quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

action painting


Depois daqueles bichinhos chineses no período das Olimpíadas, passei a prestar mais atenção aos desenhos da página inicial do Google.
O de hoje, por exemplo, homenageia Jackson Pollock, o artista plástico americano que completaria 97 anos de idade neste 28 de Janeiro.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

amores possíveis


Às vezes eu sou muito fora de moda, reconheço.
Por exemplo, um dos livros de que mais gostei foi O Fio da Navalha, lido emprestado de minha tia Cleide e que me despertou a curiosidade pelo seu autor, o hoje também fora de moda William Somerset Maugham (o "primeiro romancista do segundo escalão", em sua irônica auto-definição). Não encontrei depois vários de seus outros livros, mas um dos que gostei muito foi O Véu Pintado; tanto que não poderia deixar de ver o filme baseado nele: O Despertar de uma Paixão (The Painted Veil, o título original, é bem melhor que o brasileiro).
O filme é de 2006 e dirigido por John Curran, mas todas as críticas o apontam como "um filme de Edward Norton", porque o ator produziu o filme e foi o mais empenhado em sua realização.
Também fã do livro, Norton pegou para si o papel principal - o do médico bacteriologista Walter Fane, cientista sisudo que nos anos '20 se apaixona e casa com a bela Kitty (Naomi Watts). Ele casou por amor, ela por horror - horror ao caritó, como se diz por aqui, já vaticinado por sua mãe, ao ver a filha mais nova ficar noiva antes da mais velha. Um começo meio torto, que já não prenunciava muita felicidade. O casal então viaja para a China, onde o Dr. Fane vai trabalhar, e lá sua entediada esposa acaba se envolvendo com um inglês playboy, e é flagrada pelo marido. Enraivecido, o médico resolve se mudar - com a esposa, claro - para uma região do interior do país assolada por uma epidemia de cólera e por revoltas nacionalistas, o que dará início à parte mais interessante da história.
Pode até parecer melodramático demais, mas é emocionante ver a transformação que se dá com o casal - tanto Kitty quanto Walter mudam seus sentimentos iniciais e sua relação, e surge uma bela história de amor, em meio a todas as dificuldades.
Enfim, um filme à moda antiga, meio antiquado, sim, mas belo e tocante, com atores inspirados.
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sábado, 24 de janeiro de 2009

numa banca perto de você


Ah, por falar no assunto ... a SET também se lembrou do aniversário de Nastassja Kinski e, depois de anos sem aparecer com algum destaque na revista - que teve em seu primeiro número um belo ensaio com a atriz - ela merece um quadrinho na seção DVD & VIDEO da edição de Janeiro/2009.
O texto de Alfredo Sternheim é ilustrado por uma das imagens mais conhecidas da atriz (de vestido vermelho, olhando por cima dos ombros, em Paris, Texas) e traz uma pequena seleção de "melhores momentos" de NK disponíveis em DVD. Hm. Talvez não sejam exatamente os melhores, porque inclui o infame Revolução e não tem o ótimo Por Uma Noite Apenas, por exemplo. E como faz falta O Fundo do Coração, um dos filmes mais injustiçados do planeta Terra, nunca lançado em DVD no Brasil.
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pretty baby


Se Mickey Rourke e Stéphanie de Mônaco, entre alguns outros exemplos de ícones da década de '80, ensaiam retorno ao sucesso, por que não Nastassja Kinski?
A mais bela das atrizes alemãs, uma das mais famosas ninfetas (palavrinha brega, mas era tão usada em relação a ela que não dá pra escapar) do cinema, atriz de ótimos filmes de Polanski, Coppola e Wim Wenders, Nastassja bem que merecia melhores papéis e mais notoriedade hoje em dia, ainda mantendo sua beleza e talento aos 40 anos - 40 e alguns mais, o que é incerto: ela nasceu ora em 1959, ora em 1960, ora em 1961... Seja qual for o ano, o dia é mais definido: 24 de Janeiro.
Parabéns, Nastassja!
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uma rajada de balas


