segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

pietà (iii)


De Ingmar Bergman, em Gritos e Sussurros (Viskningar och rop, 1972).
.

resolução de ano novo

Sê paciente
espera que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade.
.

do que em mim é de mim tão desigual


Ninguém decide ser inconformado; eles nascem assim, ou não.
O universo dos que não se conformam é único. Sem nem se dar conta, eles compram as revistas de moda só para fazer exatamente o contrário do que elas mandam. Se foi decretado que o amarelo é a cor desse verão, o inconformado não precisa nem pensar: antes de sair de casa, tudo funciona no piloto automático, e até que o amarelo saia de moda ele não será visto convivendo com nada dessa cor; talvez nem coma mais bananas, até a onda passar.
Ele estará sempre ou muito à frente do seu tempo, ou lá atrás, bem longe. Um inconformado não iria, por dinheiro nenhum, passar o Réveillon ou o Carnaval em Salvador ou Trancoso; para ele, isso é coisa de um passado remoto, já vivido, ou talvez de um futuro, um dia. Recentemente foi obrigado a deixar de lado o vinho rosé, de que gostava tanto -e até bebia com duas pedrinhas de gelo- para não fazer parte da turma que descobriu, em 2007, esse tão antigo vinho da Provence. Teve que rever seus gostos, pelo menos por aqui, para não fazer parte do mundo dos que seguem a moda de perto demais. Os inconformados sofrem.
Não que sejam pessoas difíceis; elas apenas gostam de andar na contramão, e isso em tudo. Um inconformado só freqüenta praias no inverno, não vai a restaurantes da moda, e seu roteiro internacional é, geralmente, um pouco de Paris, Veneza, Marrakech ou Capri -fora de estação, é claro. Nunca pisaram em Bali e estão esperando que passe a febre da Índia para poderem voltar a esse país tão lindo, hoje tão banalizado; preferem ficar em casa, inteiramente sós, a fazer parte de qualquer grupo que se guia por modismos.
Um inconformado detesta datas; não sabe do dia do aniversário de nenhum amigo e gostaria que esquecessem do dele. Quando pode, pega um avião, vai para bem longe e só volta uns dez dias depois da "data querida", mas nem sempre consegue se livrar; tem sempre um amigo ou uma amiga que lembra e dá os parabéns quando ele volta. E tem mais: se ninguém se lembrar, o inconformado é capaz de sofrer, se achando um rejeitado. Se não é fácil entender um inconformado, mais difícil é ser um deles. O fim de ano dos inconformados é um verdadeiro suplício; quando vê um gorrinho de Papai Noel, os comerciais na TV anunciando o Natal, as guirlandas de luzinhas piscando, ele passa mal, e se alguém mandar um cartão de feliz Natal ou uma lembrancinha, quer se atirar pela janela. Passa tudo adiante imediatamente, mas felizmente empregadas domésticas e porteiros estão aí para isso mesmo. Entre 20 de dezembro e 6 de janeiro, em suas casas não entra uma só castanha, um só panetone, nada que lembre, de longe, o tal do Natal; e, se conseguir, durante esse prazo nem atende o telefone. Um problema, entender um inconformado.
Eles até tentam, mas não conseguem - e não por falta de esforço; a cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito. Depois de algumas tentativas, desistem, ficam como são, e pronto; mas fácil não é. Basicamente, os inconformados não suportam ter que viver da maneira que foi determinada, seja lá por quem for, mas têm, pelo menos, um mérito: não obrigam ninguém a fazer o que eles querem, seja lá o que for.
Só um inconformado compreende outro inconformado, e como eles são poucos, geralmente passam a vida sós; sós e sofrendo, porque eles sofrem -mas preferem assim. Mas, de alguma maneira, não escapam de desejar, a amigos e a todos, um feliz Ano Novo.
Sendo assim, feliz 2008.


Danuza Leão,
A maldição dos que não se conformam,
na Fôia de ontem (30.12.2007).
.

domingo, 30 de dezembro de 2007

pietà (ii)


De Alfred Hitchcock, em A Tortura do Silêncio (I Confess, 1953).
.

Ingrid bergman


de Michelangelo Buonarroti.
.

pede pra sair, 07!


Mea culpa, mea maxima culpa...
Por motivos mais ou menos fúteis, este foi um ano em que eu fui, bem mais que nos anteriores, uma cinéfila não-praticante, e tenho a impressão de que muita coisa interessante acabei perdendo ou vendo com atraso, infelizmente.
Por qué no te callas, então?
Calo não. A idéia aqui é só organizar um pouco o que vi ao longo do ano, o que chamou minha atenção.
- Pois bem.


* a césar o que é de césar -
Finalmente Martin Scorsese recebeu seu Oscar de Melhor Diretor, longamente merecido e desejado. Melhor seria se houvesse sido por outros de seus filmes, mas tudo bem. Quem sabe agora, com um Oscar pra chamar de seu, ele volte a fazer filmes menos preocupados em mostrar como eu sou o melhor diretor do mundo. E Os Infiltrados é bem melhor, por exemplo, que O Aviador.*

* e nem era agosto ainda -
"O pecado e a culpa estão de luto. (...) Mas no enterro estarão também coroas de flores da alienação sexual, da falta de comunicação, dos truques da arte, dos mergulhos no íntimo, da loucura, do mutismo, das viagens ao passado, além do coral das batalhas com Deus. "
Assim começava o artigo de Geraldo Galvão Ferraz, na revista Cult, sobre a morte do sueco Ingmar Bergman, em 30 de Julho. Se esperasse algumas horas, ele teria que acrescentar que os presentes ao funeral estariam duplamente enlutados: no mesmo dia, numa dessas coincidências que nem parecem ser de verdade, falecia também o italiano Michelangelo Antonioni, outro dos grandes mestres.
O cinema também perderia, só para citar mais dois ídolos, Deborah Kerr, a bela e clássica atriz inglesa de Tarde Demais para Esquecer, entre outros grandes filmes. E Paulo Autran, um dos maiores atores brasileiros, menos assíduo no cinema, mas com filmes importantes como Terra em Transe ou O Passado, o seu derradeiro.*

* quem não viu? -
Eu nem gostei muito do filme, além de, sinceramente, ainda estar em dúvida quanto à sua natureza - é fascista ou não é? é um filme americano filmado no Brasil ou é só um filme de ação como não se costuma fazer aqui? não é pra ficar meio desconfiada quando se discute mais a ideologia que o aspecto mais "cinematográfico" de um filme? e a pirataria, hein?
Mas me deixa tão feliz ver um filme - e brasileiro! - ser comentado (às vezes apaixonadamente) por participantes do Roda Viva da Cultura, mas também pelas auxiliares de enfermagem, nos plantões da FAP... não via isso desde aquela manhã em que, ainda meiodormindomeioacordada, depois de virar a noite assistindo ao Oscar, ouvi do pedreiro que reformava a cozinha (também com cara de sono - o pedreiro, não a cozinha, que não parecia com nada, àquela altura) : "Ah, eu perdi meu tempo vendo aquilo [o Oscar]! Eu pensava que o brasileiro [Cidade de Deus, que concorria a Melhor Filme Estrangeiro] ia ganhar; mas esses americanos não gostam de realidade, não, eles gostam é daquelas mentiras dos Anéis... eu é que não vejo aquilo mais! " *

