quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

far far away


Qual a cor ideal de roupa para se iniciar um novo ano?
Cor do tempo (bom tempo, claro)? Cor da lua? Cor do sol?
E qual o tipo de filme para se iniciar um novo ano?
Fiquei com a dúvida acima hoje de manhã, e ela foi resolvida logo depois do café: um filme leve, belo e com começo-meio-e-fim (feliz! feliz!), exatamente nesta ordem. Pode até ser um meio lelé, ou absurdo, para alguns. E agora, quem poderá nos salvar?
- Jacques Demy, claro!
Levantei o braço até a prateleira dos "comprei-mas-não-vi" e de lá escolhi Pele de Asno (Peau d'Âne, 1970), mais um dos musicais que ele fez com Catherine Deneuve, bela até encoberta pela pele nada douce do título.
O filme é baseado num conto de Charles Perrault, um daqueles que os psicanalistas adoram interpretar - afinal, seu ponto de partida é um impensável amor incestuoso entre pai e filha, numa história-pra-criança-dormir... Deneuve interpreta a princesa belíssima, que precisa viver escondida de seu pai (Jean Marais, a fera de Cocteau, já envelhecido) e disfarçada como uma criada suja e repugnante, vestida com a pele de um asno, até ser descoberta por um jovem príncipe (Jacques Perrin).
Elegante, com música linda de Michel Legrand e cenas de beleza e humor encantadores, sem efeitos especiais mirabolantes mas com grande criatividade visual, o filme tem algumas imagens difíceis de esquecer, como a dos vestidos da princesa, sugeridos pela sua fada-madrinha (Delphine Seyrig) por serem quase impossíveis, ou o surreal baile de gatos e pássaros.
Um deslumbre.
.

2 comentários:

Roberto Souza disse...

Tive a oportunidade de assistir Pele de Asno na tela grande. Eu era criança, não fazia a menor idéia de quem fosse Jacques Demy, Catherine Deneuve ou Jacques Perrin. Muito menos conhecia Michel Legrand, apesar da canção principal do filme não ter saído da minha cabeça.

Lembro que o cinema estava lotado. O filme vinha sendo muito comentado, devido ao que foi mencionado: o deslumbramento visual da produção, a conjugação de iluminação, vestuário e cenografia, além da música, claro, tudo dando vida ao conto de fadas. Embora já fascinado então pelo poder encantatório da sétima arte, esse era um amor que não encontrava qualquer explicação, como todo verdadeiro sentimento. As imagens eram mágicas não apenas pelo movimento, mas pelo que continham de intangível.

O dia estava chuvoso, o cinema ficava em Copacabana, por alguma razão eu andava triste, provavelmente pela doença da minha avó, na época. Talvez as verdadeiras tristezas também não encontrem explicações, somente se instalem à espera de um antídoto. Naquele dia, sem dúvida, foi o filme de Demy. Me lembro que, voltando para casa, olhando as gotas de chuva na janela do carro, o mundo todo, de alguma forma, parecia ser um lugar bem melhor.

Renato disse...

Nunca vi esse filme. Na verdade, de Demy, só vi mesmo 'Os Guarda-Chuvas do Amor'...