Um tipo de jovem telespectador que vê velhos filmes pela primeira vez é surpreendemente sensível a seus valores e reage quase com a mesma intensidade do espectador de cinema. Mas é diferente deste. Ao contrário do espectador do cinema, parece não ter necessidade de discutir o que vê. Para começar, fica preso em casa, inativo, solitário. O tipo de telespectador a que me refiro (e os que encontrei eram todos garotos) parece ter uma extrema empatia com a telinha (tanto pelos novos programas de TV quanto pelos velhos filmes, embora raramente pelos noticiários), mas não sabe como puxar conversa, ou mesmo como entrar numa sala ou sair dela. Apaixonou-se por sua babá, por isso permanece bebê. É extraordinariamente polido e inteligente, mas de uma forma mecânica - só repete os gestos, sem interesse. Dá a impressão de que quer retirar-se dessa interferência humana e voltar à sua terra natal - a telinha. É como o prisioneiro que tem tudo o que quer na prisão e está contente por ficar lá. Contudo, estranhamente, ele e seus amigos parecem estar sintonizados uns com os outros; do mesmo modo como às vezes parece que até um adolescente trancado num armário pegaria os passos de uma nova dança simultaneamente com outros adolescentes, esses telespectadores reagem às mesmas coisasao mesmo tempo. Se encontram mais intensidade na telinha que em suas vidas, a telinha pode fornecer constantemente o que só obtemos no cinema uma vez por semana. Por que a deixariam, ou conversariam, ou sairiam de casa, quando só sentirão isso como uma perda? Claro, nós podemos ver por que eles deveriam, e a incapacidade deles de fazer relações externas é assustadoramente sugestiva do modo como nós, também, estamos isolados. É uma questão de grau. Se ficamos acordados metade da noite para ver velhos filmes e não podemos enfrentar o dia seguinte, é em parte, pelo menos, por causa da fascinação de nosso passado cinematográfico; eles vivem num passado que nunca tiveram, como pessoas que ficam obcecadas por lugares com os quais têm relações apenas imaginárias - Brasil, Venezuela, os desertos árabes. De uma maneira ou de outra, há sempre alguma coisa meio vergonhosa em viver no passado; sentimo-nos culpados, idiotas - como se o prazer que obtemos precisasse de alguma justificação que não podemos apresentar.
Para alguns espectadores, o cinema provavelmente contribui para aquela frustrante romantização de expectativas que torna a vida uma série de decepções. Vêem repetidamente o mesmo filme na televisão, como se estivessem sempre retornando ao local do crime - a vida que estavam tão ocupados em sonhar que jamais viveram. São paralisados pelo anseio, enquanto os menos românticos podem saltar o obstáculo. Outro dia ouvi uma história de um homem que desde os dias de escola estivera devotamente "apaixonado" por uma famosa estrela de cinema, tendo fantasias com ela, acompanhando a carreira dela com seus altos e baixos, seus tempestuosos namoros e casamentos com produtores, agentes e ricos desportistas e homens de negócios. Embora houvesse tido sucesso ele próprio, jamais lhe ocorreu que podia entrar na área dela - tão glamourosamente acima dele se achava a atriz. Na semana passada, recebeu uma carta de um antigo colega de escola, ao qual, anos atrás, confidenciara sua adoração pela estrela; o colega - um sujeito antipático, que jamais fizera nada na vida e tinha um emprego reles, numa firma reles - acabara de casar-se com ela.

Pauline Kael,
Filmes na televisão,
(The New Yorker, 1967)
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009


Às vezes, ser uma pessoa de palavra é ser uma pessoa de silêncio.
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oscar


E lá vem mais um Oscar!
Forest Whitaker e Sid Ganis - o presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que concede o prêmio anualmente - anunciaram há pouco os indicados para o Oscar/2009; os vencedores serão anunciados em 22 de Fevereiro próximo.
Algumas das categorias e seus indicados:


Melhor Filme:

* O Curioso Caso de Benjamin Button
* Frost/Nixon
* Milk
* O Leitor
* Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Diretor:

* Danny Boyle, por Quem Quer Ser...
* Stephen Daldry, por O Leitor
* David Fincher, por O Curioso Caso...
* Ron Howard, por Frost/Nixon
* Gus Van Sant, por Milk