* num cinema perto de você -
Este ano foi maravilhoso para os lançamentos em DVD: o ciclo Antoine Doinel todo e outros de Truffaut (já no finalzinho de Dezembro, saiu O Homem que Amava as Mulheres - que devo ver hoje, hu-hu!); Valerio Zurlini, f-i-n-a-l-m-e-n-t-e! apenas três, por enquanto, mas que três!; vários de Eric Rohmer, Billy Wilder, os primeiros de Polanski... :) *

* a lista, enfim! -
Os filmes da minha vida, em 2007:

1. A Rainha (The Queen, de Stephen Frears). E eu ainda acho que Elizabeth II é que fez o filme; Helen Mirren é a identidade secreta dela.
2. Zodíaco (Zodiac, de David Fincher). Não se resolveu mesmo o caso? E daí? A investigação é que é o melhor, além das atuações de Robert Downey Jr, Jake Gyllenhaal e Mark Ruffalo.
3. Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América ( Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, de Larry Charles). O filme mais engraçado e mais politicamente incorreto do ano.
4. O Passado (El Pasado, de Hector Babenco). Longe do meu domínio / cê vai de mal a pior...
5. Pecados Íntimos (Little Children, de Todd Field). Kate Winslet em estado de graça, num filme para não ver a dois.
6. Os Simpsons - O Filme ( The Simpsons Movie, de David Silverman). Mais do mesmo, mas hilário e bem melhor que outras adaptações da TV.

Éramos seis? Sim, porque acabei de me lembrar de Rodrigo Santoro Vera Verão, em 300, então é melhor parar por aqui!
.

sábado, 29 de dezembro de 2007

a césar o que é de césar


Quando vi pela primeira vez os filmes de Fellini, gostei tanto deles que a minha resposta imediata foi tentar imitá-los. Tendo rapidamente percebido que isso era impossível, quis competir com ele. Por fim, tive de me contentar com a minha reação inicial — a de simplesmente apreciar a sua enorme maestria, desfrutando desse universo único a que ele, como ninguém, sabe conferir vida.

Martin Scorsese.
.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

estranhas ocupações


Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão estregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.


Julio Cortázar,
Instruções para chorar
(Histórias de Cronópios e de Famas)
.

imagem: o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) não se contém ao ver, pela primeira vez, John Merrick (O Homem-Elefante).
.

da vida das marionetes (ix)


Ingmar Bergman e as atrizes do belo Persona - Quando Duas Muheres Pecam (Persona, 1966): Bibi Andersson e Liv Ullmann.
.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

antes que amanheça


não aponte o dedo
para benazir butho
seu puto
ela está de luto
pela morte do pai
não aponte o dedo
para benazir
esse dedo em riste
esse medo triste
é você
benazir resiste
o olho que existe
é o que vê

benazir,
de chico césar.
.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

almost a love story


Em tempos de roubo no MASP, é impossível não lembrar de filmes que mostram golpes relacionados à arte, um tema que de vez em quando volta a interessar, com resultados ora bons, como em Thomas Crown - A Arte do Crime, com um Pierce Brosnan fã de Magritte e caindo de charme, ora nem tanto, como o fracasso Hudson Hawk - O Falcão Está à Solta, com Bruce Willis.
Mas o que primeiro me vem à mente, mesmo, e sempre com muita vontade de rever, é O Colecionador (The Collector, 1965), obra-prima de William Wyler que vi há séculos, em VHS, incompreensivelmente ainda não lançado em DVD no Brasil (oficial, ao menos).
Baseado num livro de sucesso do inglês John Fowles, lançado no início dos anos '60, o filme ganhou alguns prêmios - como em Cannes,para seus dois atores principais (e praticamente únicos), Terence Stamp e Samantha Eggar, maravilhosos - e foi motivo de discussões em vários lugares, pelo tema e pela estilo assumidamente acadêmico de seu diretor - o que chegava a ser quase um palavrão, naqueles tempos de novas ondas nos cinemas de todo o mundo.
É uma narrativa clássica, mas isso está longe de comprometer a intensidade, a elegância e o impacto do filme, que conta a história do seqüestro de uma jovem estudante de arte (Miranda, vivida por Samantha Eggar, bela atriz inglesa que parece não haver feito muita coisa mais) por um certo Freddie Collegg, rapaz caladão que coleciona borboletas e, ao ganhar um prêmio na loteria, resolve acrescentar a moça, que admira à distância, entre seus espécimes " de estimação".
O filme, como o livro (que é também ótimo), perturba pela relação entre os dois, com a nítida força da personalidade de Miranda sobre a de Freddie, mais forte apenas fisicamente, mas inferiorizado pela beleza, pela bondade, pela cultura e pela vivacidade que há nela, e que ele pensa poder também prender, colecionar, mas só consegue destruir, retirando-lhe a liberdade. Tudo acentuado pela atuação perfeita de Terence Stamp (que era o homem mais belo do mundo, naquele momento) - um gentleman capaz de bater sempre à porta de sua prisioneira, antes de entrar, um dos mais memoráveis psicopatas do cinema.
Um filme tão perturbador como pensar que espécie de "doença de colecionador" é a que motiva esses e outros roubos ou ataques a obras de arte, levando a sua destruição, ou "desaparecimento público".
.

o que faz Carlitos correr?


