domingo, 30 de setembro de 2007

bibliomania (iii)


Christine Darbon (Claude Jade) e Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), absortos em seus interesses individuais, em Domicílio Conjugal (Domicile Conjugal, 1970).
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por que ler os clássicos


Batman é, de longe, o mais interessante e misterioso personagem dos quadrinhos - HQ, pra ser moderna... - e capaz de, vezenquando, trazer uma ou outra surpresa.
Como encarnar Raskólnikov numa adaptação de Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski!
Aqui:


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espelho mágico


Não tenho muita certeza, mas acho que ontem foi a primeira vez em que a reprise de um último capítulo de novela foi diferente do que já havia sido exibido! :)
Não que tenha sido melhor - apesar de toda a violência, e de ter me tirado o sono (extremamente necessário pra minha noite inter-plantões) ficar pensando em como havia sido tristemente injusta a vida de Ivan, eu gostei muito do último dia de Paraíso Tropical! Foi mais um bônus de Gilberto Braga, o melhor, mais sofisticado e mais sarcástico dos autores de telenovelas brasileiro, ou seja, do mundo.
Ontem, para quem ficou meio perdido, apareceu em cena Marion comentando que Alice fora condenada a prestar serviços comunitários, por ter dado uma de Naomi Campbell ao agredir uma camareira; e que Bebel perdera o filho que esperava e fora, sim, condenada e cumprira pena pela armação do DNA falso.
Há quem tenha achado ruim o final, mas foi mesmo o mais surpreendente. Saiu da rotina do quem matou? O importante era, ao final de tudo, por que matou?

E viva Wagner Moura!
E Chico Diaz, Vera Holtz, Tony Ramos (Não mate meu filho!), Hugo Carvana, Camila Pitanga!

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E, é claro, viva o beijo de Fábio Assunção & Alessandra Negrini! ;)
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on ne meurt d'amour qu'au cinéma



A beleza não é lugar de perfeição, diz um poema de Eugénio de Andrade.
No início dos anos 1960, havia um casal capaz de contradizer o poeta português: o francês Alain Delon e a austríaca Romy Schneider, juntos desde o final da década de '50.

Romy.
Os dois se conheceram ao filmarem juntos Christine (1958), mais uma das operetas que a mãe/empresária da atriz escolhia para a filha, que se tornara uma das grandes estrelas européias da época, com sua beleza de princesa alpina. Magda Schneider não aprovava o romance, mas Romy não cedeu a seus argumentos e deixou a Alemanha, onde morava a família, indo morar em Paris, onde se tornaria constante alvo dos fotógrafos e, também, onde consolidaria sua carreira e se tornaria, anos depois, uma grande atriz e uma grande estrela.
Romy encantou, além das platéias, celebridades como Coco Chanel e um diretor fundamental tanto para ela quanto para Delon, o italiano Luchino Visconti. Com os dois, ela faria o primeiro papel menos "inocente", na peça "Domage qu’elle soit une putain", de John Ford, e faria com Visconti um ótimo episódio no filme Bocaccio '70 (1963), que mostrava seu lado menos Sissi, mais sensual. Aliás, seria justamente Visconti que permitiria à atriz retornar ao papel que lhe deu fama, vivendo mais uma vez Elizabeth da Baviera, ou Sissi, agora com menos romance e mais próxima da realidade da princesa, em Ludwig (1972).


Romy, a imperatriz.
A década de '60 foi um período particularmente brilhante para o cinema europeu, e Alain Delon e Romy Schneider brilhavam mais do que quase todos, com sua beleza, charme, talento e, claro, por representarem a fantasia de casal perfeito de tantos fãs.
Mas a distância e os ritmos de trabalho seriam os argumentos que o ator usaria para a deselegante traição pública que faria, ao se deixar fotografar em Madri com uma atriz com quem contracenava - Nathalie Barthelemy, depois Delon, com quem se casaria logo depois. Romy estava filmando em Paris.
Há quem diga que ela nunca se recuperaria totalmente da traição, e este foi apenas um dos golpes que teria que enfrentar nos próximos anos, com casamentos fracassados, mortes trágicas (como a de seu filho David, no início dos anos '80), depressão e alcoolismo.


