
E de repente ele viu sua mulher naquele vestido roxo da noite em que a conhecera, reviu a expressão do rosto dela quando os seus olhares se cruzaram pela primeira vez - aquela expressão que o fizera se apaixonar imediatamente. À época, ele pensara que a expressão se devia ao vestido, à insegurança de usar um vestido tão sofisticado, num clube sofisticado. Mas não, não fora bem isso. Era a expressão de terror, um terror mal reprimido, que nunca a abandonava. Era o pavor do mundo exterior - de trens, de bombas, de bondes chocalhantes, de britadeiras, de avenidas mergulhadas nas sombras, dos russos, de submarinos e de bares cheios de homens raivosos, de mares povoados de tubarões, de asiáticos com um livro numa das mãos e um rifle na outra.
Dolores tinha medo de tudo isso e de muito mais. O que mais a aterrorizava, porém, estava dentro dela, uma espécie de inseto dotado de uma existência sobrenatural, que sempre vivera no seu cérebro, brincando com ele, arrancando-lhe os cabos ao seu bel-prazer.
Dennis Lehane,
Paciente 67.
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2 comentários:
Dolores morrera havia dois anos, mas revivia à noite, nos sonhos dele. E às vezes, no alvorecer, Teddy passava minutos a fio pensando que ela estava na cozinha ou tomando café na sacada do apartamento em Buttonwood. Era uma cruel ilusão armada por sua mente, claro, mas havia muito tempo que Teddy se conformara com a lógica desse acontecimento — afinal de contas, acordar era como nascer. A gente emerge sem história. Depois, entre um piscar de olhos e um bocejo, reorganiza o passado, dispondo os fragmentos em ordem cronológica, reunindo forças para enfrentar o presente.
(...)
Teddy ainda conseguia fazer isso — fechar os olhos e vê-la. Mas ultimamente algumas manchas brancas embaçavam partes da imagem — o lóbulo de uma orelha, os cílios, os contornos da cabeleira. Ainda não dava para obscurecer a imagem por completo, mas Teddy temia que o tempo a fosse tomando dele, que triturasse pouco a pouco as imagens em sua mente, terminando por aniquilar todas. “Sinto falta de você”, ele disse e atravessou a despensa, dirigindo-se para a coberta da proa.
por isso que eu digo: se toda família tem um doido,devemos pedir o PAH, programa de aceleração dos hospícios, e com muro alto .já pensou se essa paciente me acha?!?!
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