segunda-feira, 30 de junho de 2008

que rei sou eu?


Copiei descaradamente do blog de Renato Félix, mas não resisto a testes:




O bicho que deu?
O que está aí: Crepúsculo dos Deuses.
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the art of losing


Fico sempre emocionada ao ver imagens de Jean-Pierre Léaud fora dos filmes de Truffaut, como naquela seqüência de Os Sonhadores em que se alternam duas de suas imagens - uma de '68 e outra atual, lendo o mesmo texto em defesa de Henri Langlois. Ou na sua entrevista nos extras do DVD do filme de Bertolucci, envelhecido e melancólico.
Mas nunca mais do que ao vê-lo em François Truffaut, une Autobiographie (2004), documentário em que Léaud aparece, acabado por trás dos óculos escuros à la Sophia Loren, no enterro do diretor, em outubro de 1984. É uma cena tão rápida quanto marcante, ouvindo-se em off a voz de Truffaut/ Ferrand, que diz:

"Bem, você vai entrar no seu quarto. Você vai reler o roteiro, você vai trabalhar um pouco e vai tentar dormir. Amanhã tem trabalho e o trabalho é mais importante. Não se faz de besta, Alphonse, você é um ator muito bom, o trabalho está indo bem.
"Eu sei, tem a vida particular, mas a vida particular, ela é imperfeita para todo mundo. Os filmes são mais harmoniosos do que a vida, Alphonse, não há engarrafamento nos filmes, não há tempo morto. Os filmes avançam como trens na madrugada. As pessoas como eu, como você, você bem o sabe, a gente é feito para ser feliz no trabalho, no nosso trabalho de cinema.
"Tchau, Alphonse, eu conto com você. "

A colagem da cena do enterro de Truffaut, da imagem abatida de Léaud, do diálogo do diretor de A Noite Americana ao ator Alphonse (que também é o nome do filho de Antoine Doinel) aparece bem no início do documentário, durante o qual todos falam sobre Truffaut: ele mesmo, mulheres que ele amou, como Madeleine Morgenstern-Truffaut, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Nathalie Baye, seus companheiros e admiradores, como Milos Forman, Steven Spielberg, Woody Allen, entre vários outros - exceto Léaud, que não tem nas lembranças o mesmo sorriso de todos os outros.
Acusado tantas vezes de ser quase sempre autobiográfico em seus filmes, até mesmo naqueles em que adaptava obras literárias de outros, Truffaut sempre rebatia que não havia tanto de auto-referência quanto achavam, inclusive no seu Antoine Doinel, com quem muito se confundia. Dizia também que havia começado a filmar porque porque sentia uma certa falta de sinceridade no cinema.
Em que medida então a vida não é como os filmes?
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sábado, 28 de junho de 2008

hoje acordei gorda


Nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.
Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura. Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.
Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface ou rúcula.
A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, uma costelinha de porco, daquelas de lamber os beiços, uma vaca atolada, uma massa, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um barreado, um bife à milanesa, um chambaril, um torresmo decente, uma costela no bafo.
Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os Desajustados'', quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida, abafa o caso.
Toda preocupação feminina agora está voltada para a estatística das calorias, as quatro operações da magreza absoluta, ditadura da tabuada, lero lero, vida noves fora zero. É como se todas fossem posar para a ''The Face'' ou algo do gênero do dia para a noite, fazer bonito nos editoriais de moda, vôte! Mal sabem que isso não tem, para homem que é homem, quase nenhuma importância.
François Truffaut, o francês cineasta, padrinho sentimental deste cronista, já alertava, em depoimentos registrados em suas biografias, o valor insuperável das mulheres normais e o seu belo mundo de pequenas imperfeições. Tudo sob medida das nossas taras sem réguas, sem balanças, sem trenas.
Além do prazer de vê-las comendo, coisa mais linda, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, cricris, chatas, dão mais trabalho na rua, em casa, no bar, pense no barraco!
Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.
Às fogazzas, aos pastéis, aos cabritos, ao sanduíche de mortadela, ao lombo, de lamber os lábios, galetinhos de tevês de cachorros -gloss natural da existência-, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado, que capricha na carne e incentiva os seus pecados todos. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste...O importante é reabrir o apetite das moças, pois homem que é homem, como diz meu velhíssimo mantra, não sabe sequer - nem procura saber - a diferença entre estria e celulite.


