
(o texto a seguir, de Sérgio Dávila em seu blog, não é nada novo, mas lembrei dele agora, depois de rever Wall-E e melhorar muito minha opinião sobre o filme!)
Wall-E, de direita ou de esquerda?
Nos últimos dias, o bate-boca sobre a orientação política de Wall-E, do filme homônimo, só perdeu em calor e em intensidade para o sobre a capa da revista "New Yorker" que traz Barack Obama em trajes muçulmanos, sua mulher, Michelle, como guerrilheira, um quadro com Osama bin Laden na parede e uma bandeira norte-americana queimando na lareira -tudo no Salão Oval da Casa Branca.
(Aliás, se o candidato democrata for "insatirizável" por ser negro, como se justificou mais de um humorista, estamos caminhando para a campanha presidencial mais sem graça da história...)
Voltando ao Wall-E, a questão é se, ao mostrar a humanidade acomodada e com todas as suas necessidades providas por uma megacorporação 700 anos no futuro, depois de destruída a Terra, o filme faz uma crítica à sociedade ultraconsumista do país -sendo, portanto, de esquerda- ou defende o fim da presença excessiva do governo na vida dos cidadãos -sendo, então, de direita.
Quando escrevia resenhas de cinema mais regularmente, já fui acusado de, depois do 11 de Setembro, enxergar traços da "Doutrina Bush" até em comercial de sabonete. Mais de um leitor chegou a sugerir que eu estava sob efeito de uma versão cinematográfica do transtorno de estresse pós-traumático. Outros iam direto ao assunto e xingavam minha mãe. Agora, chegou minha chance de me vingar.
A discussão sobre o Wall-E é não (só) alimentada por blogueiros de pijama que vivem no porão da casa dos pais em Fargo, na Dakota do Norte, mas por publicações sérias como a "American Conservative". Pensando bem, risque o "séria": em sua edição mais recente, a revista traz o tema "Eating Right", um trocadilho em inglês com "comendo da maneira correta" e "comendo da maneira conservadora"...
"No filme, se torna claro que o consumo de massa não é só produto da gana corporativa, mas dessa gana alimentada pelo excesso da presença do governo", escreve Patrick J. Ford, da "AC". "Na verdade, os dois são indistinguíveis no futuro de 'Wall-E'. O governo provém seus cidadãos com tudo de que eles precisam, e a falta de variedade leva ao colapso da Terra."
Certo.
"Depois de sete séculos de prazer controlado por corporações no espaço, os terráqueos se transformaram em consumidores obesos e infantilizados, que passam seus dias imóveis em cadeiras de descanso, olhar pregado nos anúncios das telas de computadores -em outras palavras, [se transformaram em] americanos", escreve Dana Stevens, da revista eletrônica progressista "Salon".
A luta continua.
"Desde o primeiro momento do filme, meus filhos foram bombardeados por propaganda esquerdista sobre os males da humanidade", escreveu Shannen Coffin, da (bem conservadora) "National Review". "Com exceção do capitão da nave, que se revolta contra um computador valentão, os humanos em 'Wall-E' não merecem de verdade sua chance de redenção", contra-ataca o progressista Reed Johnson, do "Los Angeles Times".
Você sabe que o clima de um país está excessivamente politizado quando os analistas começam a discutir a orientação política de um robozinho que é o personagem principal de um filme de animação.
Apenas para registro, acho que Wall-E é o melhor filme do ano.
Sérgio Dávila,
julho de 2008.
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