Pela última vez no mundo inteiro e simultaneamente vai-se falar de Charlie Chaplin e, em virtude das circunstâncias, em termos gloriosos. É verdade, Chaplin era o mais isto, o mais aquilo, o único que... O recurso a esse vocabuário extremo provocará irritação, e logo leremos apelos à moderação, ao senso das proporções etc. Afinal, o que é um crítico senão uma espécie de escritor que tem todo interesse em demonstrar que Victor Hugo não passava de um homem como os outros?
A melhor maneira de saudar esse homem comum que foi Charlie Chaplin, na hora em que seu pobre corpo só teve forças para empurrar a porta de "saída dos artistas", seria colocar um projetor na mesa da sala de jantar e enviar para a parede as imagens de Uma Noite no Music-Hall, O Imigrante ou Pastor de Almas. Mas todos concordam com isso, ou seja, Charlie Chaplin é considerado o melhor mímico do mundo. O falatório começa depois e diz respeito à sua adaptação ao loga-metragem e ao cinema falado, ao oportunismo de sua atividade política, sua vida privada e sua fortuna (o que hoje chamariam de sua "relação com o dinheiro"), à qualidade, enfim, de sua autobiografia, História da Minha Vida.
Não é apenas o espírito de contradição que me leva a exprimir admiração pelo que mais foi criticado na obra de Chaplin: sua atividade política durante a Segunda Guerra em favor da abertura de uma segunda frente contra Hitler, seus últimos filmes, Um Rei em Nova York, A Condessa de Hong Kong e seu livro História da Minha Vida.
Os que criticaram sua autobiografia a leram, pois tanto um admirador de Chaplin como um mero observador do cinema podem ali encontrar respostas para todas as perguntas possíveis sobre o nascimento de uma arte, a expansão de Hollywood, a revolução do cinema falado, as repercussões da Guerra Fria na vida americana durante os anos 50, a relatividade da glória e da fortuna, o sigificado da primeira infância no desenvolvimento da personalidade, a distinção entre os resultados obtidos pelo talento ou pelo trabalho; em suma, se fosse preciso ler apenas um livro para compreender nosso século de cinema, eu recomendaria História da Minha Vida.
"Entretanto não precisei ler livros", escreve ele, " para saber que o grande tema da vida é a luta contra o sofrimento. Por instinto, todas as minhas palhaçadas apoiavam-se nisso. Meu método para organizar a trama da comédia era simples: consistia em mergulhar personagens no tédio e fazê-los sair dele. "
Eis a teoria de sua arte, mas isso não impede de pensar que toda a obra de Chaplin é autobiográfica. Outros cineastas antes e depois dele descreveram a fome, por exemplo, mas se ele o fez melhor, foi talvez porque conhecesse mais o tema! Contratado pela Keystone para fazer "filmes de perseguição", Chaplin ia correr mais rápido e mais longe que seus colegas simplesmente porque sua vida dependia daquilo.
Crescera, como conta em suas memórias, "nas camadas inferiores da sociedade" (só um inglês pode empregar essa expressão, daí a importância de se tornar sir Charles), o que lhe permitira compor o personagem de Tramp, que hoje designaríamos como um "marginal". Sim, Chaplin foi o mais marginal dos marginais, e essa condição máxima fez dele o mais célebre dos homens célebres.
(...)
Quando se trata de Charlie Chaplin, ou de qualquer um que tenha feito tão bem aos outros, não convém minimizar nada. Sim, Chaplin era o maior mímico de seu tempo, sim, tinha o dom de fazer rir e fazer chorar, mas teve também a força e a coragem de se tornar seu próprio diretor, seu próprio produtor. Se levou mais tempo que outros para se adaptar ao cinema falado, foi porque tinha a responsabilidade suplementar de expor a si mesmo na tela e porque o passo a ser dado era imenso - sua expressão artística tendo encontrado a forma perfeita no cinema mudo. (...)
Ao escrever sobre Charlie Chaplin, era fatal que a palavra "gênio" viesse a se formar no teclado de minha máquina de escrever. Vejamos o que diz o dicionário Littré: " Aptidão especial além da medida comum. "
Charlie Chaplin morreu. Fez belos filmes e belos filhos. Então, vida longa e feliz a Géraldine, Joséphine, Victoria, Jane e aos outros, e também toda a nossa gratidão e afeição a Oona, que deu a Charles Chaplin uma velhice feliz.


François Truffaut,
Charlie Chaplin, um homem como os outros,
(Le Monde, 1977.)
.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

poema de natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes
.

domingo, 23 de dezembro de 2007

o homem do ano


Em 2007 o cinema perdeu dois de seus maiores gênios - Bergman & Antonioni - e, numa coincidência das mais estranhas, no mesmo dia (30 de Julho).
Mas este também foi o ano, entre outras coisas, em que brilhou, forte, a estrela de um dos melhores e mais cinéfilos diretores vivos: Martin Scorsese.
No ano em que completou 65 anos, o cineasta:

* ganhou seu aguardado Oscar de Melhor Diretor - e, apesar de dar um certo desconforto vê-lo ganhar o prêmio mais do que merecido por um de seus filmes menos pessoais ( refilmagem de uma produção oriental, quando há tantos filmes melhores dele...), foi emocionante o momento em que ele recebeu a estatueta das mãos de Spielberg, George Lucas e Coppola.

* foi celebrado no Festival de Cannes, como convidado de honra, ao ser entrevistado pelo francês Michel Ciment durante 90 minutos, diante de uma platéia formada por (sortudos) críticos de cinema do mundo todo, estudantes, cinéfilos e outros cineastas, como Quentin Tarantino.

* dirigiu mais um de seus documentários sobre estrelas do rock, agora os Rolling Stones - Shine a Light, que só estreará em 2008, mas já desperta ansiedade.

* dirigiu e atuou em um anúncio de uma bebida espanhola, inspirando-se em Hitchcock com humor e classe, com um resultado divertidíssimo.

E ainda manteve sua luta pela preservação e restauração de filmes antigos, como os do brasileiro Glauber Rocha.


Vai para o trono ou não vai?
.

sábado, 22 de dezembro de 2007

enquanto isso...


... em Camelot, os Kennedys se preparam para o Natal.
.

bibliomania (vii)


Será que ele é?

A dúvida quanto às intenções reais de seu marido não deixam em paz a leitura de lady Aysgarth (Joan Fontaine), em Suspeita (Suspicion, 1941).
.

hitchcock/ scorsese

A notícia já se espalhou, muitos já viram o vídeo, mas só hoje o descobri, e achei divertidíssimo.
É apenas um comercial de espumante, só que dirigido por Martin Scorsese e inspirado em Hitchcock, com a participação de Thelma Schoonmaker, sua fiel escudeira, fazendo seu próprio papel de montadora. E trilha de Bernard Hermann (a de Intriga Internacional).

É pouco?

Aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=ZQiwUA6_aUk&feature=related
.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

da vida das marionetes (viii)


O belo Gael García Bernal, dirigido por Hector Babenco em O Passado.
.

o passado (nem sempre) condena


BARBARELLA


Ei! Nada é o que parece.
- Madonna

Quando terminaram as filmagens de Descalços no Parque, Vadim e eu nos mudamos para Roma, onde Barbarella seria filmado, no estúdio De Laurentiis. Alugamos uma casa na periferia da cidade - parte castelo, parte masmorra. Ao lado do nosso quarto havia uma torre que datava do segundo século antes de Cristo. Numa noite, durante um jantar, na sala de estar cavernosa, houve um estrondo. Um pedaço do gesso do teto caiu e uma coruja despencou dentro do prato de Gore Vidal. Acabamos descobrindo que era uma família de corujas que fazia a algazarra na torre.
Nenhum dos efeitos especiais a que hoje quase não damos importância existia em 1967. Vadim e seus colaboradores tinham que inventar tudo, e, às vezes, as idéias davam certo, outras, não. A seqüência inicial do filme mostra Barbarella se despindo de seu traje de “astronauta” enquanto flutua em sua cabine espacial turva e forrada de pele. Essa cena incomum rendeu um bocado, sendo o primeiro strip-tease flutuante da história do cinema (e talvez o último!). Claude Renoir, cineasta brilhante e sobrinho de Jean Renoir, diretor de cinema francês, teve a idéia de como fazer a filmagem en­quanto brincava no banheiro de seu hotel, numa noite. Veja como foi: o cenário da cabine espacial, em vez de um cômodo comum, no qual você entra e sai, era virado para cima, para que ficasse de frente para o teto do imenso palco de som. Uma placa de vidro grosso foi posicionada atravessando a entrada do cenário, e a câmera ficava pendurada nas vigas, logo acima. Eu teria que subir a escada em direção ao vidro para que, sob a pers­pectiva da câmera, a cabine espacial ficasse atrás de mim e eu parecesse estar suspensa no espaço. Então, eu começaria a tirar minha roupa lentamente, enquanto uma máquina de vento sopraria meus cabelos e moveria as peças de roupa ao redor, como se estivessem comigo, no espaço. Eu estava mor­ta de medo de o vidro quebrar; morta de medo de sair rolando; morta de medo de não ser perfeita. Mais uma vez, eu simplesmente não achei que po­dia dizer não. Mas Vadim prometeu que os créditos do filme seriam posicionados, criteriosamente, para cobrir o que tivesse de ser coberto - e foram.
O maior desafio para nós era encontrar um meio de filmar as seqüências em que Pygar, o anjo cego, voa pelo espaço carregando Barbarella nos braços. Um especialista em controle remoto bolou um plano: um imenso mastro de aço saindo, horizontalmente, de uma tela cinza semicircular. O mas­tro tinha ganchos grandes e parafusos nas pontas, aos quais seriam afixados dois espartilhos metálicos. Um espartilho havia sido feito para John Phillip Law e o outro, para mim, e eram bem apertados, pois nossos figurinos tinham que ficar sobre o metal, sem parecer volumosos.
Nós nos vestimos, primeiro os espartilhos metálicos, depois as roupas e, então, as asas de John com arames que iam até uma máquina de controle remoto foram amarradas em suas costas. Depois, um guindaste nos içou e ficamos em pé na plataforma, enquanto John era pendurado numa das pontas do mastro. Em seguida, meu espartilho metálico foi aparafusado à frente do dele, me colocando numa posição que fazia parecer que ele estava me carregando. Depois que havíamos sido vestidos, erguidos e aparafusados, chegou a hora da verdade. O guindaste, que até então estivera nos sus­ten­tando, foi afastado, nos deixando suspensos no ar, com o peso de nossos corpos esmagando nossos quadris e fundilhos contra os espartilhos de metal.
Foi a mais absoluta agonia. E, com tudo isso, nós tínhamos que nos lembrar de nossos diálogos, fingir estarmos sonhando e ser engraçados. Os sons contidos de angústia que eu ouvia de John (que ainda lidava com o peso adicional de suas asas) me diziam que sua dor era pior que a minha, que já era quase insuportável. Ninguém havia levado em conta os nossos pobres fundilhos! John estava convencido de que sua vida sexual teria um fim prematuro.
E lá estávamos nós, pendurados, enquanto em algum lugar do palco escuro de som um técnico manejava os controles remotos, fazendo o mastro girar para lá e para cá, levando as asas de John a baterem, para cima e para baixo. Enquanto estávamos pendurados, girando, era projetado um filme do céu, com nuvens em movimento (filmadas de um avião), na tela cinza atrás de nós. Nada do céu e das nuvens poderia ser visto em nossos rostos ou figurinos, nem era possível ver o que estava sendo projetado na tela até que o filme fosse revelado. John e eu não estávamos nos movendo no espaço à frente, realmente, mas o filme tinha de dar essa impressão. Essa era a inten­ção. Esse tipo de projeção frontal é comum hoje, porém, naquela época, nunca havia sido feita - nós éramos as cobaias. Muitas coisas tinham que funcionar direito, simultaneamente: o mastro de aço tinha de girar em sin­cronia com o movimento do céu, o técnico de controle remoto tinha de fa­zer as asas de Pygar moverem-se da mesma forma, e a projeção na tela cinza tinha de funcionar apropriadamente. Isso levou muitos dias até ser ajustado, enquanto eu e John ficávamos lá, pendurados, com nossas partes íntimas cada vez mais dormentes.
Nunca vou me esquecer do primeiro dia, quando finalmente pudemos ver as primeiras cenas do copião. Todos estavam eufóricos e ansiosos, já que voar sem a ajuda de arames nunca tinha sido feito antes, e muito dependia da credibilidade das cenas de vôo. Houve uma batalha aérea completa, es­sen­cial para a história. As luzes da sala de projeção foram reduzidas, o filme começou a rodar e... Oh, meu Deus... estávamos voando para trás! Foi engraçado demais para não rir: a coisa mais óbvia havia sido negligenciada, a direção do movimento das nuvens e da paisagem. Mas depois que eles nos puseram em sincronia com o visual de fundo, tudo deu certo. Realmente parecia que estávamos voando, como se ele estivesse me carregando, como se não estivéssemos sentindo dor alguma, como se as nuvens e mon­tanhas estivessem passando - só que na direção errada.
Foi uma filmagem difícil, com muitos arranhões e hematomas. Eu era atacada por pequenos bonecos mecânicos. Fiquei fechada numa caixinha plástica, com centenas de pássaros voando, bicando e fazendo cocô nos meus cabelos, braços e rosto. Pediam-me constantemente para escorregar por tubos plásticos ou ficar no meio de nuvens de fumaça. Contudo, quan­do vejo o que os atores de filmes de ação têm de fazer hoje em dia, acho que comigo foi até bem leve.
Pelos padrões de hoje, Barbarella parece devagar (para muitos críticos, naquela época, também pareceu). Mas penso na qualidade inferior do material, mais frágil e barato, dos efeitos, e no humor exagerado e fora do padrão, que lhe dão um charme incomum. Pauline Kael, crítica de cinema da New Yorker, escreveu sobre a minha atuação: “Sua inocência de boa moça americana a torna uma heroína maravilhosamente apta à comédia pornô... Ela tem uma deliciosa e ampla consciência da malvadeza do que está fazendo, e essa percepção inocente de travessura, de ser uma dama ma­culada, é o que a distingue de qualquer outra atriz nua.”
“Qualquer outra atriz nua”, sei! Eu consigo rir disso agora, mas as tensões e inseguranças que me assombraram durante a execução do filme quase acabaram comigo. Lá estava eu, uma jovem que detestava seu corpo, sofria de uma terrível bulimia, sumariamente vestida - às vezes nua -, inter­pretando uma heroína sexual. Todas as manhãs, eu tinha certeza de que Vadim acordaria e perceberia ter cometido um erro terrível - “Oh meu Deus! Ela não é Bardot!”
Sem querer que ninguém soubesse dos meus sentimentos e, ao mesmo tempo, querendo dar o meu melhor (como uma escoteira), eu mandava um Dexedrine para dentro e seguia em frente. A “inocência-de-boa-menina-americana” que Pauline Kael descrevera era, na verdade, o Cavaleiro Solitário “tentando fazer melhor”.
A bebedeira de Vadim estava bem pior. Ele era um bebedor espasmódico: passava semanas e meses sem uma gota (infelizmente, porque isso lhe permitia pensar que tinha a doença sob controle), mas, depois, as coisas pareciam se desintegrar. Com o trabalho em Barbarella em andamento, ele passou a beber no almoço e, depois disso, nós nunca sabíamos o que esperar. Ele não ficava caindo, mas embolava as palavras, e suas decisões quanto à filmagem das cenas freqüentemente pareciam ter uma visão doentia. Agora, quando assisto a certas cenas do filme, me lembro muito bem o quanto me sentia vulnerável naquela época. E cada vez mais zangada!­