Romy e seu destino.
No final dos anos '60 Delon a convidaria a protagonizar com ele o que seria um grande sucesso, o suspense A Piscina (La Piscine, 1968), de Jacques Deray, e desde então se tornariam amigos até a morte da atriz, em 1982 (de coração? de overdose? suicídio?).
Por ocasião da morte de Romy, Delon faria publicar nos maiores jornais franceses uma amorosa carta de despedida à atriz, que estava em um momento de grande sucesso profissional, era uma das grandes estrelas européias, mas imersa em tristeza profunda pelas perdas pessoais.
Este ano, no Festival de Cannes, mais uma vez ele faria homenagem à atriz. Chamado para apresentar o prêmio de Melhor Atriz, Alain Delon emocionou a platéia ao enumerar as atrizes com quem trabalhara e perguntar-se o que seria dele, como homem e artista, sem as mulheres? Em seguida, pediu para homenagear, em uma só, todas as atrizes, todas as mulheres do mundo - e lembrou que naquele dia, há 25 anos, morrera Romy Schneider. Mais do que um amor da sua juventude: o amor.

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(para mãeinha, que é louca por Sissi!)
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o bem-amado


" Há pessoas de quem a câmera gosta e outras de quem a câmera não gosta. "
Howard Hawks.
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sábado, 29 de setembro de 2007

bibliomania (ii)

La lectrice soumise, de René Magritte.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

futuro do pretérito


Em mil novecentos e oitenta e sempre,
ah, que tempos aqueles, dançamos ao luar, ao som da valsa
A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,
nome, confesso, um pouco longo,
mas os tempos, aquele tempo,
ah, não se faz mais tempo
como antigamente.
Aquilo sim é que eram horas,
dias enormes, semanas anos,
minutos milênios,
e toda aquela fortuna em tempo
a gente gastava em bobagens,
amar, sonhar, dançar ao som da valsa,
aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento
que a gente dançava em algum setembro
daqueles mil novecentos e oitenta e sempre



Paulo Leminski
Blade Runner Waltz.
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bibliomania (i)




Audrey Hepburn, em Como Roubar Um Milhão de Dólares (How to Steal a Million, 1966), de William Wyler.
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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

a kiss is still a kiss (vii)


Hugh Grant & Julia Roberts, em Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, 1999).
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fashion victim!


Mas eu mesma não vivo dizendo que amo a cultura pop?!
O que poderia ser mais pop do que ser roubada não no que tem valor, mas no símbolo dele?
Ou seja: o que raios significa alguém poder roubar a sua bolsa (ou o que há dentro dela) e preferir surrupiar apenas o macaquinho que identifica a marca?

Acho que estou ficando velha.
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imagem: Fay Wray & ele - King Kong (1933).
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eu presto muita atenção no que meu irmão ouve


É uma notícia atrasada, mas só soube agora e, feliz, resolvi registrar também aqui: afinal o Ministério da Cultura reagiu ao apelo da arqueóloga Niède Guidón e, através da lei Rouanet, incentivou a PETROBRÁS a liberar doações que devem chegar a R$ 1,7 milhões, no ano, à instituição presidida por Guidón: a FUMDHAM.
Um dos mais importantes parques arqueológicos brasileiros, a Fundação Museu do Homem Americano fica no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, e tem papel signicativo no turismo local, na preservação ambiental da caatinga, e no estudo de vestígios arqueológicos dos mais antigos, com características pinturas rupestres e áreas de escavações.
Nos últimos anos, entretanto, a instituição vem passando por crises financeiras graves, com dívidas altas, ameaça de demissão de funcionários e, a última notícia - penúltima, aliás! - a realização de um leilão com obras de arte da coleção particular de NG, tentando arrecadar fundos para pagamentos mais emergenciais. :(
A falta de atenção ao lugar, por parte de alguns setores do governo, é mesmo um absurdo, daqueles que envergonhariam um país mais preocupado com a cultura, a ciência e a memória.
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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

eu sou brasileiro e não desisto nunca


E hoje, como previsto, foi anunciado o filme brasileiro que poderá concorrer ao Oscar de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa!
Tchan-ran!

