
"Toda vida é um processo de demolição."
Talvez fosse preciso mesmo alguém capaz de um pensamento tão amargo sobre a existência para sonhar com a possibilidade de uma vida ao contrário, que se iniciasse na velhice e acabasse na mais tenra infância. Afinal, foi o mesmo Scott Fitzgerald o autor da frase acima e do conto O Curioso Caso de Benjamin Button, escrito na década de '20 e agora transposto para o cinema por David Fincher (outro que parece, ao menos em seus filmes, não ser lá dos mais otimistas), no filme homônimo (The Curious Case of Benjamin Button, 2008).
As possibilidades do tempo, como já mostrou o cinema tantas vezes antes - a lembrança mais óbvia é Em Algum Lugar do Passado - de vez em quando voltam a despertar idéias, gerando livros e filmes de resultados os mais diversos, mas geralmente interessantes. No caso específico do filme com Brad Pitt não é diferente, mas as espectativas talvez diminuam um pouco seu impacto.
Não que não seja um bom fime - dificilmente seria mau, com uma história e um diretor desses - mas deixa uma certa impressão de déjà vu, ou de que falta alguma coisa... Há certo tipo de filmes grandiosos que parecem exigir de quem os assiste comoção e envolvimento, e nem sempre isse consegue - vide As Horas - o que acaba resultando um tanto frustrante. Podem-se admirar várias de suas qualidades, como os efeitos especiais perfeitos, a música e a direção de arte idem, os atores muito bons (Cate Blanchett não falha, Brad Pitt está ótimo), mas ainda assim sente-se o peso de sua longa duração e uma certa pieguice na mensagem final. E sente-se falta de magia, de algo que realmente emocione.
Prefiro David Fincher mais perverso.
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3 comentários:
Desde que desabou uma maldição no universo cinematográfico, aguardamos o filme que reinvente o cinema. Esse afã dominou também os cineastas, o que muitas vezes os fazem dar um salto maior do que as pernas.
O grande David Fincher subverteu sua temática, seu enfoque e seu estilo disposto a concretizar o filme do século, até então. Espichou ao máximo a narrativa, lambuzou-a de sentimentalismo para vedar as brechas, confiou num lirismo natural para embrulhar o pacote.
Personagens frágeis foram camuflados com o manto da comoção, enquanto a megalomania espalhada na longa duração exigia uma cega reverência do espectador para viabilizar a catarse. Má leitura do cinema clássico e emotivo de William Wyler, George Stevens e Frank Capra. Pior ainda das lições épicas e intimistas de Howard Hawks, David Lean e Akira Kurosawa.
Lidando com o tempo, Fincher se esqueceu das lições do passado, visando as glórias do futuro. Mas ainda existe esse mesmo tempo para redimi-lo.
Falando em recorrências e releituras, mesmo que involuntárias...
Existe uma coisa interessante, um paralelo, ainda no terreno da fantasia, guardando as devidas proporções, no estranho caso de amor de Benjamin Button (Brad Pitt) e Daisy Fuller (Cate Blanchett).
Ele rejuvenesce, ela envelhece, o que provoca geralmente o desencontro. Mas em torno dos 43 anos a idade de ambos coincide, existe a interseção.
Isso traz à lembrança o que acontecia com Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer no poético LADYHAWKE, O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985), de Richard Donner: devido a uma maldição, durante a noite ele era um lobo e de dia ela era um falcão.
Assim, somente podiam se tocar por breves instantes durante o crepúsculo e a aurora...
the hunger...a deneuve e o bowie, meu casal preferido
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