Eu também ficava cada vez mais distante, como se estivesse em apuros (ou pendurada num mastro de aço), sozinha, como se ninguém mais se importasse com o que eu me importava - como aparecer para trabalhar sóbrio e no horário, ter uma boa noite de sono para estar preparado e criativo no dia seguinte. Mas ainda me faltava confiança para tomar a frente quando Vadim parecia particularmente fora de controle.
Atualmente, o custo da produção de Barbarella pareceria irrisório, mas, para a época, foi uma quantia considerável. O elenco e a equipe técnica for­mavam um grupo grande e multilíngüe, os desafios técnicos eram imensos, e muitas coisas, incluindo o roteiro, deveriam ter sido resolvidas com bastante antecedência. Precisei me fingir de doente com freqüência para que o seguro do filme cobrisse o custo de um ou dois dias de paralisação, en­quanto Vadim, Terry Southern e outros resolviam problemas de roteiro. Uma coisa é certa, eu jamais poderia pensar que o filme fosse se transformar num clássico cult, e, em alguns círculos, aquele pelo qual eu e Vadim ficaríamos mais conhecidos. Demorei algumas décadas para entender o motivo disso e finalmente compartilhar o prazer dos encantos exclusivos do filme.
Havia outro sentimento que começou a me cutucar. Era apenas uma sinalização de algo que eu ainda não conseguia identificar - a velha sensação de estar no lugar errado. Mas, dessa vez, não era a sensação de que havia uma festa da qual eu havia sido deixada de fora. Não. Agora a minha vida era a festa - uma festa longa, interminável, onde eu não queria estar, particularmente. Era uma sensação de que algo realmente importante estava acontecendo lá fora, e minha vida estava sendo dissipada por “issos e aquilos”. Havia as dificuldades dos negros, nos Estados Unidos, de que eu apenas começava a ter ciência. Havia um crescente movimento contra a Guerra do Vietnã. Mas eu não acompanhara as notícias da guerra de perto, e quando os amigos franceses de Vadim criticavam o envolvimento americano, minha reação era geralmente defensiva. Eu simplesmente não podia acreditar que os Estados Unidos pudessem estar envolvidos numa causa errada, e detestava que estrangeiros nos criticassem. Eu nem fazia idéia do nascimento do movimento feminista e me sentiria muito ameaçada por ele, se fosse exposta ao feminismo.
Não era um tipo específico de vida alternativa que eu almejava, era ape­nas um crescente mal-estar. Eu era uma maria-vai-com-as-outras, uma participante passiva, vivendo “como se”, como se eu tivesse um bom casamento, como se eu fosse feliz e plenamente presente. Eu também tentava não ser muito séria em relação a nada, porque se levasse as coisas muito a sério, isso significava ser burguês e não ter senso de humor. Havia uma certa tirania quanto ao mandato de Vadim “não leve as coisas muito a sério”, principalmente no que dizia respeito a mulheres.
Quando as filmagens de Barbarella terminaram, no outono de 1967, me ocorreu que talvez eu pudesse melhorar o mal-estar e preencher o vazio que parecia crescer tendo um bebê. Faça melhor.
Uma das coisas de que eu mais gostava em Vadim era sua maneira de ser pai. Talvez, pelo fato de ele próprio nunca ter crescido totalmente, isso o tornava capaz de habitar um mundo infantil. Sua falta de preocupação com pontualidade e cumprimento de deveres lhe foi útil quando se tratava de seus filhinhos. Toda noite, depois de eu caçar Nathalie para escovar os dentes e ir para a cama, Vadim retomava o fio da meada de alguma fábula fantasmagórica que havia tramado para ela. Às vezes, a história prosseguia por semanas. Geralmente havia um elemento de ficção científica, sempre extravagante, com gente pequenina passando a ter grandes poderes. Além de suas histórias, havia suas pinturas: Vadim tinha um estilo único de pintar - primitivo, colorido, sensual, de muitas formas, como os desenhos de uma criança. E tinha paciência e generosidade com seu tempo - dois elementos essenciais para ser um bom pai: Vadim podia passar horas discutindo com seus filhos, sobre as origens do universo, a vida após a morte, o significado da gravidade, os porquês da vida, tudo com encanto e atenção que me comoviam profundamente. Ele era inteiramente presente para as meninas, ao menos quando eram pequenas. Pensando bem, isso sempre foi verdade para a nossa Vanessa também.
Como tanta gente que sente seu casamento definhando, pensei que ter um filho nos aproximaria. Mas o desejo de ter um bebê não era apenas para salvar nosso casamento problemático, era uma forma de salvar a mim. Achei que a experiência do nascimento de uma criança, de alguma forma, me corrigiria, que a dor do parto natural faria com que eu nascesse para mim. Eu ainda me via muito cheia de falhas, incapaz de abrir meu coração e amar o suficiente para ser verdadeiramente feliz.
Vadim achou que ter um bebê era uma idéia esplêndida, então tive meu DIU removido e, um mês depois, durante as férias de Natal em Megève, uma estação de esqui nos Alpes franceses - uma semana após meu aniversário de trinta anos, para ser mais exata, em 28 de dezembro de 1967 -, eu concebi. Eu soube o momento em que aconteceu e disse a ele - houve uma ressonância diferente ao fazermos amor.
Eu tinha um ano inteiro pela frente, sem compromissos, exceto concluir o trabalho em nosso sítio, que incluía plantar um jardim e uma floresta. Apesar de não ter uma lembrança consciente de meu pai transplantando grandes pinheiros e árvores frutíferas que trouxera para a nossa propriedade de Tigertail, no anos 1940, me contaram que ele o fez. Eu aposto que foi nessa época que fui mordida pelo bicho transplantador de árvores, uma marca registrada minha. Não sou fanática por jóias ou roupas, mas grandes árvores - aí sim, isso é algo em que gasto meu dinheiro. Hoje em dia justifico isso explicando que estou velha demais para pequenas mudas.
Resolvi que queria árvores bem grandes na frente de nosso terreno, aceráceas, álamos, bétulas etc. Então, dirigi por toda a França, até os maiores viveiros de mudas, com as árvores mais altas que eu podia comprar, que tinham de ser transportadas à noite, e as linhas telefônicas tinham de ser removidas para que pudessem passar. Uma amiga havia nos dado seu carro, um Panhard Levasseur 1937, uma verdadeira peça de colecionador - mas, como ele já não andava, mandei um soldador cortá-lo ao meio, depois sol­dá-lo ao redor de uma bananeira, para que a árvore crescesse bem no meio dele - uma escultura de quintal.
Foi num desses viveiros, procurando árvores, que senti minha primeira onda de náusea. Ela me deteve no caminho. Eu sabia exatamente o que signi­ficava. Não precisei de um teste de gravidez para me dizer. Comecei a suar frio, voltei para o carro e me sentei - e fui tomada por uma sensação de terror! Senti que tinha de juntar todas as minhas forças contra a sen­sação de pavor que parecia ter me invadido. Por quê? Eu quero isso! Então, as lágrimas vieram, depois, os soluços. O que está havendo? Não é assim que eu deveria me sentir!
E eu soube: a gravidez era uma prova incontestável de que eu era real­mente uma mulher - o que significava “vítima”, o que significava que eu seria destruída, como minha mãe. Foi um daqueles momentos estranhos, em que eu sentia o que sentia ao mesmo tempo em que estava fora de mim mesma, analisando o sentimento - e ficando assustada com seu significado.­
Já com um mês, ou mais, de gravidez, comecei a sangrar e fui aconse­lhada a não sair da cama por pelo menos trinta dias, se quisesse evitar um aborto; me deram DES (dietilstilbestrol) para prevenir o aborto, uma dro­ga que mais tarde foi associada ao câncer uterino em filhas de mulheres que a haviam tomado. Depois eu tive caxumba.
Eu via esses problemas como um sinal poderoso de que não estava des­tinada a ser mãe, e eles me deram justificativas suficientes para que eu voltasse atrás quanto a tudo. No entanto, quando meu ginecologista francês recomendou que eu fizesse um aborto, pelos riscos em que a caxumba colo­cava o feto, nem por um instante considerei aquilo como uma opção (apesar de ser grata por ter a escolha). Não era que eu e Vadim não nos preocupássemos. Mas meu apego à maternidade era tão tênue que eu sentia que, se abortasse o feto, eu jamais ia querer ter outro bebê. Foi uma época triste em minha vida, vou lhe dizer: eu acabara de fazer trinta anos, estava grávida, acamada, correndo risco de abortar; a caxumba havia inchado meu rosto, deixando-o do tamanho de uma bola de boliche; e, para completar minha penúria, do outro lado do oceano, Faye Dunaway acabara de causar sensação em Bonnie e Clyde. Não que eu fosse páreo, ou algo assim.
Eu havia apenas entrado no meu segundo ato e, pelo que eu podia ver, a minha vida chegara ao auge e começava a declinar.