Melhor Ator:

* Richard Jenkins, por The Visitor
* Frank Langella, por Frost/Nixon
* Sean Penn, por Milk
* Brad Pitt, por O Curioso Caso...
* Mickey Rourke, por The Wrestler

Melhor Atriz:

* Anne Hathaway, por O Casamento de Rachel
* Angelina Jolie, por A Troca
* Melissa Leo, por Frozen River
* Meryl Streep, por Dúvida
* Kate Winslet, por O Leitor

Melhor Ator Coadjuvante:

* Robert Downey Jr., por Trovão Tropical
* Philip Seymour Hoffman, por Dúvida
* Heath Ledger, por Batman - O Cavaleiro das Trevas
* Josh Brolin, por Milk
* Michael Shannon, por Foi Apenas um Sonho

Melhor Atriz Coadjuvante:

* Amy Adams, por Dúvida
* Penelope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona
* Viola Davis, por Dúvida
* Taraji P. Henson, por O Curioso Caso...
* Marisa Tomei, por The Wrestler
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Aqui, todos:
http://cinema.uol.com.br/oscar/ultnot/2009/01/22/ult4332u971.jhtm
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


Para mim, a melhor atividade do mundo é ir ao cinema. Para ser honesto, o melhor de tudo é estar chegando ao cinema. Adoro estar chegando ao cinema. A gente ali no carro, estacionando... talvez a gente arranje uns bons lugares, talvez não...talvez seja um bom filme, talvez tudo seja bom. Você não sabe, e enquanto você não chegar, tudo é possível. É uma delícia: estou fazendo alguma coisa, mas ainda não fiz. É uma glória. Arranjei um emprego, mas ainda não comecei a trabalhar. Não tem nada melhor. Esses espaços dentro da vida são a coisa que eu mais gosto.

Jerry Seinfeld,
O Melhor Livro sobre o Nada.
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coração couraça


Não faltam trechos de poemas, referências a poetas e poesias em A Via Láctea (2007), o belo filme de Lina Chamie sobre o amor e a dificuldade de comunicação entre os enamorados. Manoel Bandeira, Carlos Drummond, Shakespeare...

E eu me lembrei de Mario Benedetti:

Porque tenho você e não
Porque penso em você
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque vieste recolher sua imagem
e é melhor que todas as suas imagens
porque é linda do pé até à alma
porque é boa da alma a mim
porque você se esconde doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça

porque é minha
porque não é minha
porque olho você e morro
e pior que morro
se não lhe olho amor
se não lhe olho

porque você sempre existe onde quer
mas existes melhor onde lhe quero
porque sua boca é sangue
e você tem frio
tenho que lhe amar amor
tenho que lhe amar
mesmo que esta ferida doa como duas
mesmo que lhe procure e não lhe encontre
e ainda que
a noite passe e eu lhe tenha
e não.
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Para o caso de perguntarem, daqui a quarenta anos, o que eu estava fazendo durante a posse de Obama: estava sentada no sofá da sala, comendo delícia de abacaxi.
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obemo


O povo não perdoa nada, mesmo.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

scarlett, de novo


Depois da L' Oreal e da Louis Vuitton, chegou a vez dos italianos Dolce & Gabbana escolherem Scarlett Johansson como nova musa de uma de suas campanhas - muito apropriadamente, da linha de cosméticos. Scarlett volta a assumir seu lado pin-up, reconhecidamente inspirada em Marilyn Monroe e fotografada por Solve Sundsbo.
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um alaúde suspenso

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Annabel Lee,
na tradução de Fernando Pessoa
para o original de Edgar Allan Poe -
nascido há exatos 200 anos, em 19 de janeiro de 1809.
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Óia:
http://www.poe200th.com/
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a maldição do espelho

