
Só muito mais tarde assisti ao filme predileto de Santiago [ A Roda da Fortuna]. Se o mostro aqui, é porque ele me ajudou a entender que algumas transformações da minha vida aconteceram sem que eu percebesse.
No filme, Fred Astaire faz o papel de um dançarino de vaudeville, e Cyd Charisse, o de uma bailarina clássica. Os dois são convidados para estrelar a mesma peça e, claro, não se dão bem.
Quando tudo parecia perdido, Astaire convida Charisse para um passeio no parque. Meio sem jeito, eles caminham lado a lado. Não se falam nem se olham.
E então, acontece uma coisa linda e gratuita:
(...)
Ao fim da história [de Viagem a Tóquio, que tem uma cena mostrada pouco antes], a filha caçula pergunta: "A vida não é uma decepção?" Sua cunhada responde com um sorriso franco e generoso: "Sim, ela é."
Acho que é uma resposta que Santiago compreenderia. Enquanto viveu, ele se ocupou com seus nobres e suas castanholas. Foi salvo por coisas tão gratuitas quanto a dança no parque de que gostava tanto. Com elas, quem sabe?, pôde suportar a melancolia de quem suspeita que as coisas não fazem mesmo nenhum sentido.
Santiago (2006)
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De novo entra o filme de João Moreira Salles aqui, porque eu me lembrei dele, mesmo sem muita lógica na associação, quando terminei de ver Saneamento Básico - O Filme (2007). O filme de Jorge Furtado, além de ser uma comédia com momentos engraçadíssimos (graças principalmente a Wagner Moura e Camila Pitanga) e com a presença sempre ótima de Paulo José, serve para fazer pensar sobre a utilidade das coisas. O cinema é útil? a arte é útil? mais que um esgoto? menos que o destino do lixo? é ético se preocupar (e gastar dinheiro) com coisas como cinema, num país tão cheio de necessidades mais reais e imediatas?
Sim; sim; tanto quanto; tanto quanto; sim - concluem os personagens e o diretor. Até porque se do mundo nada se leva e tudo se deixa, quanto mais fizermos para melhorá-lo (com filmes, com saneamento básico) melhores também nos tornamos.
E a beleza salvará o mundo!
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