
E de repente ele viu sua mulher naquele vestido roxo da noite em que a conhecera, reviu a expressão do rosto dela quando os seus olhares se cruzaram pela primeira vez - aquela expressão que o fizera se apaixonar imediatamente. À época, ele pensara que a expressão se devia ao vestido, à insegurança de usar um vestido tão sofisticado, num clube sofisticado. Mas não, não fora bem isso. Era a expressão de terror, um terror mal reprimido, que nunca a abandonava. Era o pavor do mundo exterior - de trens, de bombas, de bondes chocalhantes, de britadeiras, de avenidas mergulhadas nas sombras, dos russos, de submarinos e de bares cheios de homens raivosos, de mares povoados de tubarões, de asiáticos com um livro numa das mãos e um rifle na outra.
Dolores tinha medo de tudo isso e de muito mais. O que mais a aterrorizava, porém, estava dentro dela, uma espécie de inseto dotado de uma existência sobrenatural, que sempre vivera no seu cérebro, brincando com ele, arrancando-lhe os cabos ao seu bel-prazer.
Dennis Lehane,
Paciente 67.
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