sábado, 8 de novembro de 2008

cidade dos cegos


Viveca, você não está só: eu também não li o livro de José Saramago, mas gostei, e muito, do filme de Fernando Meirelles.
Assisti na última quarta-feira e, desde então, já paquerei o livro na Cultura algumas vezes, mas estou resistindo ao impulso porque sei que estou ainda sob o impacto do filme, e talvez apenas comece e acabe deixando pra lá, assustada por aqueles parágrafos quilométricos e pelo fato de que vontade é assim mesmo, dá e passa rapidinho. Vou deixar passar uns dias, pra ler (ou não) o livro por ele mesmo, sem a tentação da comparação.
Então, sem pensar que é a adaptação do livro de Saramago, o que já dá certo peso - Ensaio sobre a Cegueira é um ótimo filme, muito bem dirigido e com uma atuação perfeita de Julianne Moore (mais uma!), além da música do Uakti e de algumas cenas memoráveis, que emocionam e fazem refletir sem nunca parecerem piegas ou excessivamente "filosóficas". Gostei especialmente da igreja com os santos vendados e da cena em que Julianne Moore, sozinha e quase no escuro total, se percebe tão vulnerável quanto os cegos, justo num momento em que precisaria mais de sua visão, ao ter que escolher alimentos em um depósito de supermercado. Só por deixar o espectador tão perplexo, tão pouco confortável, o filme já mereceria aplausos.
Falar em solidariedade nesses tempos cínicos parece antiquado, mas é impossível não pensar, quando termina o filme, em idéias como O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas, de Carlos Drummond - somos todos irmãos.
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4 comentários:

Alessandro disse...

Alana, a princípio, eu adorei o filme. Depois, por causa dos comentários lá no Depois Daquele Filme, eu comecei a pensar numa certa "estética da miséria humana" que é perfeita demais no filme, o que acabou tirando um pouco o valor, pra mim.

Mas seu blog, este sim, é impecável! Está de parabéns, viu? Virei fã!

Beijo pra ti!

Madame Natasha disse...

http://www.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY

Madame Natasha disse...

Não sei se você leu isso:

"Houve um tempo em que eu respondia que não queria ver a cara das minhas personagens quando me chegavam pedidos de adaptação de romances meus ao cinema. Digamos que eu era então uma espécie de radical da escrita: o que não passava pela palavra posta num papel simplesmente não existia. Fernando Meirelles foi uma das vítimas desta intransigência. Quando o Ensaio sobre a Cegueira foi publicado no Brasil, salvo erro em 1995, imediatamente me escreveu para manifestar o seu interesse em adaptá-lo. Teria sido o seu primeiro filme, antes de Cidade de Deus, antes de O Jardineiro Fiel, se não tivesse esbarrado com o muro da resistência do autor a conhecer os actores que iriam dar consistência e outra realidade às figuras desenhadas pela sua imaginação. Não me lembro do que sucedeu depois. Escrevi a Fernando expondo-lhe as minhas razões? Não lhe escrevi sequer, deixando que o silêncio respondesse por mim? Melhor do que eu, ele o saberá. Ao autor do livro só lhe resta pedir desculpa e agradecer a sua generosidade de espírito, uma generosidade que lhe permitiu aceitar a minha recusa sem a menor acrimónia. Tanto mais que, agora sim, já conheço a cara das minhas personagens. Será preciso dizer que gostei delas? Será preciso dizer que gostei, e muito, do filme? Nunca esquecerei a tremenda emoção que experimentei ao ver passar por trás de uma janela, em fila, as mulheres que vão pagar com os seus corpos a comida que lhes havia sido sonegada, a elas e aos seus homens. Essa imagem resume, para mim, todo o calvário da existência da mulher ao longo da História."

Concertgebouw disse...

A justiça é cega.

O pior cego é aquele que não quer ver.

Em terra de cego quem tem um olho é rei.

Se pudéssemos mesmo “ensaiar” a cegueira, além de dissertar sobre ela, com a mesma facilidade com que decoramos ditados populares... Teríamos um mundo em permanente escuridão, onde nada reluziria e portanto não haveria ouro. Reconstruiríamos os conceitos de feio e belo, talvez até fossem banidos em definitivo.

Redimensionaríamos as distâncias, as proporções, as formas e as perspectivas. Com o desenvolvimento dos outros quatro sentidos para compensar a perda da visão, o tato agarraria o abstrato, o olfato cheiraria os sentimentos, o paladar saborearia a fraternidade, a audição perceberia as batidas dos outros corações.

Seria naturalmente Um Ensaio Sobre Ser Humano.