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o belo filme de Cao Hamburger sobre um menino que é afastado de seus pais durante a (e por causa da) ditadura militar brasileira, na década de 1970, foi o escolhido entre os 18 filmes apontados para a indicação. Não chega a ser uma surpresa, e nem de longe injusta, embora muitos achassem que o polêmico Tropa de Elite seria o concorrente mais adequado.
Segundo a Folha Online, o diretor de O Ano... já falou sobre a escolha, lúcido e sem nada de oba-oba desnecessário. Cao Hamburger: "Sei que o Oscar é bom para o cinema brasileiro. Mas, vamos deixar as coisas no devido lugar: O Oscar não deve ser um objetivo, e sim mais uma etapa."
Há concorrentes potencialmente mais "fortes" para concorrer à indicação ao prêmio, propostos por outros países: Persépolis, a animação francesa para a HQ, que fez sucesso no Festival de Cannes este ano; e os novos filmes de diretores já consagrados e premiados, como o canadense Denys Arcand, com L'Âge des Ténèbres, o polonês Andrzej Wajda, com Katyn, ou Ang Lee, de volta a Taiwan com Lust, Caution, que foi premiado no Festival de Veneza.

Mas, quem sabe?
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terça-feira, 25 de setembro de 2007

para a menina que engorda: hipofagi


Olho sempre meio desconfiada algumas demonstrações de alerta aos perigos da anorexia/bulimia. Se o empenho vem de certos setores, como a indústria da moda, olho mais desconfiada ainda, porque não me parece mesmo sincero, parece sempre uma forma de mea culpa não muito convincente, como quem reza sem fé.
A última notícia que chamou a atenção da mídia foram as fotos de uma nova campanha da grife italiana No-l-ita, protagonizada pela modelo francesa Isabelle Caro, portadora de anorexia nervosa há anos, e fotografada por um conhecido polemista: o italiano Oliviero Toscani.
Ações que chamem a atenção para o problema são sempre bem-vindas, e seria realmente importante que alguns dos setores que, se não são os "responsáveis" pelos transtornos alimentares, são grandes incentivadores subliminares deles, tomassem uma posição mais efetiva. Proibir modelos com baixíssimo IMC de desfilarem nos grandes eventos de moda não parece ser muito eficaz, se só se pensar que são adolescentes pretendentes a modelo que adoecem.
Garotas de várias idades, condições sociais e aspirações continuam às voltas com a pressão externa pela magreza, com roupas tamanho 36 que cabem apenas em medidas 50-50-50, e com medicamentos e fórmulas milagrosas razoavelmente à disposição para perder quilos e ganhar felicidade. Procure com um pouco de atenção na internet e verá várias possiblidades de compra de inibidores do apetite dos mais diversos tipos, desde as já antigas anfetaminas à sibutramina, agora com genérico bem mais em conta! Além das associações "naturais" de diuréticos/ hormônios tireoideanos/ antidepressivos/ laxantes/ anfetaminas, que prometem tudo isso e o céu também (ou seja, a perda de peso sonhada, mas sem a ansiedade, a insônia e outros efeitos centrais).
Dicas de "como enganar seus pais e amigos" podem ser encontradas em revistas comuns, junto a incríveis "sugestões" do que usar para induzir o vômito. As dicas vêm destinadas às mães, aos responsáveis pelas adolescentes, mas em revistas que estas é que lêem - e, na página seguinte, as fotos da modelo da vez (magra, magérrima) com o ator ou atleta da hora.
E assim tantas meninas (e "adultas") seguem confundindo suas fomes, outras até sabendo exatamente quais são, mas sem saber direito o que fazer com elas.
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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

cão sem dono?!


Hoje, dia 24 de Setembro, encerraram-se as inscrições dos filmes brasileiros para uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa/2007. Dessa lista, uma comissão do Ministério da Cultura escolherá apenas um, e este concorrerá com outros escolhidos, de outros países, à desejada vaga.
Apesar de não gostar da ansiedade histérica que acontece a cada vez que um brasileiro concorre ao prêmio, com aquele clima Copa-do-Mundo-corrente-pra-frente, como se só com essa aprovação o cinema brasileiro tivesse sua validação, não resisto e acabo torcendo para que haja um indicado daqui. Nem que seja pra ouvir títulos com fonemas bem portugueses falados desajeitadamente, como "O Quatrio", por Mel Gibson, em 1996...
Pra variar, nem vi muitos dos que constam de lista - e alguns não tenho muita intenção de ver, admito - mas, dos que vi, já tenho o meu favorito, e desde já cruzo os dedos!
O escolhido será divulgado na próxima quarta-feira (26.09).