Sabe aquela história de que "o filme é uma droga, mas o diretor é genial", dita nos anos '60 em relação a certos filmes brasileiros da época e atribuída ora a Jaguar, ora a Paulo Francis, ora a Ivan Lessa?
Pois bem, essa é uma impressão que de vez em quando me dá, ao ver alguns filmes de alguns diretores usualmente muito bons. São filmes em que se reconhecem várias qualidades, sejam mais técnicas (fotografia, direção de arte) seja uma história interessante e bem narrada, mas em que falta alguma coisa...Como se as virtudes do diretor estivessem ali, todas bem reconhecíveis, mas a reunião das qualidades isoladas não resultasse tão boa quanto em outras de suas obras, como se a receita desandasse.
Nada que diminua a importância do realizador, quase sempre, mas ainda assim incomoda um pouco, frustra.
Por exemplo:
* Um Beijo Roubado, de Wong Kar-Wai - depois de ser brilhante em Amor à Flor da Pele e 2046, que pena que ele não se mostrou tão memorável ao filmar nos Steites.
* Fim dos Tempos - gosto muito de O Sexto Sentido e de A Vila, e dá pra ver que M. Night Shyamalan sabe criar suspense como poucos, mesmo num momento menos inspirado. Mas o filme não é bom, nem empolga, nem assusta...
* O Pequeno Buda e O Último Imperador - Bertolucci não precisava deles.
* O Aviador - até Scorsese, meu Deus...
* A Má Educação - Almodóvar se recuperaria em Volver, mas esse foi um momento bem menor que Fale com Ela ou Tudo Sobre Minha Mãe.
* O Curioso Caso de Benjamin Button - Forrest Gump meets Cocoon, com resultados menos mágicos.
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pensando bem...


(o texto a seguir, de Sérgio Dávila em seu blog, não é nada novo, mas lembrei dele agora, depois de rever Wall-E e melhorar muito minha opinião sobre o filme!)


Wall-E, de direita ou de esquerda?

Nos últimos dias, o bate-boca sobre a orientação política de Wall-E, do filme homônimo, só perdeu em calor e em intensidade para o sobre a capa da revista "New Yorker" que traz Barack Obama em trajes muçulmanos, sua mulher, Michelle, como guerrilheira, um quadro com Osama bin Laden na parede e uma bandeira norte-americana queimando na lareira -tudo no Salão Oval da Casa Branca.
(Aliás, se o candidato democrata for "insatirizável" por ser negro, como se justificou mais de um humorista, estamos caminhando para a campanha presidencial mais sem graça da história...)
Voltando ao Wall-E, a questão é se, ao mostrar a humanidade acomodada e com todas as suas necessidades providas por uma megacorporação 700 anos no futuro, depois de destruída a Terra, o filme faz uma crítica à sociedade ultraconsumista do país -sendo, portanto, de esquerda- ou defende o fim da presença excessiva do governo na vida dos cidadãos -sendo, então, de direita.
Quando escrevia resenhas de cinema mais regularmente, já fui acusado de, depois do 11 de Setembro, enxergar traços da "Doutrina Bush" até em comercial de sabonete. Mais de um leitor chegou a sugerir que eu estava sob efeito de uma versão cinematográfica do transtorno de estresse pós-traumático. Outros iam direto ao assunto e xingavam minha mãe. Agora, chegou minha chance de me vingar.
A discussão sobre o Wall-E é não (só) alimentada por blogueiros de pijama que vivem no porão da casa dos pais em Fargo, na Dakota do Norte, mas por publicações sérias como a "American Conservative". Pensando bem, risque o "séria": em sua edição mais recente, a revista traz o tema "Eating Right", um trocadilho em inglês com "comendo da maneira correta" e "comendo da maneira conservadora"...
"No filme, se torna claro que o consumo de massa não é só produto da gana corporativa, mas dessa gana alimentada pelo excesso da presença do governo", escreve Patrick J. Ford, da "AC". "Na verdade, os dois são indistinguíveis no futuro de 'Wall-E'. O governo provém seus cidadãos com tudo de que eles precisam, e a falta de variedade leva ao colapso da Terra."
Certo.
"Depois de sete séculos de prazer controlado por corporações no espaço, os terráqueos se transformaram em consumidores obesos e infantilizados, que passam seus dias imóveis em cadeiras de descanso, olhar pregado nos anúncios das telas de computadores -em outras palavras, [se transformaram em] americanos", escreve Dana Stevens, da revista eletrônica progressista "Salon".
A luta continua.
"Desde o primeiro momento do filme, meus filhos foram bombardeados por propaganda esquerdista sobre os males da humanidade", escreveu Shannen Coffin, da (bem conservadora) "National Review". "Com exceção do capitão da nave, que se revolta contra um computador valentão, os humanos em 'Wall-E' não merecem de verdade sua chance de redenção", contra-ataca o progressista Reed Johnson, do "Los Angeles Times".
Você sabe que o clima de um país está excessivamente politizado quando os analistas começam a discutir a orientação política de um robozinho que é o personagem principal de um filme de animação.
Apenas para registro, acho que Wall-E é o melhor filme do ano.