Jane Fonda,
Minha Vida Até Agora.
.

(porque hoje ela faz 70)
.

do silêncio que não é mudez


Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Ana Cristina Cesar,
Noite Carioca.
.

me rege, me guarda,


.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

por que será, meu bom josé?


De A Felicidade Não se Compra (It's a Wonderful Life, 1946) àquele surreal episódio em que os Flintstones comemoram, em plena Idade da Pedra, o Natal, eu sempre fui fã de quase tudo relacionado à data. E, pra ser sincera, nem precisa ser dezembro para que eu me encante com Natalie Wood criancinha em De Ilusão Também se Vive ( Miracle on 34th Street, 1947), ou com Bing Crosby cantando "I'm dreaming of a White Christmas..." Até das Férias Frustradas de Natal (National Lampoon's Christmas Vacation, 1989) eu gosto, embora prefira, a Chevy Chase, o Bill Murray dickensiano de Os Fantasmas Contra-Atacam (Scrooged, 1988).

Pensando em uma possível lista de filmes com o tema, uma dúvida: não consigo me lembrar de nenhum filme brasileiro em que haja festas natalinas, muito menos de algum cujo tema seja a data.
Talvez seja porque seria mesmo estranho ver trenós puxados por renas enfrentando estradas cheias de buracos, ou bonecos de neve derretendo, coitados, sob o sol do sertão nordestino. Sem falar em violência urbana, pobreza etc. etc.
Cadê o frio & a neve, as luvas & meias & cachecóis? e Papai Noel?
Será possível que não se possa imaginar um Natal sem ter que exportar a experiência do Hemisfério Norte?
.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

quelqu'un m'a dit


Menina, você viu?

Eu até que tento, mas meu lado CARAS às vezes é mais forte, e não resisto a certos mexericos....
O de ontem:

O presidente francês Nicolas Sarkozy, divorciado (de novo!) há pouco de sua esposa, Cecilia, foi fotografado por paparazzi franceses na Euro Disney, em Paris, alegremente acompanhado da bela Carla Bruni, ex-modelo, atriz e cantora franco-italiana.

Qual a importância da notícia para nós, mortais?
Não sei, mas dá mais charme ao blog, que andou meio paradão.
.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

come as you are


Por que é que as pessoas não param de ser amáveis
ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,
e passam a ser um pouco mais elementares?

Como o homem é feito de elementos,
de fogo, chuva, ar e barro,
e como nada disso é amável
mas elementar,
o homem não pende inteiramente para o lado dos anjos.

Quero que os homens recuperem seu perdido equilíbrio
entre os elementose sejam mais fogosos ao menos, tão incapazes de mentir
como o próprio fogo.

Quero que eles sejam fiéis à variação natural, que nem a água,
que passa da nascente ao vapor e chega ao gelo
sem perder a cabeça.

Eu estou cheio das pessoas amáveis,
que são, de alguma forma, uma mentira.


