quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

até ficar com dó de mim


"Luan Santana é meu sucessor."
- Cauby Peixoto, aos 80 anos.

A declaração não deixa de ter certo sentido, se considerarmos apenas o aspecto da fama, da adoração das adolescentes fanáticas (Cauby inventou as "macacas de auditório"), do sucesso comercial. Mas há anos-luz de distância entre Cauby (mesmo hoje, uma figura um tanto caricata) e o astro sertanejo-pop - se considerarmos talento, voz, repertório.
O que me deixa apreensiva é que a gente sempre se esquece do pretérito imperfeito, e tende a achar o que havia antes sempre tão superior ao presente; muita coisa que em sua época era divertimento "popular", sem muito respeito, hoje parece tão bom que nos deixa com saudade e inveja do passado.
Será que haverá um tempo em que chegaremos a sentir saudades de Luan Santana? De Victor & Leo?
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

qualquer semelhança


As citações ao cinema italiano não foram embora com o fim de Passione, não.
No capítulo de hoje de Insensato Coração a bela e dolorosa cena da leitura da carta, de A Noite (La Notte, 1960), foi repetida, com os papéis invertidos, pelo casal em crise vivido por Antônio Fagundes e Natália do Valle.
Mera coincidência ou homenagem de Gilberto Braga?
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escolha sua legenda (i)

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

bendito sois vós


"Na companhia dos homens ele se sentia entediado, pouco à vontade, ficava calado e frio; mas, no meio das mulheres, sentia-se livre e sabia o que dizer e como se comportar. Era-lhe fácil até mesmo ficar calado na presença delas. Na sua aparência, no seu caráter, em todo o seu modo de ser havia algo sedutor, imperceptível, que predispunha favoravelmente as mulheres em relação a ele e as atraía.
"Sua farta experiência, na realidade uma experiência amarga, há muito lhe ensinara que toda aproximação, que no início traz uma agradável variedade à vida e que promete ser uma aventura leve e divertida, no caso de pessoas da alta sociedade, especialmente os moscovitas, indecisos e lentos na ação, fatalmente se transforma num problema terrivelemente complexo, e no final a situação se torna muito penosa. Porém, a cada novo encontro com uma mulher interessante era como essa experiência escapasse da memória; dava vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido."
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O trecho pertence ao conto A dama do cachorrinho, de Anton Tchékhov, e se refere ao seu personagem principal, Dmítri Dmítitch Gúrov, mas bem poderia ser sobre Bertrand Morane, aquele de quem se dizia "não tolerar a companhia de homens depois das seis horas da tarde."
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

little women

Vulture Exclusive: To Get This Role
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Na sua ótima crítica a Cisne Negro (Black Swan, 2010), na VEJA desta semana, Isabela Boscov chama a atenção para a participação de Barbara Hershey, que interpreta a mãe da personagem de Natalie Portman:
"(...) Pode-se especular, então, que ela foi escolhida também pela aparência: ela está para Nina como o retrato estava para Dorian Gray no célebre romance de Oscar Wilde - Nina preserva a beleza, e sua mãe espelha as deformidades psicológicas em que ela incorre na sua tentativa obsessiva de ser perfeita. É cruel. E é assustadoramente eloquente."
Seguindo o raciocínio, também Winona Ryder não estaria lá por acaso, ou apenas para se dar uma nova chance a uma atriz tão boa e tão à margem, nos últimos anos. Winona anos '80 não estava muito distante da Natalie dos '90, uma adolescente com atuações brilhantes em filmes de ótimos diretores, assim como sua carreira nos '90 se assemelha à de Natalie na década seguinte. Com 10 anos de diferença e uma formação familiar e vida pessoal aparentemente bem diversas - nunca se viu Natalie Portman associada a escândalos ou angústias, por exemplo - ambas se tornaram, por determinado período, "queridinhas" da crítica e dos fãs, buscaram quase sempre papéis fortes e originais e, a certa altura, emprestaram seu prestígio e empenho a personagens no limite da insanidade, ou levadas a ela por pressões externas (e internas) - Winona em Garota, Interrompida (Girl, Interrupted, 1999), Natalie no Cisne...
É interessante ver Natalie substituindo uma Winona que se aposenta, ainda jovem mas já sem equilíbrio emocional e sem tanto sucesso como antes, e principalmente sem o frescor da novidade. Tão interessante quanto triste.
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Por falar em Nina Sayers - ela bem que poderia ser uma parente distante de Rosemary (Mia Farrow) ou da manicure Carol Ledoux (Catherine Deneuve).
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domingo, 30 de janeiro de 2011

that is the question


Há alguns dias estava "convesando" no Facebook com o Renato Félix sobre coleções de DVDs, mais especificamente sobre a sensação de orgulho e alegria que me dá ao ver meus modestos filminhos - sensação que comparo à que Tio Patinhas tem ao mergulhar em suas moedas.
Várias vezes, em momentos de cansaço, tédio ou tristeza, o simples ato de limpá-los, vê-los, tentar alguma forma de organização menos aleatória que as que eu invento, já me deixa em paz.
Mas há dias bateu uma dúvida, reforçada agora por uma discussão no UOL: serão válidos só os DVDs oficiais ou também valerão os "outros"? Porque, por mais que se tente resistir - e eu tento bravamente, boa moça e caxias que sou - vem um Cisne Negro da vida e me faz cair em tentação.
É uma discussão bem fútil, com tanta coisa mais séria pra se preocupar, num assunto em que há tempos penso em me aprofundar mais - limites legais e éticos etc. - mas que me incomoda.
A exigência por produtos oficiais se tornou frescura (por exemplo, gostar de caixinhas, extras etc.)? A discrepância entre os preços dos DVDs oficiais e não-oficiais justifica a busca por estes? Vale a pena esperar meses para assistir a um filme que você está louca pra ver, quando há tantas formas de vê-los?
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

a vingança dos nerds


(...)
A crítica de Peter Travers na Rolling Stone comenta a imagem de Zuckerberg, milionário, sentado sozinho numa sala escura, “com o rosto iluminado pela luz azul do monitor, e fingindo que não está sozinho”. É uma maneira bitolada de ver as coisas. Muita gente pulando carnaval também finge que não está sozinha. Os nerds estão reinventando o mundo à sua imagem e semelhança. Dizer que um computador não faz companhia é tão injusto quanto dizer o mesmo de um livro ou de uma vitrola tocando Beethoven. O Facebook pode dar uma simples ilusão de sociabilidade, mas esta não é mais ilusória, para as pessoas “que não se encaixam”, do que a sociabilidade em carne-e-osso de uma festinha no campus, uma platéia de rock ou um churrasco na laje. O filme mostra que o mundo está cada vez mais formatado pelos nerds, após séculos de ditadura dos extrovertidos.

Bráulio Tavares,
sobre A Rede Social (The Social Network, 2010).
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Meu Deus, ele resumiu o que eu sentia quando me diziam que eu sempre seria sozinha, enquanto não me "adaptasse às diversões de todo mundo". De que me adiantaria essa adaptação? As pessoas que eu conhecesse dançando forró, por exemplo, ou estariam sendo enganadas - porque eu não sou a criatura mais festiva da face da terra - ou talvez não gostariam de, em vez de estar ali, estar em casa assistindo a um filme. Livros sempre me fizeram (e fazem) companhia, e das melhores, assim como filmes e a internet.
Obrigada, Bráulio.
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