
Ontem à tarde tive que encarar a verdade: não dava mais para adiar o que precisava fazer. Por mais cansada que pudesse ficar depois, nem eu aguentava mais aquela bagunça que virara meu guarda-roupa; fui começar a arrumação.
Com as mudanças do corpo, as roupas estão praticamente divididas em duas categorias: as que posso vestir agora, mais de 10 Kg depois do início da gravidez, e as que não cabem mais ou, no máximo, me deixam parecendo que "o defunto era menor". Outro dia tentei vestir uma batinha que era até folgada, quando comprada, e vi parte da minha barriga aparecendo entre os botões, o que me fez imediatamente mandá-la de volta para o cabide de onde não deveria ter saído. Alguns vestidos têm me acompanhado, companheiros um pouco mais curtos que antes, mas valentes. As calças - prefiro não comentar; há muito já aderi aos modelos com elástico na cintura, bem longe do meu 34/36 habitual.
Tendo que separar e organizar tudo, não pude deixar de me perguntar: mas o que raios me faz manter tanta coisa que nem uso mais? E nem falo do que deixei só temporariamente, por causa da gravidez, falo do que não uso mais há anos, porque saiu de moda ou simplesmente porque não combina mais com meus gostos. Mas que eu mantenho ali, não me disfaço. Ilusão de que posso perder o passado se jogar aqueles casaquinhos que usei em outro lugar, em outro tempo? Ou tentativa de não reviver momentos ao ter que novamente encarar blusinhas usadas ainda na faculdade? Por que essas roupas continuam ali, ocupando espaços importantes, deixando outras peças - bem mais em uso agora - espremidas e amarrotadas?
Será que também tenho feito isso com as pessoas? Dou espaço para quem não tem mais protagonismo na minha vida, mesmo que seja um espaço meio esquecido, já quase mofado?
Mesmo com alguma dificuldade, consegui separar algumas coisas, afastar outras, decidir dar algumas delas. Aumentei meu campo de visão e meu espaço disponível para as novas e maiores roupas. A organização às vezes funciona de fora para dentro, e assim talvez algo internamente também se organize, quando fazemos essas faxinas.
Fui jantar e fiquei olhando para as pessoas e pensando em como elas agiriam com suas próprias arrumações. Alguns parecem que nunca arrumam nada; outros que não páram de arrumar, sem nunca vencer a bagunça; outros ainda parecem viver em dia com seu passado e nem passam pela confusão. Como se a (des)ordem do quarto, do guarda-roupa, espelhasse um pouco da narrativa de cada um de nós.
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