A lista:

* A Grande Familia - O Filme (Maurício Farias)
* A História das Três Marias (Silvana Soares/ Zackia Daura)
* Antônia (Tata Amaral)
* Batismo de Sangue (Helvécio Ratton)
* Cidade dos Homens (Paulo Morelli)
* Fabricando Tom Zé (Décio Matos Jr.)
* Muito Gelo e Dois Dedos D'água (Daniel Filho)
* O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Cao Hamburger)
* O Céu de Suely (Karim Aïnouz)
* O Cheiro do Ralo (Heitor Dhalia)
* O Dono do Mar ( Odorico Mendes)
* Ó Paí, Ó (Monique Gardenberg)
* O Passageiro, Segredos de Adulto (Flávio Tambellini)
* Primo Basílio (Daniel Filho)
* Proibido Proibir (Jorge Durán)
* Saneamento Básico (Jorge Furtado)
* Tropa de Elite (José Padilha)
* Três Irmãos de Sangue (Ângela Patrícia Reiniger)
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imagem: Simone Spoladore & Michel Joelsas, no meu favorito.
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actors should be treated like cattle


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trouxeste a chave?


"Quando um homem começa por tocar-nos com palavras, chega longe com as mãos!"

Engraçado como uma frase dita num contexto nada lírico ou filosófico pode ser lida, se quisermos, num contexto extremamente poético.
Como essa, dita por uma desconfiada personagem de O Carteiro e o Poeta (Il Postino, 1994), para alertar a personagem de Maria Grazia Cucinotta (Beatrice).
Uma pequena prova de que as palavras são armas poderosas, que podem ser usadas de variadíssimas maneiras.
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imagem: o carteiro (Massimo Troisi), o poeta (Philippe Noiret) e Beatrice.
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a base é uma só


Todas as vezes que Tom abriu o piano, o mundo melhorou. Mesmo que por poucos minutos, tornou-se um mundo mais harmônico, melódico e poético. Todas as desgraças individuais ou coletivas pareciam menores porque, naquele momento, havia um homem dedicando-se a produzir beleza. O que resultasse de seu gesto de abrir o piano - uma nota, um acorde, uma canção - vinha tão carregado de excelência, sensibilidade e sabedoria que, expostos à sua criação, nós, seus ouvintes, também melhorávamos como seres humanos.

Ruy Castro,
em A onda que se ergueu no mar - Novos mergulhos na Bossa Nova.
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domingo, 23 de setembro de 2007

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

all right, mr. demille, i'm ready for my close-up



" Bem, isso quer dizer que o velho cavalo de guerra tem que voltar ao trabalho."
(Gloria Swanson)
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Nova York, noite de 29 de Março de 1951, cerimônia de entrega dos Oscars relativos ao ano anterior. Gloria Swanson, que fizera aniversário dois dias antes, comemora a data numa festa oferecida pelo amigo José Ferrer, vencedor do prêmio de Melhor Ator , por sua atuação em Cyrano de Bergerac. Ela era uma das indicadas a Melhor Atriz, num ano especialmente bom para atrizes - basta lembrar que duas de suas concorrentes eram Bette Davis e Anne Baxter, em A Malvada (All About Eve).
Gloria não ganhou o prêmio, que foi para Judy Holliday, por Nascida Ontem (Born Yesterday); mas quem esquece sua Norma Desmond?
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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

saudades de audrey hepburn (vi)


Sabrina Fairchild (Audrey Hepburn) e seu (não só dela...) sonho, David Larrabee (William Holden).
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les yeux verts


A Closer - Perto Demais, o belo e doloroso filme de Mike Nichols, não faltam méritos.
Um deles é o de haver tornado mais evidentes o talento e a beleza do ator britânico Clive Owen, já visto antes em vários filmes interessantes (como o maravilhoso Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman), mas nunca antes com um papel que o deixasse brilhar tanto.
Owen perdeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante naquele ano (2005) para Morgan Freeman (que estava mesmo ótimo em Menina de Ouro), mas ganhou respeito dos críticos e muito mais fãs, além de outros prêmios e boas propostas de trabalho.
Como a da francesa Lancôme, que escolheu o ator para ser o rosto do seu novo perfume, o Hypnôse Homme, com direito a vídeo publicitário ao lado da bela Daria Werbowy, dirigido por Wong Kar-Wai.
Não, ele não foi escolhido pelos belos olhos verdes nem pelo charme bruto style.
"Escolhemos Owen porque ele é talentoso, ético e pelo jeito como ele construiu sua carreira até agora, selecionando os diretores pela qualidade e não pelo high-profile" - disse o gerente geral da Lancôme Internacional, Odile Roujol.