D.H. Lawrence,
Elementar.
.

domingo, 16 de dezembro de 2007

sábado, 15 de dezembro de 2007

"somos uma obra de arte"


Duas ou três noites mais tarde foram ao cinema ver Rocco e Seus Irmãos, um filme pelo qual competiam com um fanatismo selvagem. Quantas vezes já o tinham visto? Doze? Dezessete? Alguns segundos antes de chegar à cena com Annie Girardot e Delon no telhado da catedral - a cena em que Rímini perdia o controle e chorava como um menino -, Sofía apenas olhou para ele, como se o escrutasse na escuridão, e antes que Rímini desmoronasse aproximou a mão aberta de sua nuca e a manteve ali por alguns segundos, irradiando seu calor, como um desses curandeiros que não precisam ter contato com o corpo para curá-lo. Tinham substituído o consolo pela prevenção. A cena passou, Annie Girardot saiu correndo pelo terraço. Delon perseguiu-a, os dedos de Sofía tremeram levemente junto à nuca de Rímini, e Rímini, naturalmente, não chorou. Não chorou dessa vez nem nunca mais, e Rocco foi engolido nessa noite terrível. Tinham alcançado uma forma rara de perfeição. Viviam no interior de um interior, como nesses ambientes que reproduzem por meios artificiais, entre quatro paredes, atrás de gigantesco tabique de vidro, para que os visitantes possam admirar seu realismo, a temperatura e a umidade e a pressão e a fauna e a flora de ecossistemas exóticos. Não havia região da bolha que não estivesse recoberta pela membrana. Rímini e Sofía respiravam normalmente, mas o exterior já começava a se tornar um pouco borrado para eles, embaçado pelas velaturas que, ao exalarem, deixavam nas paredes de vidro.

Alan Pauls,
O Passado.
.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

da vida das marionetes (vii)


Sofia Coppola e Bill Murray caminham pelas ruas de Tóquio, durante as filmagens de Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003).
.

tu não te moves de ti


E por falar em expectativas...

...fui ver ontem, finalmente, O Passado (El Pasado, 2007), a adaptação de Hector Babenco para o romance de Alan Pauls, o livro mais marcante das minhas leituras (pobrinhas, pobrinhas) deste ano. Claro que estava cheia de expectativas imensas: por ser um filme mais intimista de Babenco, de quem eu adoro Coração Iluminado, mais de uma vez relacionado ao novo filme; por ter Gael Garcia Bernal (lindo, bom ator, intenso, corajoso nas escolhas e nas atuações); por se passar em Buenos Aires, que eu adorei...
Mas expectativas sempre atrapalham, e é melhor deixá-las fora do cinema.

Talvez o que mais me atraia na história seja o fato de que ela trata de algo tão antiquado, tão fora de moda, hoje: a importância do passado, da presença dele mesmo quando o negamos ou tentamos esquecê-lo. E, nesse passado, das pessoas que conhecemos e que amamos, e da importância que elas têm em nossa vida, em nossa identidade.
Qualquer pessoa que, ao final de uma relação amorosa, parou pra pensar e viu que não sabe mais até onde ia o que era ela e o que que era o outro, ou qualquer pessoa que saiba o que é ter um amor, meu senhor, e por ele quase morrer, entende boa parte do desespero de Sofia, a personagem mais forte e ativa da trama. Essa mesma pessoa se exasperará com a passividade de Rímini, cujos esforços para se desvencilhar do passado, conscientes ou inconscientes, são sempre menos efetivos do que deveriam ser, por sua natureza passiva e manipulada, à mercê do destino, e das mulheres (e de Sofia, mais que tudo).
Não há tantas referências cinematográficas quanto no livro - onde Rocco e Seus Irmãos e A História de Adèle H. são fundamentais, por exemplo - mas nada mais cinematográfico que o silêncio da atuação de Gael Bernal, traduzindo prefeitamente o que é dito em uma enxurrada de palavras, ao longo das centenas de páginas do livro original.
Enfim, é belo e doído, e traz alguns momentos especialmente afetivos, como a participação de Paulo Autran, em seu último papel no cinema (e de Karin Rodrigues, sua esposa, bela e decisiva, mesmo numa ponta). Ou o próprio diretor, aparecendo rapidamente como um projecionista em um cinema velho - aliás, um dos cartazes no tal cinema é de A Intrusa, um antigo filme de Carlos Hugo Christensen, argentino radicado no Brasil, como Babenco, e também baseado em um autor argentino - Jorge Luis Borges.
.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

i lost it at the movies


" Tudo o que vale a pena, em cinema, depois de 1941, sofreu a influência de Cidadão Kane. "
- François Truffaut.

É, de longe, o filme mais citado como o Melhor de todos os tempos, ou o Mais Importante, até mesmo o Mais Revolucionário. A mais fantástica estréia de um diretor, então um jovem de 25 anos, depois largamente considerado um dos gênios do século XX: Orson Welles.
Além de todos os elogios às suas qualidades cinematográficas, Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), é também um daqueles filmes que parecem atrair histórias intrigantes em torno de si, desde mesmo antes de sua estréia, quando surgiram as primeiras especulações de que a inspiração de Welles para criar seu magnata da imprensa seria o todo-poderoso William Randolph Hearst; passando pela análise de Pauline Kael, com sua polêmica tese da real autoria do filme - no maravilhoso artigo "Criando Kane "(publicado em 1971 no The New Yorker).
E ainda hoje, passados mais de 60 anos de seu lançamento, novamente o filme vira notícia. Desta vez, menos gloriosa, para alguns, mas, ainda assim, interessante.
Como não é raro acontecer, o filme de Orson Welles não foi unanimemente apreciado em sua própria época, como depois seria. Seria até indicado a vários Oscars em 1942, inclusive ao de Melhor Filme, mas receberia apenas um: o de Melhor Roteiro Original, concedido a Orson Welles e Herman J. Mankiewicz.
Menos de 10 anos depois de receber a estatueta, o diretor/ator/roteirista do filme a usaria, numa atitude das menos usuais (para outros colegas dele, ao menos), como forma de pagamento a um técnico, que com ela ficaria até 1994, quando foi colocada em leilão pela Sotheby's. Beatrice Welles, filha e herdeira de Orson, processou, à época do leilão, tanto o tal técnico quanto a Sotheby's, mas seria também processada dela Academia, que concede os Oscars e prefere manter as estatuetas fora do mercado. Beatrice enfim ficou com o prêmio do pai, mas doou-o depois a uma organização, que, este ano, o colocaria novamente em leilão, pela mesma Sotheby's.
Para encerrar - ? - a epopéia da estátua dourada, o leilão aconteceu este mês, no dia 11, em Nova York.

And the Oscar went to...
ninguém!
Nenhum comprador aparentemente se interessou pelo prêmio, pelo qual se esperava algo entre 800.000 e 1.200.000 dólares.

A estátua parece, assim, seguir a trajetória do próprio Orson Welles, cuja genialidade despertava sempre tantas expectativas que suas realizações acabavam por parecer menores, em comparação com o que deveria ser seu destino.
Como uma grande promessa não cumprida.
.

domingo, 9 de dezembro de 2007

the men i love


someday he'll come along...

