quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

bibliomania (x)


Jean-Pierre Léaud segundo Jean-Luc Godard, em A Chinesa (La Chinoise, 1967).
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a construção do personagem


(...)Quando esbocei [O Jogo da] Amarelinha e imaginava o personagem central, tinha a tendência de cair naquilo que dizíamos do Thomas Mann de A Montanha Mágica ou do Doutor Fausto: queria criar personagens superintelectuais que especulassem com muita inteligência sobre certos problemas metafísicos.
Decidi então seguir o caminho inverso, construir um personagem assimilável ao homem da rua, um homem médio que tivesse a sede do absoluto. Imaginava um pintor, um escritor, mas eles acabavam não me convencendo. Naquele momento, eu acabara de descobrir o verdadeiro Charlie Parker, cujos primeiros discos de 78 rotações havia ouvido na Argentina.
Naquela época, eu era odiado pelos aficionados do jazz tradicional porque gostava muito de Charlie Parker. Quando deixei a Argentina e vm para Paris, em 1951, sabia pouco ou nada sobre ele.
Um dia, lendo uma edição da revista francesa Jazz Hot, soube da sua morte. Li sua biografia e encontrei um homem angustiado ao longo de toda a vida. Essa angústia não era provocada apenas por problemas materiais - o da droga, por exemplo -, mas por uma coisa que eu, de alguma maneira, havia sentido em sua música: o desejo de romper as barreiras como se procurasse uma outra coisa, como se quisesse passar para o "outro lado". E então disse a mim mesmo: "Este é o meu personagem."
Não podia usar o nome: não tinha direito. Dei apenas uma piscadela aos leitores na dedicatória. Mudei o seu nome, mas uma boa parte dos episódios vividos por Johnny Carter ocorreu de fato com Charlie Parker: a história do Café de Flore, quando se ajoelha diante da mesa. Ou o fato de ter incendiado o hotel onde vivia, embora isso tenha acontecido em Nova York e não em Paris.
Peguei portanto os dados biográficos e situei-os em Paris, porque a conhecia melhor do que Nova York e consegui fazer o meu relato caminhar.
(...)
Ali [no conto "O perseguidor"] também está presente, de uma maneira muito concreta, a minha nostalgia da música de jazz. Como eu dizia, se há alguma coisa que eu teria gostado de fazer era ser um músico suficientemente competente para dominar a técnica de um instrumento de jazz e poder improvisar como um Charlie Parker.


Julio Cortázar,
sobre "O perseguidor".
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

(a rubens gerchman)


para ler ao som de Fernanda Takai:

ou de Nara Leão:
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Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss
Linda, feia
Lindonéia desaparecida

Despedaçados
Atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Oh, meu amor
A solidão vai me matar de dor

Lindonéia, cor parda
Fruta na feira
Lindonéia solteira
Lindonéia, domingo
Segunda-feira

Lindonéia desaparecida
Na igreja, no andor
Lindonéia desaparecida
Na preguiça, no progresso
Lindonéia desaparecida
Nas paradas de sucesso
Ah, meu amor
A solidão vai me matar de dor

No avesso do espelho
Mas desaparecida
Ela aparece na fotografia
Do outro lado da vida
Desaparecidos, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando

Oh, meu amor
A solidão vai me matar de dor
Vai me matar
Vai me matar de dor


Lindonéia,
Caetano Veloso,
Gilberto Gil.
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imagem: Lindonéia, a Gioconda dos Subúrbios.
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you can dance