Xico Sá,
Comer, comer - mo combate à anorexia das gazelas.
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sexta-feira, 27 de junho de 2008

mudança de comportamento

Berna, 02 de janeiro de 1947.

Querida,

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e de outras pessoas. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou a falta de caráter, um mês antes de irmos ao Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta, eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo o interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco a minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-me de coragem, como ela disse, e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que faz um pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - esse é o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.


Tua
Clarice.
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i tell you, it's a whole different sex!


Há algumas semanas houve certa polêmica em torno de uma discussão entre Clint Eastwood e Spike Lee sobre a participação dos negros no cinema, que extrapolou, em alguns locais, para a discussão sobre "cinema negro" X "cinema branco".
Claro que não se chegam a muitas conclusões nessas polêmicas, mas o bom é a discussão toda, os argumentos e exemplos de cada lado.
E as outras questões que podem surgir a partir delas, como:
- se a cor da pele, ou melhor, a raça, pode ter sua influência na produção da arte, o que dizer do gênero do artista?
- ou: existe "cinema de homem"e "cinema de mulher"?

O que se espera do gênero feminino, mais comumente? "Sensibilidade", subjetividade, uma certa delicadeza maior, doçura. Mas Leni Riefenstahl era mulher, e seus filmes não são exatamente meigos. Há problemas essencialmente femininos, que um homem não retrataria com propriedade? O que pensar de alguns filmes de Bergman, então, como Gritos e Sussurros ou, mais ainda, Sonata de Outono?
O gênero masculino seria, por oposição, mais objetivo, menos emocional, "forte". Como os homens retratados por Almodóvar em Fale com Ela ou Volver? Uma mulher faria O Homem que Amava as Mulheres de outra forma, digamos, "julgando" Bertrand Morane?
É necessário ter identificação com determinado gênero para realizar filmes "masculinos", "femininos" ou "homossexuais"? O Segredo de Brokeback Mountain seria um filme diferente se feito por um gay? E Querelle por um heterossexual?
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Para mim, há, sim, filmes de diferentes gêneros, mas talvez isso nem sempre tenha tanta relação com o gênero do realizador.

Assim:

* alguns filmes masculinos: Rastros de Ódio, Na Natureza Selvagem, Cães de Aluguel, Baixio das Bestas, Querelle.

* alguns filmes femininos: As Virgens Suicidas, Sonata de Outono, Amor à Flor da Pele, Pecados Íntimos, Fale com Ela.
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

veja o filme, ouça o disco...


Um filme vale apenas por uma bela trilha sonora?
A pergunta está exagerada, admito. Mas não há como fugir à impressão de que, em Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, 2007), o filme de Wang Kar-Wai estrelado por Norah Jones, a trilha é o que há de melhor, mesmo que haja nele, claro, várias outras qualidades.
A bela Norah Jones é excelente cantora, e felizmente não segue a linha Madonna de atuação: está ótima em seu primeiro papel no cinema, até melhor que Natalie Portman, boa atriz mas aqui meio perdida no papel e no visual - talvez ela seja Audrey Hepburn demais para um papel um tanto vulgar. Jude Law é J-u-d-e L-a-w, tão belo que não dá pra saber se é bom ator mesmo. David Strathairn e Rachel Weisz talvez merecessem até um filme só para eles, de tão bons e tão interessante o seu "episódio".
Mas nada que se compare à trilha cheia de canções tristes e belíssimas, seja a composição de Gustavo Santaolalla, feita para o filme, seja a maravilhosa "Try a Little Tenderness", na voz de Otis Redding. Desde The Commitments eu não ouvia tanto a canção, e é sempre apaixonante.
E há, last but not least, Ry Cooder - para acentuar mais ainda a impressão de Kar-Wai meets Wim Wenders, Ruth Brown, Cat Power...
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pequenas chamas

Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.