Archibald Alexander Leach, que, como todos, também queria ser como Cary Grant.
.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

sexta-feira sem luz


Aconteceu na quarta-feira (dia 05.12), mas oficialmente foi anunciada hoje mais uma perda deste ano - que daqui a pouco acaba, finalmente!
Morreu Karlheinz Stockhausen, o músico alemão de obra " neuroticamente bela" , como foi definida sua música, e que teve presença fundamental na experimentação sonora e na aproximação da música às artes visuais, discutindo o limite entre as formas de arte e entre a arte e a sociedade. Esses interesses o aproximaram de vários dos mais influentes personagens da contracultura e da vanguarda, a partir da década de '60, como Allen Ginsberg, John Cage e John Lennon.
Nos últimos anos ele já pouco aparecia em público, tornando-se notícia mais por algumas declarações polêmicas - como quando afirmou que o atentado ao World Trade Center era uma " obra de arte": " O que aconteceu lá, e agora todos vocês têm de reajustar seus cérebros, é a maior obra de arte que já existiu. O fato de que espíritos consigam, em um único ato, algo que não poderíamos sonhar na música, e o fato de que aquelas pessoas tenham ensaiado um concerto durante 10 anos, ensaiado como loucos, de um modo totalmente fanático, e então tenham morrido, é a maior obra de arte de todo o cosmos. Apenas imagine o que acontece lá. Eles estão completamente concentrados numa performance, e daí cinco mil pessoas são levadas à ressurreição em um único momento. Eu não poderia ter feito isso. Nós compositores somos nada comparados a isso."
Uma declaração infeliz e que lhe trouxe muitas críticas, mas coerente com sua concepção de que todos os acontecimentos mundanos representariam obras de arte. E que em nada diminui sua importância na música conteporânea.
Não por acaso, seu rosto está na sempre memorável capa do Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles - ele é o quinto rosto, da esquerda para a direita, na fila mais ao alto. Ele merecia esta e muitas outras homenagens.
.

da vida das marionetes (vi)


Catherine Deneuve : A Sereia do Mississipi (La Sirène du Mississipi, 1969), segundo François Truffaut.
.

criação de um padrão amoroso


Eu devia ter uns dez anos, ou mais, quando me apaixonei por Sting. Ou melhor, me apaixonei pelo seu "personagem" no clipe de Don't Stand so Close to Me '86 - aquele professor que quer-não-quer o assédio de uma aluna adolescente, just like the old man in /that man in the famous book by Nabokov.
Lembro bem das imagens da versão antiga do clipe, numa sala de aula, numa referência ao passado de professor de Matemática de Sting, alternada com cenas dos três integrantes girando, filmados separadamente, já que, àquela altura, as brigas internas da banda inglesa já eram definitivas. Aliás, eles já estavam separados havia uns três anos, mas se reuniram para lançar uma coletânea, em 1986. E ganhar alguns trocados com as vendas do álbum, claro.
Pensei nisso hoje de manhã, ao ver na TV as imagens da chegada da banda ao Rio de Janeiro, onde eles farão um show amanhã à noite. Brincadeiras em frente às câmeras, falsas camaradagens, a inevitável declaração de que sentiram "saudadje" do Brasil; mas cada um seguiu para o hotel em um carro isolado, e não mais se falaram. Olhando para aquele Sting cinqüentão (mas com corpinho de uns 35...), aparentemente mais preocupado com ganhar mais alguns trocados com a reunião da banda, eu o acho, ou melhor, acho a mim mesma, naquela época, um bocado pateta, capaz de me apaixonar por tão pouco.
Por outro lado, não - condescendo.
.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

de perto ninguém é normal


Vai chorar, vai sofrer,
e você não merece...


Não que eu tenha mesmo assistido ontem a Closer - Perto Demais (Closer, 2004), dublado e com intervalos, na Globo. Nem sei se foi boa ou não a dublagem (uma dublagem ruim é o que muitas vezes me faz desistir de ver alguns filmes na TV). Eu não assistiria novamente ao ótimo filme de Mike Nichols mesmo no vídeo ou até no cinema - minhas lembranças dele ainda estão muito vivas, nem preciso me esforçar muito para lembrar seqüências inteiras. E, o pior, me lembrar mais vivamente ainda da sessão "a vida imita a arte" que houve em 2005, quando vi o filme num cinema do shopping, acompanhada por meu então noivo. Na sala havia também, entre outras pessoas, um casal razoavelmente conhecido nosso, cuja metade feminina estava, vim a saber depois, envolvida em um romance extra-conjugal com... meu noivo!
Tá, muita água já rolou por baixo da Pont-Neuf da minha vida sentimental, mas é impossível não lembrar e, mesmo que cada vez menos intensamente, deixar vir à tona um pouco da tristeza e do ressentimento de então.
Ainda mais por o filme tratar, justamente, de uma ciranda de traições amorosas, de casais que se relacionam de forma inconstante, numa demonstração tocante das impotências e incompetências sentimentais nossas de cada dia.
Talvez fosse mais leve e divertido conseguir ver o filme pensando apenas no talento de Mike Nichols e de seus atores (e na beleza destes!), ou até mesmo para lembrar que, sim, eu gostava tanto dessa música de Damien Rice, antes dela ser tocada ad nauseum e antes de tantas versões ainda mais lacrimosas que a original... Vê-lo como "just a movie" seria, talvez, uma mostra de superação, ou mesmo de indiferença.

Mas ainda é cedo, amor.
.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007


.
(tá, pode clicar no gatinho...)
.

a mulher que vivia morrendo


De delicadeza me construo.
Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.

Hilda Hilst.
.

imagem: Auto-Retrato com Macaco e Louro, de Frida Kahlo (1942).
.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

dúvida (viii)

como lidar com a própria ausência?
.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

-serão os seus gestos muito diferentes de atos de amor?


Era necessário, ou em todo o caso, parecia-me necessário. Cheguei mesmo a roubar dinheiro à minha família, para o dar ao Jacques Rivette, para o seu primeiro filme. Roubei para ver filmes e para fazer filmes.

Jean-Luc Godard.
.

j'ai peur d'être indiscrète


Sophia Loren e Jayne Mansfield, Beverly Hills, 1957.
.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

moral da história

- Ai de mim - disse o rato - o mundo inteiro vai ficando cada vez menor dia após dia. No começo era tão grande que eu tinha medo, eu corria e corria, e ficava contente ao ver paredes distantes à direita e à esquerda, mas essas paredes enormes se estreitaram tão depressa que já estou na última peça, e ali no canto está a ratoeira para a qual estou correndo.
- Você só precisa mudar de direção - disse o gato, e devorou-o.


Franz Kafka,
Uma Pequena Fábula.
.

da vida das marionetes (v)


Nicholas Ray dá instruções a Natalie Wood e James Dean, em Juventude Transviada (Rebel without a Cause, 1954).
.

o coração entornado, a cabeça perdida


Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

Carlos Drummond de Andrade,
Destruição.
.

imagem: O Impossível, escultura em bronze de Maria Martins, de 1944.
.