Ah, tá.
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o vídeo:


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bad, bad server, no donuts for you


Minha sorte de hoje no Orkut:
"Se seus desejos não forem extravagantes, eles serão realizados."
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E se forem?
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

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uma pessoa é uma pessoa porque reconhece os outros como pessoas.

Desmond Tutu.
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a memória é uma ilha de edição

Muito cedo em minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa investida do tempo que às vezes nos acomete na primeira juventude, nos anos festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi apossar-se dos traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, aumentando o tamanho dos olhos, fazendo mais triste o olhar, mais definida a boca, marcando a testa com rugas profundas. Não tive medo e observei o envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria dedicado a uma leitura. Sabia também que não estava enganada, que um dia ele ficaria mais lento, tomando seu curso normal. As pessoas que haviam me conhecido à época de minha viagem à França, quando eu tinha dezessete anos, ficaram impressionadas quando me reviram dois anos mais tarde, com dezenove. Aquele rosto, novo, eu o conservei. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.

Marguerite Duras,
O Amante.
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imagem: La memoire, de René Magritte.
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o código da vinci














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terça-feira, 18 de setembro de 2007

perto demais


Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Caio Fernando Abreu,
Pequenas epifanias.
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eu entendo.
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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

a kiss is still a kiss (vi)



Fanny Ardant & Gérard Depardieu, em A Mulher do Lado (La Femme d'a Côté, 1981).
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embora eu te pareça demasiado intensa


Aflição de ser eu e não
ser outra.
Aflição de não ser,
amor, aquela
Que muitas filhas te
deu, casou donzela
E à noite se prepara e
se adivinha

Objeto de amor, atenta
e bela.
Aflição de não ser a
grande ilha
Que te retém e não te
desespera.
(A noite como fera se
vizinha.)

Aflição de ser água
em meio à terra
E ter a face conturbada
e móvel.
E a um só tempo
múltipla e imóvel

Não saber se se
ausenta ou se te
espera.
Aflição de te amar, se
te como
E sendo água, amor,
querer ser terra.

Hilda Hilst,
Sonetos que não são, I
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imagem: Summertime, de Edward Hopper.
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domingo, 16 de setembro de 2007

lady madonna


"Primeiro perdi peso, logo perdi a voz, e depois perdi Onassis."

(Maria Callas )

E, em 16 de Setembro de 1977, todos perderíamos Maria Callas, a maior estrela da ópera no século XX.
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imagem: Teatro Scala, em Milão, 1954: Maria Callas, Arturo Toscanini, Victor de Sabata e Antonino Votto.
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filmes que justificam os meios (i)


