sexta-feira, 31 de outubro de 2008

lili marlene


Um dos meus subgêneros favoritos é o de "filmes sobre a Segunda Guerra", o que me faz ver de Top Secret-Superconfidencial a Pearl Harbor (gosto demais do primeiro, não gosto nem um pouco do segundo).
Não daria, então, pra resistir a A Espiã ( Zwartboek, 2006), filme holandês de Paul Verhoeven, diretor que não me empolga, nem em suas produções hollywoodianas nem nas anteriores, em que dirigia Hutger Hauer (onde anda?) em filmes escandolosos, na década de '70. Mas aqui, nesse filme, gostei finalmente dele.
Há os momentos exagerados, as fugas meio MacGyver da heroína - Carice van Houten, bela e ótima no papel, uma certa vontade de chocar (mas hoje algo ainda choca?) com algumas cenas mais, hm, explícitas - só que bem colocadas no filme, ao contrário daquela coisa que era Showgirls, por exemplo... Mas há momentos luminosos e personagens inesperadamente atraentes, como o oficial nazista por quem a personagem principal se apaixona, Müntze (Sebastian Koch). Além de uma impressão de tensão permanente, que não sossega nem com a libertação da Holanda invadida pelos nazistas - aliás, o terror depois parece até mais cruel que antes. Não há heróis perfeitos na história, muito pelo contrário - o grande herói celebrado pelos holandeses é uma farsa - nem há ufanismos maniqueístas, e só por isso, por relativizar, já dá pra gostar do filme, mesmo com seu pessimismo todo.
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Um comentário:

Concertgebouw disse...

Verhoeven é um diretor talentoso e delirante.

Infelizmente, algumas vezes a capacidade criativa é como um sentimento não correspondido, assim como o delírio nem sempre abre as fronteiras da percepção.

A impressão que fica é que dirige seus filmes sob uma febre de 39 graus. Se observam neles resquícios de grandeza, indícios de competência, mas o olhar parece congestionado e o corpo dolorido, produzindo um desconforto involuntário no resultado final. Algo semelhante à experiência vivida por Nicholas Ray ao rodar nos pântanos da Flórida Jornada Tétrica (Wind Across the Everglades) ou a degradação de John Huston na África Equatorial filmando Raízes do Céu (Roots Of Heaven).

Existe uma compulsão sanguinolenta e erótica na sua estética. Membros são decepados explícita ou sutilmente, carnes são dilaceradas como num matadouro, corpos se amontoam e devoram igual num prostíbulo, em filmes diversos como Robocop, Tropas Estelares, Conquista Sangrenta ou Soldado de Laranja. Talvez Verhoeven tenha o visionarismo do Dr. Frankenstein combinado com a selvageria do Marquês de Sade, encarando seus filmes como uma Criatura a ser fabricada de partes ou obsessões: é preciso descontruí-los para remontá-los à sua imagem.

Quando faltam agulha e linha, suturas e esparadrapos, recebemos obras aberrantes e comatosas como Showgirls e Instinto Selvagem. Mas se a recuperação é boa descobrimos A Espiã, demonstrando que afinal de contas “sentimentos ilhados, mortos e amordaçados, voltam a incomodar”.