
Monroe? Uma relaxada, na verdade, uma divindade desleixada, no sentido em que uma banana split ou cherry jubilee são divinos desleixos.
Seus lábios úmidos, o exagero como loura, as tiras escorregadias do sutiã, o debater rítmico da massa inquieta a lutar por espaço dentro de um abrigo insuficiente - tais são os emblemas, as qualidades caricaturais que, pode-se supor, a tornaram imeditamente reconhecível no mundo inteiro. Contudo, no que consta ser a vida real, Monroe não é facilmente identificável. Ela circula pelas ruas de Nova York sem ser molestada por olhares ávidos, acena para táxis que não param, toma suco de laranja no Nedick's da esquina servido por um atendente que não percebe ser a freguesa a razão de suas ambições mais ambiciosas: na verdade, com freqüência a pessoa tem de ser avisada que Monroe é Monroe, pois ela parece à primeira vista apenas mais um espécime da gueixa norte-americana, a garota conquistada pelo cartão de crédito, uma das beldades de cabaré cujas carreiras progridem do cabelo pintado aos doze a um ou três maridos confiscados aos vinte.
No entanto, por mais estereotipados que sejam certos aspectos de Monroe, ela não representa genuinamente o gênero, pois falta-lhe a dureza indispensável; ademais, ela é capaz de uma concentração sensível, sempre o segredo capaz de fazer qualquer talento avançar, o que acontece em seu caso: o personagem que incorpora, uma imagem do abandono plena de ternura insolente, é coerente e convincentemente charmosa: dá para entender, pois há pouca diferença entre sua imagem na tela e a impressão que ela transmite pessoalmente - o apelo das duas personalidades deriva da mesma circunstância: que ela é órfã de fato e de espírito; ela é estigmatizada e iluminada pelos traços do pensamento órfão: embora não confie em ninguém, não muito, ela se esforça feito um estivador para agradar a todos, ela quer fazer de cada um de nós seu protetor afetuoso, e conseqüentemente nós, a platéia, e seus conhecidos, ficamos presumidos, compassivos e excitados. A profundidade de sua ansiedade (quem chega sempre mais de uma hora atrasado para seus compromissos é contido por insegurança e angst, não vaidade; é angst também a tensão decorrente da necessidade contínua de agradar, que também causa as freqüentes dores de garganta, as unhas roídas, as palmas úmidas e os ataques de riso à japonesa) induz uma simpatia melosa que o comportamento exuberante nada faz para dissipar: o que poderia ser mais potente, ilusório, irresistível do que uma pessoa esfuziante de quem podemos e devemos sentir pena; em tal situação os participantes podem comer o bolo e levá-lo.
Ouvimos repetidamente que Monroe é uma "instituição", um "símbolo". Até o onipresente marido, o teatrólogo Arthur Miller, escreveu um artigo para nos informar a esse respeito. Contudo, as instituições tendem a ser sombrias, e aos símbolos falta sangue: seria um dia horrível se uma moça tão adorável e animada aceitasse seriamente uma prisão verbal tão sufocante.
Truman Capote,
sobre Marilyn.
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