No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las:


Carlos de Oliveira,
Descida aos infernos (9)
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quarta-feira, 25 de junho de 2008

um, nenhum e cem mil





Quando eu já nem achava que veria Não Estou Lá (I'm Not There, 2007) no cinema, consegui encontrar ainda uma sessão, mesmo que na última noite da viagem, num cinema quase vazio (dois casais na sala, apenas), morrendo de frio e com os pés acabados de andar.
E até agora, dois dias depois, não saem da minha cabeça várias de suas cenas e músicas. Mais impressões do que idéias formadas, na verdade, porque nem sempre tenho idéias claras quando gosto muito de um filme.
Claro que não é uma biografia corretinha e linear, nem seria tão interessante se fosse - o que me faz lembrar de Holden Caufield começando seu relato: "Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso." Pois bem, Todd Haynes também se manteve distante de toda essa lenga-lenga ao retratar, mesmo que sob diferentes nomes e rostos, o que imagina ter sido parte da vida de Robert Allen Zimmerman, ou Bob Dylan, o mais misterioso e mítico dos roqueiros.
Fragmentado, ainda melhor quanto mais se conhecem as músicas e algumas das declarações de Dylan - o que me faz achar que devo ter perdido um bocado de coisa!, é uma biografia que mais pergunta que responde, talvez porque o próprio biografado nunca responda muito, mesmo. Mas nunca deixa de ser intrigante ver sob que máscara retornará o recalcado, sob qual persona veremos o cantorpoeta cheio de histórias (que nem sempre encontram correspondência na realidade, como diz uma biografia do A&E Mundo, toda séria).
A mais interessante, hipnótica até, é a comentadíssima personificação por Cate Blanchett, impressionante na imagem mais angustiada e célebre de Dylan, como nas famosas fotos de Jerry Schatzberg. Mas gostei demais da versão mirim, um menino negro andarilho que vai visitar um moribundo Woody Guthrie, e também do criticado Billy the Kid de Richard Gere, um tanto melancólico, misterioso, sempre em fuga, sem que se saiba dele ao certo nem o nome.
Como Bob Dylan.
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top top


Mais listas, pra abastecer o blog sem exigir demais da minha preguiça junina:

O American Film Institute revelou há alguns dias os seus "Top Ten" - os dez mais relevantes filmes em dez gêneros clássicos do cinema.

And the winners are:

. ANIMAÇÃO: Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1938)

. COMÉDIA ROMÂNTICA: Luzes da Cidade (City Lights, 1937)

. WESTERN: Rastros de Ódio (The Searchers, 1956)

. ESPORTES: Touro Indomável (Raging Bull, 1980) U-hu! \O/

. SUSPENSE: Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958) U-hu! ²

. FANTASIA: O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939)

. FICÇÃO CIENTÍFICA: 2001 - Uma Odisséia no Espaço (2001 - A Space Odyssey, 1968)

. GANGSTERS: O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972)

. DRAMA DE TRIBUNAL: O Sol É para Todos (To Kill a Mockinbird, 1963)

. ÉPICO: Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962) U-hu!³


Todos os escolhidos:


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ei!
Cadê os musicais?!
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a luta mais vã

Ter cuidado com as palavras,
inclusive as miraculosas.
Para as miraculosas faremos nosso melhor,
às vezes elas enxameiam como insetos
e não deixam uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como os dedos.
podem ser tão firmes como a rocha
que você finca seu traseiro.
Mas elas podem ser também margaridas e feridas.

Sim, sou amante das palavras.
Elas são pombas que caem do teto.
São seis laranjas sagradas pousando no meu colo.
Elas são as árvores, as pernas de verão,
e o sol, sua face apaixonada.

No entanto elas me faltam.
Tenho tantas que quero dizer,
tantas histórias, tantos provérbios etc.
Mas as palavras não são boas o suficiente,
as incorretas me beijam.
Às vezes eu vôo como uma águia
mas com as asas de uma cambaxirra.

Porém tento ter cuidado
e ser gentil com elas.
As palavras e os ovos devem ser manejados com cuidado.
Uma vez quebrados são impossíveis
de reparar.