Sérgio Dávila,
julho de 2008.
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mais uma caixa de chocolates


"Toda vida é um processo de demolição."

Talvez fosse preciso mesmo alguém capaz de um pensamento tão amargo sobre a existência para sonhar com a possibilidade de uma vida ao contrário, que se iniciasse na velhice e acabasse na mais tenra infância. Afinal, foi o mesmo Scott Fitzgerald o autor da frase acima e do conto O Curioso Caso de Benjamin Button, escrito na década de '20 e agora transposto para o cinema por David Fincher (outro que parece, ao menos em seus filmes, não ser lá dos mais otimistas), no filme homônimo (The Curious Case of Benjamin Button, 2008).
As possibilidades do tempo, como já mostrou o cinema tantas vezes antes - a lembrança mais óbvia é Em Algum Lugar do Passado - de vez em quando voltam a despertar idéias, gerando livros e filmes de resultados os mais diversos, mas geralmente interessantes. No caso específico do filme com Brad Pitt não é diferente, mas as espectativas talvez diminuam um pouco seu impacto.
Não que não seja um bom fime - dificilmente seria mau, com uma história e um diretor desses - mas deixa uma certa impressão de déjà vu, ou de que falta alguma coisa... Há certo tipo de filmes grandiosos que parecem exigir de quem os assiste comoção e envolvimento, e nem sempre isse consegue - vide As Horas - o que acaba resultando um tanto frustrante. Podem-se admirar várias de suas qualidades, como os efeitos especiais perfeitos, a música e a direção de arte idem, os atores muito bons (Cate Blanchett não falha, Brad Pitt está ótimo), mas ainda assim sente-se o peso de sua longa duração e uma certa pieguice na mensagem final. E sente-se falta de magia, de algo que realmente emocione.
Prefiro David Fincher mais perverso.
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

transmimento de pensassão

Acabo de ver minha "sorte de hoje" no Orkut: A dança é a linguagem oculta da alma.
\O/
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music makes the people come together


Decorridos já 16 dias de 2009, minha anotação de filmes vistos já conta ... 04! Nada muito promissor, e estou com preguiça agora de procurar a agenda do ano passado pra confirmar, mas acho que 2008 foi mais escasso ainda.
A amostra é pequena, mas já se nota uma predominância de gênero: 03 musicais para uma comédia. Se bem que são três musicais bem diferentes entre si:

* uma fábula de Jacques Demy (Pele de Asno)

* o que já foi definido pelo seu diretor como uma "comédia musical neo-realista" - Uma Mulher É uma Mulher (Une Femme est une Femme, 1961), um dos melhores filmes de Godard, com Anna Karina radiosa e algumas cenas inesquecíveis, que mostram desde referências aos musicais clássicos de Hollywood, como Cantando na Chuva, até uma maneira ótima de forrar a cama.

* o último visto, bem hollywoodiano: Dreamgirls - Em Busca de Um Sonho (Dreamgirls, 2006).