Existe algo de errado num mundo em que as pessoas não saem cantando e dançando na rua, e se muitas pessoas não gostam de musicais é porque sentem que esses filmes os criticam de uma forma mais violenta e triste que qualquer outra forma de arte. Outras formas de arte ficam nos acusando de sermos burgueses, alienados, meio esquecidos, vesgos, barrigudinhos, com o pinto torto para a direita – todas acusações ridículas. Não, é pior. Somos aqueles que são incapazes de improvisar uma música de Gershwin quando compramos uma maçã de uma velhinha dançante, numa banca de frutas colorida como um set de Vincent Minelli. Essa falha na natureza humana só será redimida no céu. Quando se diz que os anjos cantam, é isso que se quer dizer – que eles cantam. Os retratos mais realistas – de um realismo de cinema italiano do pós-guerra, mesmo – da vida no céu são filmes como Um Americano em Paris e A Roda da Fortuna - que são uma espécie de descrição literal de como vivem os santos depois dos martírios todos. Depois que as fogueiras esfriaram e os leões fizeram suas digestões, os mártires subiram para um céu que se parece com um set de Paris da MGM, e estão cantando até hoje, com George e Ira Gershwin e Cole Porter tentando anotar a letra em pedacinhos de papel e nas mangas das camisas, mas sendo impossibilitados pelo fato de que estão eles mesmos dançando como loucos. Escuta, escuta: Deus é ele inteiro um número de dança.


Alexandre Soares Silva,
na BRAVO!
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

jokerman dance to the nightingale tune


Estranho poder da morte: definitiva e silenciosa, ela afeta as imagens e as falas, que ganham novos significados ao serem analisadas sob o seu peso.
Menos de uma semana depois da morte de Heath Ledger (<<), e até mesmo nos dias mais próximos ao fato tão triste, já começavam as interpretações & elucubrações relacionando sua morte à atuação dele no novo filme de Batman. As imagens (belas, estranhamente belas) do ator em sua versão Coringa (ou Curinga?! eu nunca sei...), assim como acontecerá, certamente, com as suas falas, tornaram-se alvo de teorias mais ou menos interessantes sobre a influência do papel do vilão sobre a personalidade do ator (descrito no Fantástico de ontem como tendo "problemas emocionais", como se houvesse alguém que nunca os tenha tido).
E, claro, alvo de outras tantas dúvidas. Como: o que será que Jack Nicholson queria dizer com "Eu avisei a ele." ?
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bibliomania (ix)


barbara hershey e michael caine lêem e.e. cummings, em hannah e suas irmãs (hannah and her sisters, 1986), um dos melhores filmes de woody allen.
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then he's the hero of the day


Sacrifiquei mais uma vez meu já tão deficitário sono, mas valeu a pena esperar para ver os premiados pelo Screen Actors Guild, ontem, na TNT.
Se não valesse apenas para ficar mais informada, valeria por poder ver Daniel Day-Lewis receber mais um prêmio pela atuação em Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007), de Paul Thomas Anderson. Escolhido como Melhor Ator do ano, Daniel dedicou seu prêmio, emocionado, a Heath Ledger, declarando sua tristeza com a morte do ator australiano, que não conhecia pessoalmente mas admirara em filmes como O Patriota (The Patriot, 2000) ou O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005). Reconhecidamente um dos mais íntegros atores atuais, capaz de preferir se tornar sapateiro na Itália a fazer filmes que não o satisfaçam, escolhendo seus (raros) papéis com (mais raros ainda) rigor e inteligência, é impossível não admirar a sinceridade e a sensibilidade do ator irlandês ao fazer um discurso entre lágrimas, como fez. Onde outros fariam parecer haver um certo sentimentalismo oportunista, DDL mostrou emoção e generosidade, numa cerimônia que, no geral, foi meio sem graça, mesmo que aparentemente justa nas suas escolhas.

Como não admirá-lo ainda mais?
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outros momentos que valeram o sono perdido:

* Javier Bardem (>suspiros<), já livre do corte de cabelo tenebroso do filme dos irmãos Coen, também premiado mais uma vez - como Melhor Ator Coadjuvante. E, claro, os impagáveis comentários de Rubens Ewald Filho sobre o tal cabelinho.
* Julie Christie, linda e serena aos 66 anos, recebendo o prêmio de Melhor Atriz por Longe Dela (Away from Her, 2007).
* Cate Blanchett e Vanessa Redgrave, perfeitas sempre, mesmo quando são indicadas e não vencem.
* Angelina Jolie & Brad Pitt (apesar do cabelo estranho dele). Sai, inveja!
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