Anne Sexton,
Palavras.
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quarta-feira, 18 de junho de 2008

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O silêncio sentou no meu sofá.
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sábado, 14 de junho de 2008

a tristeza é senhora


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assombro e silêncio

Li o depoimento de Bráulio Tavares, que colei pouco antes, e me deu inveja dele.
Não por ele ter vivido em '68, não. Mas pelo trecho "Juntamente com Jakson e Marcos Agra, eu pegava o ônibus até Recife para ver Blow-Up de Antonioni ou Alphaville de Godard no Cinema de Arte Coliseu, em Casa Amarela. "
Os dois Agras citados são meus parentes distantes; um deles eu conheço (Marcos) ao menos de vista e de chapéu, mais por ser amigo e colega de minha mãe que pelo parentesco - a família é grande, e eu não sou exatamente a pessoa mais extrovertida do mundo, não me aproximo muito. Mas o primeiro, já falecido há mais de 20 anos, sempre foi meio lendário para mim.
Jackson morreu quando eu ainda era bem pequena, junto a outro primo, este sim mais próximo, "primo legítimo" ou em primeiro grau, muito jovem ainda, chamado Fábio, de quem tenho muito vagas lembranças (que podem nem ser dele, aliás, já que ele tinha um gêmeo idêntico e eu era pequena demais pra ter lembranças mais exatas de um ou de outro).
Sempre que se falava na morte dos dois rapazes, havia um misto de dor, claro, e algo mais silencioso, menos explícito, mas que se tornou mais claro à medida que eu crescia e perguntava mais e mais sobre eles à minha avó, tias, pais e irmão. Uma sensação de perda maior que a de dois jovens parentes, como se com eles se perdesse muito da alegria, da vivacidade da família, já que os dois pareciam haver sido realmente marcantes, pessoas de quem todos se lembravam com saudade e admiração, por transmitirem liberdade, alegria, cultura, num período em que aparentemente esta cidade viu momentos bem mais interessantes que os de hoje, apesar das dificuldades óbvias do país.
Jackson era cinéfilo, fã dos Beatles (de quem tinha duas coleções de discos, um para ouvir e outra para guardar, como eu!) e de poesia. Lembrado pelos amigos como "sempre presente", "inesquecível".
Não tenho inveja de muita coisa, ao menos conscientemente, mas tenho de quem o conheceu.
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o raio da silibrina!

Em maio de 1968 eu estava vivendo maio de 1968 com força. Ouvia sem parar o Sgt. Pepper’s dos Beatles, os primeiros LPs de Caetano Veloso e dos Mutantes, além de discos recém-lançados de Sidney Miller e Baden Powell. O Cine Distração, nas manhãs de sábado do Capitólio, exibia para uma platéia lotada de gente filmes como O Processo de Orson Welles e Oito e Meio de Fellini. Juntamente com Jakson e Marcos Agra, eu pegava o ônibus até Recife para ver Blow-Up de Antonioni ou Alphaville de Godard no Cinema de Arte Coliseu, em Casa Amarela. As agitações políticas do movimento estudantil me fascinavam sem me entusiasmar, mas pelo menos me induziram a deixar de lado por alguns instantes Kafka e Aldous Huxley, e dedicar algumas horas por dia a ler os jornais, para saber por que diabo Paris estava em chamas. Uma coisa interessante dessa época era que ninguém fazia livros, mostras, exibições ou festivais cujo tema fosse "1928" ou "1948". O país inteiro não estava, como hoje, relembrando datas ou tentando resgatar uma chama perdida no passado. A melhor maneira de entender o que foi 1968 é viver 2008. Com força.

Bráulio Tavares,
desafinando - graças a Deus! - o coro dos contentes.
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olha, repara, ausculta: essa riqueza


A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história, em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, aconsciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!

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O texto abre o belo O Arco e a Lira, de Octavio Paz, e me deslumbra desde que li a primeira vez (obrigada, Cadu!). Há algumas semanas me lembrei novamente dele, ao pensar em outro ensaio famoso e de grande beleza, agora do italiano Pier Paolo Pasolini, em que ele fala de um cinema de poesia em oposição a um cinema de prosa. ("O Cinema de Poesia", conferência publicada em seu livro Empirismo Herege).
Voltei a ele depois de ver, finalmente, Limite, o famoso e comentadíssimo filme de Mário Peixoto, que só conhecia de leituras e de uma versão em livro dos seus fotogramas (ou seja, ou havia lido uma fotonovela!).
Ou melhor, depois de ver a beleza.
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o fantástico mundo de bob


Poets References:
Aesop, W.H. Auden, St. Basil, Bertolt Brecht, Gwendolyn Brooks, Charles Bukowski, Samuel Taylor Coleridge, Gregory Corso, Stephen Crane, e.e. cummings, TS Eliot, Robert Frost, Ted Hughes, C.S. Lewis, Christopher Marlowe, Sylvia Plath, Alexander Pope, Rainer Maria Rilke Anne Sexton, Shakespeare, Gertrude Stein, Jonathan Swift, Alfred Lord Tennyson, Dylan Thomas, William ButlerYeats."

