sábado, 21 de julho de 2007

allonsanfan


Julho costuma ser um mês meio árido - não, árido não! o problema é que talvez seja açucarado demais! - para quem quer ir ao cinema, ao menos aqui, onde moro. Com poucas salas de exibição (que nem cinema tem mais, tem só as salas do shopping ...) e a programação toda voltada para as férias escolares do meio do ano, haja desenhos e filmes infantis!
Mas, mesmo desejando ver mais filmes "adultos", não deixam de ser divertidas algumas das produções "para crianças", e acabo vendo quase todas, se tiver tempo.
Bem, esta semana vi Ratatouille - Ra.ta.tui (Ratatouille, 2007), de Brian Bird, o mais novo desenho da Disney, e gostei! Não tanto quanto de outros antes, mas me diverti, ri e me encantei com algumas cenas, como todas as que mostram "externas" de Paris, ou aquelas em que aparece o crítico de gastronomia, o ferrenho Anton Ego. Pena que só vi dublado em Português, perdendo assim a voz original do grande Peter O'Toole (deve estar ótimo!).
Algumas coisas já apareceram muito em outros desenhos infantis - a defesa da diferença, e da tolerância com ela, a busca da auto-aceitação - mas é um cenário pouco utilizado nos filme do gênero - a cozinha, e logo a de um restaurante francês e chique! ainda mais infestada por ratos! - e não há exatamente personagens fofos e perfeitos, o que dá um charme gauche a mais.
E, um brinde, os desenhos nos créditos finais parecem antiguinhos, daqueles meio irregulares, pré-computação gráfica, belos belos!
Saí do cinema sonhando com a ratatouille preparada para surpreender - e deliciar - o crítico...
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sexta-feira, 20 de julho de 2007

a man out of nowhere


Sou um que travou conhecimento com a noite.
Eu fui passear na chuva - e na chuva voltei.
Deixei longe a luz mais distante da cidade.
Passei pelo vigia em sua ronda
E para não explicar baixei os olhos.

Fiquei imóvel sem o barulho dos meus passos
Quando de longe um grito interrompido
Veio, por sobre as casas, de outra rua,

Mas não era chamado ou despedida;
E mais longe ainda, numa altura incrível,
Contra o céu, havia um relógio iluminando

Proclamando que a hora não era certa nem errada.
Fui um que travou conhecimento com a noite.

Robert Frost,
Travar conhecimento com a noite.
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imagem: Autoretrato, de Francis Bacon.
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quinta-feira, 19 de julho de 2007

la trahison des images


Datações XIII. Substantivo feminino.

1. ato ou efeito de mentir, engano, falsidade, fraude.
2. há bito de mentir.
3. afirmação contrária à verdade, a fim de induzir a erro.
4. elaborada à base de mentiras.
5. pensamento, opinião ou juízo falso.
6. derivação: por extensão de sentido: o que é enganador, que ilude, que se aproxima da verdade ou que é real apenas na aparência.
7. ilusão, fábula, ficção.

mentira,
verbete no Dicionário Houaiss.
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imagem: L'homme au chapeau melon, de René Magritte.
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quarta-feira, 18 de julho de 2007

em caso de dor, ponha gelo


Ando novamente lendo muito meu amado Caio Fernando Abreu, agora o livro que reúne parte de sua correspondência - Cartas, organizado por Italo Moriconi. Como várias vezes em leituras anteriores, muitas vezes me reconheço, vejo expostos muitos dos meus sentimentos, angústias, carências, mas claro que de uma forma infinitamente mais bela do que eu jamais conseguiria.
Como ele estaria hoje, se vivo?
Pensei nisso porque algo que chama a atenção ( a minha, ao menos) na ficção ou nas cartas de Caio F. é a sua falta de melindres em expor suas dúvidas e medos, sua solidão e sua necessidade de amor, suas dores. E, da mesmo forma que esse desespero era moda em 73, como cantava o cearense Belchior, hoje, em 2007, todo mundo sabe que dor é algo completamente fora de moda, um sentimento que não combina com o astral que todos esperam de nós. Usar preto, hoje? Só se for para festas, coquetéis. Esconda sua dor, dance, faça ginástica, beba, se drogue, beije muito & muitos, busque a fama, sorria-você-está-sendo-filmado, transforme sua imagem, fique rico.
E, por outro lado, num outro comportamento no mínimo estranho de hoje, parece que há algo de fashion no reino de doenças sérias e torturantes como depressão, síndrome do pânico, TOC...
Já ouvi mais de uma vez, em conversas em locais públicos, várias pessoas comentarem coisas como: "Ah, eu já tive síndrome do pânico; é um horror!", e a resposta: "Eu também! Imagina que eu não conseguia nem entrar num shopping!" Já vi também, e é bem freqüente, celebridades irem à Ilha de Caras para sofrer pelo término de alguma relação, ou até pela perda de alguém querido. Um sofrimento que deve ser brevíssimo, porque logo lá estão elas em outras manchetes, fotografando em festas e "conhecendo melhor" outras celebridades de igual profundidade.
Pode parecer - e ser! - mais um sinal da minha chatice, mas acho esses comportamentos ofensivos, uma falta de repeito com quem relamente teve sua vida invadida por problemas tão delicados e dolorosos.
A mesma falta de repeito que ocorre quando alguém me diz: "Não fica assim deprê!" Ora, como posso resolver minhas dores, fechar meus arquivos, se eles não forem assumidos, vividos (& revividos), sentidos e esgotados, até que tenham seu impacto reduzido ao mínimo?
O que há de mal em respeitar a dor alheia, num mundo onde ela está presente em cada esquina, mas em que preferimos não enxergá-la, e deviar o olhar para a vitrine mais próxima?
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imagem: Emily Watson, desconcertante como Bess, uma mulher com uma dor, em Ondas do Destino(Breaking the Waves, 1996).
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terça-feira, 17 de julho de 2007

red roses for a blue lady


Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-se, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho...