O filme já começa num lugar mágico de per si, o Marrocos, o Exótico, inicia com um quê de melodia árabe que se esfuma na Marselhesa. Quando entra para o ambiente de Rick, ouve-se Gershwin. África, França, Estados Unidos. A essa altura entra em cena um emaranhado de Arquétipos Eternos. São situações que presidiram as histórias de todos os tempos. Mas habitualmente para fazer uma boa história basta uma única situação arquetípica. E sobra. Por exemplo: O Amor Infeliz. Ou A Fuga. Casablanca não se contenta: coloca todas. A cidade é o local de uma Passagem, rumo à Terra Prometida. Para passar, porém, é necessário submeter-se a uma prova, A Espera ("esperando, esperando, esperando", diz a voz off no começo). Para passar do vestíbulo de espera à Terra Prometida, é preciso uma Chave Mágica: o visto. Em torno da Conquista desta chave desencadeiam-se as paixões. A mediação da chave parece ser feita pelo Dinheiro (que aparece em diversas cenas, geralmente sob a forma de Jogo Mortal, ou roleta): mas por fim se descobrirá que a chave somente pode ser dada através de um Dom (que é o dom do visto, mas é também o dom que Rick faz de seu Desejo, sacrificando-se) Porque esta é também a história de um turbilhão de desejos, dos quais apenas dois acabam sendo satisfeitos: o de Victor Laszlo, o herói puríssimo, e o do casalzinho búlgaro. Todos aqueles que têm paixões impuras fracassam. E então, outro arquétipo, triunfa A Pureza. Os impuros não chegam à terra prometida, somem antes; no entanto realizam a pureza através do Sacrifício: é a Redenção.
(...)
Em torno dessa dança de mitos eternos estão os mitos históricos, ou seja, os mitos do cinema devidamente revisitados. Bogart personifica pelo menos três deles: o Aventureiro Ambíguo, misto de cinismo e generosidade; o Asceta por Desilusão Amorosa e ao mesmo tempo o Alcoólatra Redimido. Ingrid Bergman é a Mulher Enigmática ou a Mulher Fatal. Em seguida há Ouça Querido a Nossa Canção, o Último Dia em Paris, a Legião Estrangeira (cada personagem tem uma nacionalidade diferente) e finalmente o Grande Hotel Gente-Que-Vai-Gente-Que-Vem. (...) De modo que Casablanca não é um filme, é muitos filmes, uma antologia. E por isso funciona, a despeito das teorias estéticas e das teorias filmográficas. Porque nele se desdobram, em força quase telúrica, as Potências da Narratividade em estado selvagem, sem que a Arte intervenha para disciplinar.
E então podemos aceitar que as personagens mudem de humor, de moralidade, de psicologia, de um momento para o outro, que os conspiradores pigarreiem para interromper a conversa quando se aproxima um espião, que as mocinhas de vida fácil chorem ao ouvir a Marselhesa.
Quando todos os arquétipos irrompem sem decência, são atingidas profundidades homéricas. Dois clichês provocam riso. Cem clichês comovem. Porque se percebe obscuramente que os clichês falam entre si e celebram uma festa de reencontro. Como o cúmulo da dor encontra a volúpia, o cúmulo da banalidade deixa entrever uma suspeita de sublime.


Umberto Eco,
Casablanca, ou O Renascimento dos Deuses,
em Viagem na Irrealidade Cotidiana.
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sábado, 15 de setembro de 2007

a moça e seus problemas


hmm...
Tá, eu já vi esse filme antes. E ele era melhor, quando se tratava de Encontros e Desencontros...
Mas, ainda assim, e mesmo com alguns momentos desnecessários (como a câmera lenta e a narração em off), é muito bom o Garota da Vitrine (Shopgirl, 2005), filme que eu já queria ver há um bom tempo, mas só hoje assisti na íntegra.
Dirigido por Anand Tucker e baseado numa novela do ator Steve Martin (é, ele mesmo!), o filme é delicado, terno, leve e com ótimos personagens entregues a ótimos atores. Eu nem acho Claire Danes especialmente bela ou talentosa, mas ela está perfeita como Mirabelle, uma jovem solitária e endividada, que se envolve romanticamente com dois outros solitários, bem diferentes um do outro: Steve Martin, um rico cliente da loja de luvas em que ela trabalha, que lhe dá presentes caros como um vestido Prada belíssimo (que foi visto já, na vida real, em Madonna) mas pouco afeto (ao menos pouco afeto declarado); e Jason Schwartzmann, um rapaz gauche na vida mas apaixonado por ela. Às voltas ainda com episódios de depressão e muita carência, a moça se divide entre as duas possibilidades, mas sem grandes dramas e sempre com humor.
Há vários outros filmes com tema semelhante, alguns melhores, mas a simplicidade e a delicadeza deste acabam por torná-lo extremamente agradável e romântico - e sem pieguice ou soluções "mágicas", o que é o melhor. E a personagem principal, com seus vestidos vintage e sua timidez, é das mais encantadoras vistas recentemente.
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quiet night of quiet stars


Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
Let me sing you a waltz
About this one night stand

You were for me that night
Everything I always dreamt of in life
But now you're gone
You are far gone
All the way to your island of rain

It was for you just a one night thing
But you were much more to me
Just so you know