(o que está dentro da cabeça de Dylan, segundo a Vanity Fair.)
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sexta-feira, 13 de junho de 2008

O.O

Vixe.
Aconteceu de novo.
Depois das coincidências de Rubens Gerchman e Alain Robbe-Grillet, mais uma.
Ontem chegaram os filmes de Truffaut que havia pedido na 2001 - um belíssimo presente de Dia dos Namorados, se não houvesse sido de mim para mim - mas nem estava animada a ver nenhum deles. Uma data tão pouco convidativa a ver filmes bons, sem dúvida, mas nada felizes. Ontem era dia de ver Enquanto Você Dormia, ou Sintonia de Amor.
Olhei, olhei, mexi nos DVDs, e qual escolhi? Um Só Pecado, um dos recém-chegados. Agora há pouco fui procurar novidades na página de cinema do UOL e o que encontro? "Morre o ator francês Jean Desailly, protagonista de 'Um Só Pecado' ".
E nem quero me lembrar qual sexta-feira é hoje.
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a mulher do lado


Mais um Trufaut!

Da Silver Screen, que já me disseram ser mais uma Cocotinental da vida, mas mesmo assim mais um Truffaut!
Vi ontem Um Só Pecado (La Peau Douce, 1964), um dos que ainda não vira mas que queria muito, apesar de haver lido que o próprio diretor se decepcionara com o resultado final, achando-o um filme "deprimente, que 'puxava para baixo'. (...)um filme desagradável de ser visto.", diz ele em O Cinema Segundo FT.
Mas não deixa de ser no mínimo interessante, principalmente se reconhecermos tantas identificações entre personagem e cineasta, algo que não é nenhuma novidade em se tratando de Truffaut: um personagem masculino mais "fraco" e indeciso, adúltero que mostra tanta dúvida e tão pouca decisão que acaba sendo abandonado pela esposa e pela amante, cada uma por sua razão. E ainda as mulheres mais fortes, determinando a ação, o amor aos livros (e a Balzac, que é o "padrinho" do caso extra-conjugal), a presença de crianças, o cinema. Tem até uma cena que seria repetida dez anos depois, em A Noite Americana, com um gatinho se aproveitando das sobras de uma bandeja de café-da-manhã.
E, mais ainda, há o fato de que o próprio Truffaut se envolveu, durante o filme, com sua bela atriz (novidade...), aqui na doce pele de Françoise Dorléac, linda, linda, de morte precoce e trágica (e irmã mais velha de Catherine Deneuve). O personagem principal se chama Lachenay, que era também o sobrenome de um dos melhores amigos de Truffaut, Robert Lachenay; as cenas do apartamento do casal "oficial" foram feitas, valha-me Nossa Senhora dos Atos Falhos!, no apartamento em que viviam Truffaut, sua esposa e filhas.
Mas, saindo da coluna de Nelson Rubens e passando ao que interessa: mesmo sem ser maravilhoso, e padecendo de quase absoluta falta de humor, ainda assim é um bom filme essa "autópsia do casal", como definia o diretor. Parece, pelo final trágico, mais uma condenação ao adultério, mas é mais do que isso, revelando a delicadeza e o erotismo numa situação à primeira vista tão sórdida, e o tempo todo se percebe tudo que há de conflito, de fuga, de dor e culpa na infidelidade.
Porque dentro de mim há multidões, já disse o outro, e dentro de tanta gente tem que haver todos os sentimentos e desejos, mais ou menos belos e nobres.
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quarta-feira, 11 de junho de 2008

porque você sempre existe onde quer

Glacy tinha razão, e eu não entendia (eu não entendia mesmo quase nada, na época): a questão do querer é complicada.
Ainda lembro que esperava pra ver quantas vezes ela diria a frase durante a aula, arregalando os olhões azuis ao final e fazendo um silêncio misterioso, como se esperasse que alguém ali pensasse seriamente na idéia.
A frase tem voltado & voltado várias vezes, mas até há pouco tempo sempre relacionada à dificuldade que era querer e não ter. Só hoje, mais de 10 anos depois daquelas aulas de Psicologia Médica, eu acho que a compreendo um pouco melhor . Querer é complicado, ainda mais se não se sabe o quê.
E eu nem sempre sei querer.
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domingo, 8 de junho de 2008

veja esta canção


Deu no New York Times?
Não exatamente; no Jornal da Paraíba de hoje, by Renato Félix:

- "Qual a sua música preferida? Qual é aquela que, se sua vida fosse um disco, não poderia faltar? Qual é a que está acima de todas as outras ou marca tanto um momento da sua vida que, sempre que você a escuta, antigas lembranças vêem à tona? Qual é, enfim, a trilha sonora da sua vida?"

Na matéria há respostas de, entre outros, Ruy Castro, Paulo Betti, André Cananéa (curiosamente, falta a do autor do texto!), com músicas brasileiras ou não; algumas eu gosto também, outras nem tanto... mas eu tenho listatropismo positivo, definitivamente.
E fiquei pensando nos meu próprios pitacos.

Que seriam:

* She's Leaving Home - talvez a música que mais ouvi no Sgt. Pepper's, e a favorita da Princesa Diana (!). Nunca fugi de casa, nunca deixei bilhetes de despedida (muito pelo contrário, eu resisti tanto a sair do ninho...), mas a música ainda é irresistível para mim.
* For no One - mais Beatles. Eu ouvia, cantava, chegava a escrever com giz a letra em algumas paredes da Faculdade, na minha primeira decepção amorosa. Hoje acho que era exagero, mas que a música é linda, é.
* Every Time We Say Goodbye - na versão de Annie Lennox, ou de Ella Fitzgerald, ou de John Coltrane. Mas gosto mais com Annie, que foi a primeira que ouvi, a melhor coisa de Eduardo II, aquele filme de Derek Jarman. Ouço e choro, ouço e choro, tanta a beleza da música.
* Wave, com João Gilberto - ouvi numa reprise de Água Viva, novela de Gilberto Braga, e foi um amor à primeira audição, e um amor definitivo. Se só pudesse ouvir uma música, naquele clichê da ilha deserta, seria ela.
* Head Over Feet - como não me lembrar de 1997, o ano que não acabou?
* A Whiter Shade of Pale - seria levada para a tal ilha, junto a Wave. (afe, que coisa velha: um compacto-duplo!)
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ciao


Este blog daqui a pouco parecerá a sessão de obituários de um jornal, mas não dá pra não dizer: morreu ontem, dia 07 de Junho, Dino Risi, cineasta italiano que brilhava em comédias e fez ao menos dois clássicos do cinema de seu país (ou seja, do cinema, se pensarmos no cinema italiano como um dos dois melhores do mundo): Perfume de Mulher (o original, de década de '70, como Vittorio Gassman maravilhoso) e, meu favorito, Aquele que Sabe Viver (Il Sorpasso, 1962).
Filme também estrelado por um iluminado Gassman, atuando junto ao jovem Jean-Louis Trintignant, a obra de Dino Risi reúne aquela mistura italianíssima de comédia, drama, tragédia e observação da vida comum e suas transfomações inevitáveis nos costumes e nas relações humanas, e é um dos grandes filmes pós - Neo Realismo.
Dino Risi tinha 91 anos de idade ao falecer, ontem, em Roma. Além de grande cineasta ele era médico, psiquiatra.

(Viu, James?)
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quinta-feira, 5 de junho de 2008

mas o que isso significa pra você?


