
Há algum tempo meu pai duvidou e só depois de ver os créditos do Toma Lá Dá Cá acreditou no que eu dizia: sim, aquela senhora obesa e nada atraente que interpretava Dona Deise, masculinizada e caricata, era mesmo Norma Bengell, a bela atriz que seduziu brasileiros e europeus (como o belo italiano Gabriele Tinti, com quem foi casada) na década de '60.
Envelhecer bem é privilégio de poucas - Fernanda Montenegro, Sophia Loren, poucas mais - mas ver a decadência física de musas é sempre melancólico. O caso de Norma, a primeira atriz a aparecer nua no cinema brasileiro, cantora de Bossa Nova, diretora de filmes não tão bons, envolvida em polêmicas com recursos públicos, ex-namorada de Alain Delon ("ele me pediu em casamento, eu é que não aceitei"), tem me parecido mais triste que outros. Estou bem desinformada há meses, então não sei se ela tem estado doente, mas uma entrevista que vi ontem da atriz me chamou a atenção para sua fala algo lentificada, sua labilidade emocional, a impressão de impregnação que o uso de algumas medicações dá (repito: tudo suposição, não digo que ela esteja tomando nada, não sei de nada).
Achei extremamente triste ela responder sobre "como era quando você era estrela?" Por que perguntar assim? custava fingir um pouco e não lembrá-la o tempo todo que o passado teve seus momentos de brilho, mas eles ficaram lá, bem escondidos e quase esquecidos no passado? Ao lembrar uma peça que fizera em Paris, com a atriz francesa Maria Casarès, Norma chegou a chorar ao repetir uma frase sobre que fazia alusão a ser esquecida, e aí eu por pouco não mudei de canal.
Se tem uma situação que particularmente me entristece é de quem teve um futuro glorioso, os Tenembauns da vida real, que tinham tudo pra ascender mas não se tornaram tão memoráveis como parecia que seriam - ou, como Norma, chegaram a brilhar muito, mas o tempo arrefeceu seu brilho.
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