I hear rumors about you
About all the bad things you do
But when we were together alone
You didn't seem like a player at all
I don't care what they say
I know what you meant for me that day
I just wanted another try
I just wanted another night
Even if it doesn't seem quite right
You meant for me much more
Than anyone I've met before

One single night with you little Jesse
Is worth a thousand with anybody

I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow, another arms
My heart will stay yours until I die

Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my blues
Let me sing you a waltz
About this lovely one night stand

A waltz for a night,
Julie Delpy.
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imagem: Julie Delpy(Céline) & Ethan Hawke(Jesse), em Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995).
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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

picture of a beauty queen


Não faltam clichês quando se pensa em Grace Kelly, uma das mais belas e adoradas estrelas de Hollywood: "loira gelada que escondia um vulcão de sensualidade"; "a mais bela e elegante das loiras hitchcockianas"; "princesa de Hollywood"; "noiva num dos mais célebres contos-de-fadas do século XX"; "mais bela princesa de Mônaco"; "jovem ninfomaníaca, sob aparência frígida"; "uma das partes de um 'casamento arranjado' por Aristóteles Onassis"...
Alguns deles são exagerados, como já mostraram várias de suas biografias, mas alguns permanecem válidos. Mesmo sem o brilho de outras de suas contemporâneas, como Elizabeth Taylor, ou o talento de uma Ingrid Bergman, Grace Patricia Kelly, americana da Filadélfia, de ascendência irlandesa, tornou-se, com menos de dez filmes, realizados entre 1949 e 1956, uma das mais célebres estrelas de Hollywood, além de uma das poucas atrizes americanas que viraram princesas de verdade(antes dela, Rita Hayworth já casara com Ali Khan, mas não era a mesma coisa...).
Chegou a ganhar um Oscar, em 1954, por sua atuação "enfeiada" em Amar é Sofrer (The Country Girl) - quando todos esperavam que o prêmio fosse para Judy Garland, excepcional em Nasce uma Estrela(A Star Is Born, 1954). Mas o que sempre é mais lembrado é a sua parceria com Alfred Hitchcock, com quem faria três filmes em sua fase áurea e de quem seria amiga até a morte dele, em 1980. Hitch ainda tentaria trazê-la de volta em outros filmes, inclusive Marnie - Confissões de Uma Ladra (Marnie, 1964) - mas não ficaria mesmo bem Sua Alteza Sereníssima interpretar uma cleptomaníaca com um transtorno da sexualidade... E, menos ainda, beijando outro homem!
Sua presença leve e elegante em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) e Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955), às voltas com diálogos cheios de segundas intenções e maravilhosos figurinos de Edith Head, são alguns dos momentos memoráveis do cinema dos anos '50. Como também éi memorável ouvi-la cantando True Love, a bela canção de Cole Porter, unindo sua voz frágil à belíssima voz de Bing Crosby (um dos vários galãs mais velhos apontados como seus amantes), em Alta Sociedade (High Fidelity, 1956). E, para completar a imagem "de sonhos", vestida por Helen Rose no casamento com Rainier de Mônaco, belo e solitário príncipe de uma nação de menos de 2 km, mas os menos de 2 km mais charmosos do mundo (ou "um lugar ensolarado de pessoas sombrias", como já foi dito).
Grace Kelly continuava atraindo a atenção da imprensa e dos fãs mesmo depois de 20 anos após abandonar as telas, e muitos choraram, chocados, quando souberam de sua morte num polêmico acidente de carro, nas belas e sinuosas curvas da Riviera francesa, em 14 de Setembro de 1982.
Como costuma acontecer com mortes trágicas de pessoas famosas, não faltam "teorias" sobre o acidente: quem estaria dirigindo o carro seria a jovem e rebelde Princesa Stéphanie, sua problemática filha caçula; sua morte teria sido tramada pela máfia, que tinha interesses em Mônaco (boato que seria acompanhado de outros quando, oito anos depois, morreria seu genro, o italiano Stefano Casiraghi, marido da bela Princesa Caroline, em um acidente náutico também polêmico); ela sofrera um AVC ao discutir com Stéphanie enquanto dirigia, o que a levou a perder o controle do carro.
Mas, além de todas as histórias de Trancoso, o que importa mesmo é o charme de seus filmes e a admiração de sua beleza impressionante, nunca esquecidos (e aquele estremecimento nos ombros de um subitamente envelhecido Rainier, amparado pelo Príncipe Albert no velório de sua princesa, nunca poderia ser "arranjado". Nem por Onassis.).
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saudades de audrey hepburn (v)


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Eliza Doolittle (Audrey Hepburn) e o Professor Higgins (Rex Harrison), em Minha Bela Dama (My Fair Lady, 1964).
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tem alguém me chateando. acho que sou eu.