Perdi de ver o filme de Bill Condon no cinema, quando passou aqui em Campina, e depois sempre ficava deixando pra outro dia; até havia começado a ver e parei bem no início, mas ontem vi todo, e não me arrependi.
É uma espécie de biografia disfarçada das Supremes e de um pouco da história da gravadora Motown, que revelou alguns dos mais brilhantes artistas americanos negros do século XX, mas mesmo quem não conhece muita coisa do assunto pode se empolgar com a história e com as ótimas músicas, além dos atores estarem muito bem, principalmente Eddie Murphy (que eu acho muito chato, mas não aqui) e Jennifer Hudson, como a mais talentosa mas também mais gorda e menos bonita do trio de cantoras que sonha com - e consegue - o sucesso. Beyoncé Knowles não é exatamente uma boa atriz, mas é linda e canta bem, mesmo que sem o vozeirão de Hudson; estou curiosa pra vê-la como Etta James em Cadillac Records.
Não chega a ser tão bom quanto Chicago ou Moulin Rouge - Amor em Vermelho, e poderia ter sido menos superficial e mais bem resolvido - por exemplo, na metade inicial a música aparece apenas nas canções dos artistas que se apresentam, mas do meio para o fim os personagens resolvem agir como nos mais tradicionais musicais da Metro: param no meio da ação e começam a cantar e dançar. Mas é divertido, tem um final redentor e, como costuma ser com a maior parte dos musicais, deixa a gente feliz e com vontade de sair por aí abrindo os braços para o mundo e cantando coisas como the hills are alive...
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vale tudo


É hoje!
Tudo bem que a última semana não foi das mais verossímeis - como aquela fuga mirabolante de Flora da ambulância - e parece que o autor se esqueceu de alguns acontecimentos mais antigos, como os dólares que Donatella deixou para Lara, em uma conta no exterior, ou a morte da jornalista Maíra, mas isso pouco importa. O que importa mesmo é o que acontecerá hoje à noite, no último capítulo de A Favorita, uma das mais interessantes e inventivas novelas dos últimos anos.
O que eu queria: um final feliz para Donatella e Zé Bob, claro, e um castigo para Flora, assassinada por sua filha, Lara, que recuperaria tudo que a vilã roubou dos Fontini e fugiria com Halley pra bem longe, deixando Irene a ver navios. Lara teria herdado de seus pais - Flora e Dodi - os genes da desonestidade e da dissimulação, que só revelaria bem no finalzinho da história...
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

é verão!

... e Campina segue como sempre, no mês de janeiro: deserta, com a população dividida em dois grupos:

* quem foi veranear em João Pessoa (= Camboinha)
* quem não foi, mas não sai de casa de jeito nenhum, só pra não ser visto e passar por sem-dinheiro-pra-viajar.
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domingo, 11 de janeiro de 2009

sereníssima


De volta aos anos '80!
A VogueParis (Dezembro/Janeiro) traz na capa e com destaque absoluto ao longo da revista ninguém menos que a princesa Stéphanie de Mônaco, ainda bela aos quase 44 anos, fotografa por Mario Testino (no interior da revista) e Mert Alas & Marcus Piggott, na foto da capa.
Stéphanie de Monaco règne sur ce numéro, diz o editorial, que a chama de ideal feminino inconteste dos anos '80 e rainha de sua época.
E eu já peguei o meu exemplar, claro.
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para onde os patos vão no inverno?


Dia desses eu estava assistindo à reprise de Mulheres Apaixonadas (ócio, doce ócio) e revi uma cena que já chamara minha atenção da primeira vez que vi a novela: José Mayer (César) presenteia sua filha Marcinha com uma edição especial de três livros de J. D. Salinger, falando principalmente, claro, de O Apanhador no Campo de Centeio.
Embora pareça um tanto forçada a cena, e nenhum dos personagens ali pareça ter lido ou, menos ainda, sido influenciado pela narrativa de Holden Caulfield, não deixa de ser interessante a referência ao clássico americano, um dos mais reverenciados e polêmicos do século XX - principalmente depois que Mark Chapman surtou e resolveu apontar o livro como influência para matar John Lennon, gerando toda uma especulação sobre o caráter "nocivo" dele.
Nada mais injusta, aliás, do que essa fama de malditos para um livro e um personagem tão envolventes e honestos, puros mesmo, no melhor sentido dessa palavra.
Lembrei, ao rever a cena, da defesa de Salinger pelo autor italiano Roberto Cotroneo, em seu livro Se uma Criança, Numa Noite de Verão... (Cartas para meu filho sobre o amor pelos livros):