Carlos Drummond de Andrade,
Consolo no praia.
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imagem: Sorrow, gravura de Vincent van Gogh.
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sem ana, blues (i)


(...)

Lá pelas tantas Ana C. liga e diz que tá vindo. Pergunto a GM como está realmente Ana C. Climas, caras. GM diz que vai sair para pegar o banco aberto e me deixar só esperando Ana C.
Parágrafo novo. Ao fundo, acordes iniciais do Bolero de Ravel.Fumo horrores. Vejo o sovaco direito do Cristo pela janela. Batidas na porta (não tem campainha, claro). Débeis. Abro.
Ana C. MAL. Põe mal nisso. Magra, consumida, trêmula, chorosa. Não sei contar direito. Nunca vi ninguém tão frágil. Com toda minha gripe, eu era um poço de saúde ao lado dela. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). E lúcida. Parou de ir trabalhar, vai pedir uma licença. [...] O mais estranho: o caso de amor continua, e ótimo. Ana C. está sofrendo de medo de amor. Não sabe bem. Medo de amor? Culpa do prazer? Não escreveu mais nada depois do Contagem regressiva, não consegue dormir, as mãos tremem, são incapazes de datilografar ou segurar uma caneta. Está com Júpiter e Urano em oposição ao Sol/Mercúrio/ Vênus radicais, justifica, perguntaram? Deixei-a numa sessão de bioenergética, ia a um acupuntor hoje. Me convidou para irmos, com a namorada e maybe GM, para o sítio dela em Petrópolis, hoje à noite ou amanhã. Parece a Isabelle Adjani em Nosferatu, depois que começa a ser sugada. Linda, naturalmente, mas troppo morbo. Conversando com GM, somos mais por uma terapia bageense, tipo te fresqueia, prenda, come uma costela gorda, toma uns mates, dança uma chula, uma tirana do lenço, te joga nua no açude na hora da sesta. Porque tá uma crise sensível demais, dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreher pra rebater. Something like that.
E subi o morro mal, pesado. Horas pra voltar.
(...)
Pausa. Telefone. Ana C. Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaallllllllllllll. A voz, um fio. Está a mesma. A bioenergética não adiantou. Se continuo a fim do sítio, nos encontraríamos às 17h na casa de GM. Continuo (com medo). Vou. Nos encontramos. Ana C. está excessivamente débil, excessivamente yin, autocomplacente na própria fragilidade. Continuo a ser pela terapia Fala Grosso Veado. S'as que descobri que a fraqueza me deixa impaciente, deve ser Marte em I.
Paro pra olhar a paisagem, as palmeiras. M. me disse que, na natureza, tudo que tem pontas é de Oxóssi. Descobri que a maioria das pessoas que conheço me desvitalizam. E eu não vou permitir mais, nunca mais. Você é uma exceção. Maria Clara, o Jorge, outra. Pedro Paulo, outra. Me diz uma côsa, Vênus conjunção Lua não bota muita mulher na roda? Tava a fim não.
O céu tá cinza e, ainda assim, vejo o horizonte. Montanhas. O mundo é maior daqui do que da rua Camiranga. Vou ter que amamentar muito Ana C. Lua e Vênus em Câncer não dão uma capacidade fantástica de alimentar bebês? E dê-lhe Malzebier.
(...)

Caio Fernando Abreu,
em carta para sua amiga Jacqueline Cantore,
em 20.05.1983.
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imagem: Ana Cristina Cesar, a Ana C. de quem ele fala, que se suicidaria em 29 de novembro de 1983.
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sábado, 14 de julho de 2007

só dure o tempo que mereça


Tenho mil segredos para te contar
Abri todas as conchas do mar
Dentro delas achei pérolas
Com algumas te fiz um colar

Um colar de pérolas
Lisas e bem redondas
Lindas bolas claras
Contas de perder a conta

Em todos os dedos você vai usar
Anéis que eu mandei buscar
Uns no fim do mundo três gemas em Minas
Outros dez na Conchinchina meu amor
É teu meu tesouro
Ouro puro e lírios

Meu amor eu juro
Meu palácio com antúrios
Peço pense bem devagar essa oferenda
Se recusas ou aceitas
Essa oferenda
Peço pense devagar
Nessa oferenda
Só não tens a vida toda
Pra pensar

Itamar Assumpção,
Oferenda.
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imagem: Claudia Cardinale, a mais bela das italianas, em A Moça com a Valise (La Ragazza con la Valigia, 1961).
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