Dylan Thomas.
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

burn, baby, burn!


Antes de qualquer coisa: eu não compro CDs ou DVDs piratas, por motivos éticos - para não me sentir colaborando com um crime - e estéticos - gosto dos encartes, dos extras, dos detalhes que só há nos originais. E, pra completar, o DVD aqui de casa é autoritário a ponto de já haver resolvido qualquer dilema: ele simplesmente não lê os piratinhas, nem aqueles de festas da família.
Mas isso não me impede de ter achado no mínimo estranha uma manchete do jornal, hoje de manhã:
"MAIS DE 30 MIL CD E DVDs SÃO DESTRUÍDOS
Combate é pirataria/ Produtos foram recolhidos nos últimos 60 dias, no Centro da capital; MP e Prefeitura querem tornar esse trabalho rotineiro"

A matéria informa que a destruição dos produtos faz parte das ações de combate à pirataria na cidade, e que o material, por ser ilícito, fora apreendido nas ruas de João Pessoa e guardado na Central de Polícia; por falta de espaço para mais do mesmo, era necessário um novo destino para os CDs e DVDs, além de representar uma ação simbólica da repressão à prática de reprodução e comercialização ilegais. Sedundo a Curadoria do Consumidor, "esta foi a primeira destruição do ano e não vamos parar enquanto vermos[sic] estes produtos sendo vendidos no meio da rua."

Pirataria é crime, claramente, e não estou querendo justificá-la, mas até que ponto são válidas ações deste tipo? O que está fazendo com que aumente tanto o consumo desses produtos? As pessoas que os vendem nas ruas - os famigerados carrinhos que vendem aqueles CDs toscos, por exemplo - são os maiores culpados? Quem realmente lucra e quem realmente perde com a pirataria? Queimar filmes e discos não é meio medieval, não?
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imagem: os bombeiros de Ray Bradbury e Truffaut, em Fahrenheit 451(1966).
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quarta-feira, 12 de setembro de 2007

você estava lá?


Estava vendo Paraíso Tropical: Ernani Moraes, o delegado, interroga todo mundo que conhecia Taís (aliás, meu pai me chamou há pouco pra me mostrar, na torcida do jogo, alguém com a faixa "EU MATEI TAíS"!), e sempre, claro, insiste nos álibis.
Sem coisas melhores a fazer, fico imaginando se fosse eu ali, interpelada.
"O que a senhora (afe, só isso já desanima) estava fazendo na tarde do dia ..., entre as ... e as ... ? " - Não lembro.
"Quando foi a última vez em que viu a vítima? " - Não lembro.
"Alguém a viu naquela tarde? " - Não lembro!
Iriam me achar completamente cínica ou completamente envolvida no crime. :(
Mas minha memória não é de muita confiança, e eu quase nunca me lembro com tanta exatidão de datas, horas, nomes, rostos... Sempre fiquei impressionada como nos romances de Agatha Christie os personagens podiam dar conta de lembrar o que faziam na hora do crime, e com detalhes.
De vez em quando até penso: e se houvesse um assassinato no meu trabalho, ou na minha rua? E se me chamassem pra depor e apresentar um álibi?
"O que a senhora estava fazendo terça-feira, dia 11, às 5 da tarde?"
Algema.
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todas as paixões me pervertem, todas as paixões me convertem


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Porto, 22 de dezembro de 1979

Zézim,

cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tua carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.

Pausa.

Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.

Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, na Nova.

E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me digao que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.

Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?

Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava pUta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus(?). Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.

Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá.

Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.

Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noutro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada”. É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso.

Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.

Let me take you down
cause I’m going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever

Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.

Me conta da Adélia.

E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde I sempre de bom humor I e de boa vontade".

Um beijo do

Caio

PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.
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ele, que hoje faz aniversário, em algum lugar. Que seja doce.
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