Aí falarei de outro autor, nosso contemporâneo. É um sujeito estranho, escreve em inglês e se chama Jerome David Salinger. Vou lhe contar a respeito do seu jovem Holden, isto é, do personagem central de O Apanhador no Campo de Centeio, para mostrar-lhe o que é a transgressão, mas também a ternura, e de como a transgressão e a ternura podem ser companheiras de viagem (no fundo você é um transgressor).
(...) Mas aí, no fim, vamos entender que este romance de Salinger não quer apenas relatar a história de um jovem que decide quebrar todas as regras, mas sim algo mais: é a história de um jovem irônico perdido num mundo de plantações de centeio que ficam à beira de um abismo onde os apanhadores são raros. É um livro que fala de um adolescente em busca desesperada de generosidade, é um tratado contra o egoísmo, contra um mundo intolerável feito de mediocridade disfarçada de grandeza, de retórica que só serve para esconder mesquinharias de todo tipo. É um grande livro, Francesco, porque mais uma vez parece escrito de forma simples. Mas não se deixe levar pelas aparências. Salinger também precisa ser lido nas entrelinhas, precisa de muitos apartes.
(...)É realmente incrível como este livro consegue ser ao mesmo tempo um exemplo de crítica feroz da sociedade e uma grande lição de tolerância.
(...) Tornar-se adulto exige um preço que Holden tentou até o fim não pagar. (...) Tornar-se adulto quer dizer mudar a maneira como se vê o mundo, e até mudar a maneira de cometer enganos, de errar. Nem sempre é agradável, mas é necessário. O importante, querido Francesco, é saber que em algum lugar há um apanhador qualquer, perdido num imenso campo de centeio. Pronto a salvar as crianças - pelo menos elas - antes de caírem naquele abismo assustador. É apenas um sonho. Que contrasta com todas as realidades idiotas que Holden tem continuamente de enfrentar. Mas com ele funcionou, e pode funcionar com você também. Mesmo que algumas vezes, após sonhar demais, você se sinta imbuído da melancolia da frase final do romance:
"É engraçado. Não contem coisa alguma a ninguém. Se contarem alguma coisa, acabarão sentindo falta de todos. "
É a pura verdade, Francesco.
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

far far away


Qual a cor ideal de roupa para se iniciar um novo ano?
Cor do tempo (bom tempo, claro)? Cor da lua? Cor do sol?
E qual o tipo de filme para se iniciar um novo ano?
Fiquei com a dúvida acima hoje de manhã, e ela foi resolvida logo depois do café: um filme leve, belo e com começo-meio-e-fim (feliz! feliz!), exatamente nesta ordem. Pode até ser um meio lelé, ou absurdo, para alguns. E agora, quem poderá nos salvar?
- Jacques Demy, claro!
Levantei o braço até a prateleira dos "comprei-mas-não-vi" e de lá escolhi Pele de Asno (Peau d'Âne, 1970), mais um dos musicais que ele fez com Catherine Deneuve, bela até encoberta pela pele nada douce do título.
O filme é baseado num conto de Charles Perrault, um daqueles que os psicanalistas adoram interpretar - afinal, seu ponto de partida é um impensável amor incestuoso entre pai e filha, numa história-pra-criança-dormir... Deneuve interpreta a princesa belíssima, que precisa viver escondida de seu pai (Jean Marais, a fera de Cocteau, já envelhecido) e disfarçada como uma criada suja e repugnante, vestida com a pele de um asno, até ser descoberta por um jovem príncipe (Jacques Perrin).
Elegante, com música linda de Michel Legrand e cenas de beleza e humor encantadores, sem efeitos especiais mirabolantes mas com grande criatividade visual, o filme tem algumas imagens difíceis de esquecer, como a dos vestidos da princesa, sugeridos pela sua fada-madrinha (Delphine Seyrig) por serem quase impossíveis, ou o surreal baile de gatos e pássaros.
Um deslumbre.
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