A idéia de vigiar e ser vigiada sempre me intrigou.
Não gosto da segunda situação (eu sob vigilância) e tampouco tenho interesse por reality shows como o BBB, mas não há como negar que a vida alheia parece muitas vezes mais interessante que a minha, e acabo me rendendo às Contigos da vida. E a séries como Em Tratamento, exibida há algumas semanas pela HBO, e meu mais novo vício televisivo (em seqüência a House, claro).
Mas como não ficar atraída por uma série que trata de análise e da relação terapeuta-paciente, coisas que não me são, de modo algum, estranhas? Independente de ter ou não resolvido todas as minhas gestalts, não posso negar que o que sou hoje é em parte cria de análises, terapias e desistências das duas, e, devido a isso ou apesar disso, ainda confio nelas.
E, claro, há Gabriel Byrne maravilhoso como Paul Weston, terapeuta em crise pessoal e conjugal. Quem nunca escorregou numa relação de transferência, que levante do divã e atire a primeira pedra!
A série é apresentada de uma forma diferente das demais, organizada em dias da semana como a agenda do terapeuta, inclusive com a necessária realização da análise dele, feita aqui por uma excelente Dianne Wiest, sempre ótima com seus olhos de quem acabou de colocar colírio. Cada dia, um paciente. A estrutura parece meio monótona, como parece ser uma sessão de análise - duas pessoas, uma em frente da outra, falando e ouvindo durante minutos às vezes arrastados. Mas os conflitos narrados intrigam , despertam a curiosidade e se tornam mesmo viciantes.
É, Bial, quem não gosta de espiar?
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segunda-feira, 2 de junho de 2008

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Acordei hoje triste, sem muita vontade de nada.
E a segunda-feira ainda fez o favor de manter sua fama de dia ingrato: começou com má notícia.
Morreu ontem à noite Yves Saint-Laurent, genial estilista que, como seu amado Proust, pertencia à família dos nervosos, que são o sal da terra.
Confirma - morrem só as pessoas mais interessantes.
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Aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=Yfuw_8YvNuE
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E aqui,
no seu discurso em 07 de Janeiro de 2002, ao anunciar seu afastamento do mundo da Alta Costura:


Senhoras e Senhores,
Convidei vocês para virem hoje a esta casa a fim de lhes dar uma notícia importante, que diz respeito à minha vida pessoal e ao meu trabalho.
Eu tive a oportunidade de me tornar aos 18 anos assistente de Christian Dior, de sucedê-lo aos 21 anos e de encontrar o sucesso desde a minha primeira coleção, em 1958. Em poucos dias, serão já 44 anos desde que tudo isso começou.
Depois, eu vivi para o meu trabalho e em nome de meu trabalho.
Eu quero homenagear aqueles que me influenciaram, que me guiaram na minha atividade e me serviram de referência.
Antes de todos, Christian Dior, o meu mestre e o primeiro que me levou a descobrir os segredos e os mistérios da alta costura. Balenciaga, Schiaparelli. Chanel, claro, que me deu tantas coisas e, como se sabe, liberou as mulheres. O que me permitiu, anos mais tarde, dar a elas o poder e, de uma certa maneira, liberar a moda.
Ao abrir, em 1966, pela primeira vez no mundo, uma butique de prêt-à-porter com a marca de um grande costureiro, criando sem me referir à alta costura, tenho consciência de haver feito progredir a moda de meu tempo e de haver permitido às mulheres acederem a um universo até então reservado.
Como Chanel, sempre aceitei a cópia e me orgulho muito que as mulheres de todo o mundo vistam tailleurs-pantalons, smokings, cabans e trench-coats. Digo a mim mesmo que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, que participei da transformação de minha época. Eu o fiz com roupas, o que é certamente menos importante do que a música, a arquitetura, a pintura e várias outras artes, mas, seja como for, eu o fiz.
Creio que serei perdoado por contar vantagens, mas, desde há muito tempo, eu acreditei que a moda não era apenas para embelezar as mulheres, mas também para lhes dar confiança, certeza, permitir que elas se assumissem.
Sempre fui contra os fantasmas de alguns que satisfazem seu ego através da moda. Ao contrário, eu quis me colocar a serviço das mulheres. Quer dizer, servi-las. Servir seus corpos, seus gestos, suas atitudes, sua vida. Quis acompanhá-las no grande movimento de liberação que conheceu o último século.
Tive a oportunidade de criar em 1962 minha própria maison de costura. Já faz 40 anos.
Eu quero agradecer àqueles que, desde o início, tiveram confiança em mim.
Michel de Brunhof, que me conduziu até Christian Dior. Mack Robinson, que acreditou no meu destino e permitiu que eu abrisse minha maison. Richard Salomon, a quem eu devo tanto.
Como poderia esquecer os jornalistas, como John Fairchild, Carmel Snow, Diana Vreeland, Nancy White, Eugenia Sheppard, Edmonde Charles-Roux, Françoise Giroud?
Mais próximo de mim, quero agradecer a Pierre Bergé, claro, mas será que vale a pena insistir nisso? Anne-Marie Munoz, Loulou de La Falaise. É impossível para mim citar todos os Premiers e Premières de ateliê que me acompanharam desde o início. Contudo, o que eu teria feito sem eles, sem o seu grande talento, que eu gostaria de saudar? Todos os operários e operárias, cujo devotamento admirável me ajudaram tanto e aos quais quero exprimir minha profunda gratidão, como também ao conjunto dos funcionários da minha maison.
Quero agradecer às mulheres que vestiram minhas roupas, as célebres e as desconhecidas, que me foram fiéis e me deram tanta alegria.
Tenho consciência de ter feito, durante longos anos, o meu trabalho com rigor e exigência. Sem concessões. Sempre coloquei acima de tudo o respeito por esse trabalho, que não é de fato uma arte, mas que precisa de um artista para existir.
Penso que eu não traí o adolescente que mostrou os primeiros croquis a Christian Dior com uma fé e uma convicção inquebrantáveis. Essa fé e essa convicção nunca me abandonaram.
Todo homem, para viver, precisa de fantasmas estéticos. Eu os segui, procurei, persegui. Passei por muitas angústias, às vezes por infernos. Conheci o medo e a solidão terrível, os falsos amigos que são os tranquilizantes e os estimulantes. A prisão da depressão e das casas de saúde. De tudo isso, um dia eu saí maravilhado, mas desiludido. Marcel Proust me ensinou que “a magnífica e lamentável família dos nervosos é o sal da terra”. Sem sabê-lo, eu fiz parte dessa família. É a minha. Eu não escolhi essa linha fatal, contudo é graças a ela que eu me elevei ao céu da criação, que eu me aproximei dos fabricantes do fogo, dos quais fala Rimbaud, que eu me achei, que eu compreendi que o encontro mais importante da minha vida deveria ser comigo mesmo.
Apesar de tudo, eu escolhi dizer adeus, hoje, a esse trabalho que eu tanto amei.
O próximo desfile, para o qual eu convido os senhores, em 22 de janeiro, no Centro Georges Pompidou, será em grande parte uma retrospectiva de minha obra.
Muitos de vocês já conhecem os modelos que desfilarão. Eu tenho a ingenuidade de acreditar que eles podem desafiar os ataques do tempo e assegurar seu lugar no mundo de hoje. Eles já provaram isso. Outros modelos desta saison os acompanharão.
Quero agradecer igualmente ao sr. François Pinault e manifestar a ele a minha gratidão por permitir que eu colocasse harmoniosamente um ponto final a esta maravilhosa aventura e por ter acreditado, como eu, que a alta costura desta maison deveria se interromper com minha partida.
Enfim, quero agradecer a vocês, que estão aqui, e àqueles que não estão, por terem sido fiéis aos encontros que tivemos ao longo de tantos anos. Por terem me apoiado, compreendido, amado.
Eu não os esquecerei.

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domingo, 1 de junho de 2008

like endless rain into a paper cup


O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo
que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo,
saboreando, junto com ele, o cheiro das
torradas-na-manteiga que alguém pediu na mesa próxima.

Mário Quintana.
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de repente 30


Nem lembro mais há quanto tempo eu havia sonhado com artistas. Deve ser culpa dessa lua, desse conhaque, que botam a gente comovido como o diabo.
O fato é que, nas poucas horas de sono que a FAP me permitiu ontem, o cansaço foi maior que o interesse em ver o jogo do Brasil (quem ganhou? quem ganhou?) e dormi e sonhei. Sonhei que a vaga aberta na Emergência era ocupada por um médico novo na cidade, mas que eu, euzinha, reconhecia: Jean-Pierre Léaud. E não o Léaud envelhecido e melancólico do Os Sonhadores (e da vida real) mas o Antoine Doinel de Domicílio Conjugal, jovem, confuso e meio gauche na vida.
Ninguém mais o reconhecia (metida a besta até nos sonhos, afe), o que ele parecia preferir. Mas era até melhor, ficava sendo um segredo nosso.
Ao longe, uma música me desperta do segredo. Charles Trenet? Não, un vieux clocher me chamando ao mundo, duas da manhã.
E fiquei pensando no que teria comido à noite pra provocar esse tipo de sonho: algodão-doce?
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