoje: o IV Fest Aruanda do Audiovisual Universitário Brasileiro:

http://www.bc10.com.br/aruanda/?p=programacao

Vão, e me contem tudo, plis.
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domingo, 7 de dezembro de 2008

ligações perigosas

Acabei de me sentir de volta para o passado, mais exatamente para os anos '80 e as revistas Manchete, cheias de informações absolutamente inúteis - mas tão divertidas - sobre celebridades.
Em meio às matérias sobre a crise no casamento de Charles & Diana ou as aventuras amorosas das belas princesas de Mônaco, nem tudo era só fofoca: havia também as notícias "sérias", como a polêmica que envolvia o "Caso von Bülow" - caso de polícia e dos mais graves, gente.
Martha 'Sunny' von Bülow era uma herdeira americana, casada durante alguns anos com um príncipe europeu, pai de dois de seus filhos. Em meados dos anos '60 casou-se com outro europeu, menos nobre e ex-rico falido, o playboy Claus von Bülow, pai de sua filha Cosima. Com episódios freqüentes de depressão, enquanto seu marido divertia-se nas festas do jet-set (viva a Manchete!) mundial, Martha se tornava mais e mais anímica e dependente ao longo dos anos, até que, em 21 de dezembro de 1980, sucumbiu a um coma profundo do qual nunca se recuperaria. A causa: dose excessiva de insulina endovenosa - além de ser pouco usual a via de administração, nada mais estranho que seu uso em alguém que não era diabética...
E assim surgiu o mistério: como foi que aconteceu a superdosagem? Uma tentativa de suicídio pela depressiva 'Sunny'? Ou uma tentativa de assassinato por seu marido tão suspeito? A dúvida - e os julgamentos - renderam matérias e matérias na imprensa mundial, o envolvimento de advogados famosos e muito dinheiro, sendo Claus von Bülow, ao final, absolvido.
'Sunny' viveria em coma pelos próximos 28 anos, encerrados ontem, dia 06, com sua morte em um asilo em Nova York.
O caso rendeu também um ótimo filme, que foi a minha primeira imagem ao ver a notícia hoje (a Manchete veio logo depois): O Reverso da Fortuna (Reversal of Fortune, 1990), de Barbet Schroeder, que proporcionou a Jeremy Irons seu Oscar de Melhor Ator - perfeito e charmosíssimo como von Bülow - e a 'Sunny' uma imagem nada simpática, na ótima atuação de Glenn Close.
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

e a vida continua

Mais um iutube, agora pra lembrar que hoje, dia 1° de Dezembro, é celebrado o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS.
Desde os anos '80, e mais ainda a partir dos '90, surgiram campanhas, movimentos, filmes, livros & tudo & tal (como diria uma das mais queridas vítimas da doença), sendo que um dos primeiros foi uma reunião de versões de standards de Cole Porter por astros pop em evidência, dirigidos por cineastas idem: Red, Hot + Blue.
Como esta, que sempre me emociona, de Every Time We Say Goodbye, por Annie Lennox:

http://www.youtube.com/watch?v=ON0qcXzuUYU&eurl=http://sound--vision.blogspot.com/
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todas as mulheres do mundo

Na mais bonita seqüência, Domingos [Oliveira] radicaliza o processo de se aproximar da realidade e, fingindo esatr diante da personagem Maria Alice, filma Leila [Diniz] nua. Desde a separação, não a via assim. Num quarto no hotel Quitandinha, em Petrópolis, ele varre com a câmera, como se fizesse um longo carinho de despedida, cada detalhe do corpo da mulher que, cansada das traições, o abandonara. Nenhuma vulgaridade sexy. Há apenas um close em que ela aparece com um breve esgar de riso. É apenas uma mulher nua com a naturalidade do seu sexo.
Em off, Paulo José lê sobre aquelas imagens o texto que Domingos escrevera, minutos antes, na Kombi que levara a equipe para o hotel:

(...)

A equipe tinha subido ao Quitandinha para realizar outra seqüência. A do "poema" não existia no roteiro. Leila foi no banco da frente da Kombi, e Domingos, atrás, escrevia com uma esferográfica enquanto tentava esconder as lágrimas. Mário Carneiro tentou uma piada: "É disso que eu gosto, cinema escrito à mão. Quando começa a datilografia, começa a acabar o cinema." Mas Domingos sabia, mesmo que depois visse falhas no estilo, que estava escrevendo as poucas linhas de um dos seus textos mais sérios.
Ele reconhece:

Era o último bilhete de amor. A gente não ia voltar mesmo. Leila estava em outra, embora minha paixão prosseguisse desvairada. Eu queria filmá-la nua, venerar a deusa, mostrar ao mundo o deslumbramento que sua alma e seu corpo tinham me causado. Gritar, numa palvra bela, um segredo que durante muito tempo tinha sido só meu.

Leila entendeu que a cena fazia todo o sentido - era o momento de reaproximação de Maria Alice e Paulo após a separação por causa da traição dele com a argentina - e topou fazer, o que aconteceu, segundo Domingos, "num silêncio de missa". O diretor não esquece a imagem grave de Mário Carneiro acionando a câmera. Todos sabiam da história por trás da cena e acrescentavam, com gestos mudos e delicadezas extras, um algo a mais à liturgia tradicional de filmar uma mulher nua.
"Eu gravava um plano e ia lá dentro chorar um pouco", lembra Domingos. "Por isso a comédia saiu tão boa."

Leila Diniz
(Perfis Brasileiros),
de Joaquim Ferreira dos Santos.
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Aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=PQVCDCBDYuI
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