
O encontro foi constrangedor.
Ela ficou de cabeça baixa
esperando ele se aproximar.
Ele não veio, faltou coragem,
e ela, então, se foi.
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Desde que vi, há alguns meses, 2046 - Segredos do Amor (2046, 2005), achava que seria difícil ver outro filme com imagens de beleza tão sufocante, de tanto impacto.
Mas hoje, novamente pelas mãos de Wong Kar Wai, me vi arrebatada pelas imagens, pela música, pelo clima de Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love, 2000), que traz a história anterior ao 2046, que o motiva.
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Eu fico imaginando como eles começaram.
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A sra. Chan (Maggie Cheung, maravilhosa em suas roupas belíssimas e sua seriedade) e o sr. Chow (Tony Leung, apaixonante) começam o filme se mudando para apartamentos vizinhos, onde ficarão a maior parte do tempo solitários, um tanto ignorados pelos respectivos cônjuges.
Os pares dos dois não são revelados, aparecem apenas em voz e em presença(ou ausência?) - apenas a sra. Chow ainda é vista, em algumas poucas cenas. Mas o peso deles estará sempre ali, a partir do momento em que os vizinhos descobrem que eles estão tendo um caso.
Aliás, é uma das cenas mais melancolicamente irônicas do filme: um dos indícios da traição é uma bolsa que a sra. Chow tem, igual à de Su Li-zhen (a sra. Chan). Su Li trabalha em um escritório, e costuma ajudar seu chefe a despistar a esposa, enquanto ele se encontra com a amante; em uma cena anterior, ele lhe pede que compre duas bolsas, uma para cada uma, e que "podem até ser da mesma, não fará diferença", ela lhe diz.
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Nós não seremos iguais a eles.
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O envolvimento, nunca explicitamente sexual, entre os dois traídos, inicia-se sem muita emoção, marcados por jogos em que um procura ser como imagina que seria o cônjuge do outro. Como se Wong Kar Wai dissesse : "Estão vendo? tudo é cinema, enfim!" Mas logo vêm o desejo, o amor, os boleros na voz de Nat King Cole (cantor favorito da mãe do cineasta). São muito interessantes os "ensaios" que o casal faz, de encontros e despedidas, em que acaba por se revelar toda a carga de sntimentos despertados. E aqui o título original é bem mais feliz que o clichê da versão brasileira: in the mood for love, "no clima para o amor".
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Eu só queria saber como eles começaram.
Agora já sei.
As emoções começam por acaso.
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O sr. Chow decide, a certa altura, mudar-se do apartamento vizinho ao da "cúmplice", para assim talvez terem mais liberdade, sem despertar suspeitas. É quando se muda para o apartamento 2046, que ficará sempre lembrado - a razão do título do filme seguinte.
O filme não tem um final feliz, os amantes não têm o destino que desejavam, mas não se fica triste ante a separação deles. É tudo tão belo, tão nostálgico, acaba-se achando bonita até a melancolia da desilusão amorosa.
Bonita como as roupas de seda de Maggie Cheung, como as cenas em que ela e Tony Leung cruzam nas escadas, lentamente, como os boleros que estão por todo o filme - e talvez não seja à toa a trilha ser tão latina, tão passional e romântica, em contraste com a rigidez contida dos costumes orientais.
Afinal, o que seria do amor e das desilusões amorosas sem as músicas românticas? O mesmo que o cinema sem filmes como os de Wong Kar Wai.
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Ele se lembra dos anos passados...
como se olhasse por uma janela embaçada.
O passado é uma coisa que ele vê,
mas não toca.
E tudo o que ele vê é borrado e indistinto.
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