quarta-feira, 30 de abril de 2008

ordinary people


Talvez por serem muitas vezes mais freqüentes as sessões de cinema solitárias do que com uma ou mais pessoas, nem sempre eu consigo pensar objetivamente sobre um filme logo que acabo de vê-lo. Fica então muitas vezes inútil a pergunta - "e aí, gostou?"- porque muitos dos filmes de que mais gostei não me deram uma certeza tão imediata da minha real impressão. Os filmes que mais me interessam são aqueles que ficam comigo; gosto de terminar de ver um filme e ficar ainda pensando nele, lembrando as seqüências e os diálogos, tentando entender o que realmente ele me disse.
O último que me acompanhou, mesmo já encerrado, foi Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited, 2007), o mais recente de Wes Anderson, diretor que se tornou especialmente interessante, para mim, depois que me deslumbrei com seu Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001).
De início nem gostei do que ia vendo - aquele curta que antecede a trama principal, como uma espécie de introdução, não me agradou muito, apesar dos bons atores (ok, eu definitivamente não aprovei o bigodão de Jason Schwartzman). Mas uma sensação de estranhamento diante daquele trem indiano coloridíssimo e dos três irmãos tão diferentes (cadê Luke Wilson?) mas que, à medida que a história avança, acabam por ficar tão parecidos, cada um com sua esquisitice própria, aos poucos deu lugar a curiosidade, identificação e empatia. Pode até haver muitos dos elementos já presentes (e melhor desenvolvidos) nos Tenenbaums, como a família disfuncional que se ressente da ausência dos pais, os personagens "estranhos" mas cheios de humanidade, a atmosfera artificial e atemporal, as músicas nostálgicas (Kinks; Rolling Stones em uma cena definitiva; Ravi Shankar, claro), mas a fórmula não está ainda desgastada, e Wes Anderson é sem dúvida um dos mais talentosos cineastas dos "novos" americanos.
E, sobretudo, o filme deu forma a uma dúvida que não saiu da minha cabeça, e que aparece numa pergunta de Jack (Jason Schwartzman): "Eu me pergunto se nós três seríamos amigos na vida real. Não como irmãos, mas como pessoas. "
.

domingo, 27 de abril de 2008

ouro de tolo


Teresa, se algum sujeito bancar o
sentimental em cima de você
e te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA

Manuel Bandeira.
.

sábado, 26 de abril de 2008

...e, por falar em reprises...

Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.

Acorrentados,
de Paulo Mendes Campos.
(ou: um dos textos mais repetidos pelos blogs da vida).
.

préparez vos mouchoirs

Sábado passado eu revi Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1989), porque me deu saudade da trilha de Ennio Morricone e meu CD sumiu da caixa (!).
Talvez pelo ânimo previamente ranzinza - com a perda do disco - pude perceber algumas coisas que não me chamaram tanto a atenção antes, outras vezes em que vi o filme de Giuseppe Tornatore:

* é o diretor que aparece, como projecionista, na cena em que Jacques Perrin vê a montagem com os "beijos cortados" , num dos momentos mais emocionantes do filme?
* é impossível não chorar ao assistir ao filme.
* não caiu bem aquele diálogo entre Salvatore adulto (Perrin) e Spaccafico(Enzo Cannavale), em que este conta que vendeu o prédio do cinema para lá ser construído um estacionamento. O discurso de que a TV, o vídeo-cassete, o progresso etc. mataram o cinema não precisava ser tão explícito. Comova-se, espectador, comova-se.
* um erro cronológico: Alfredo (Philippe Noiret) e Toto adolescente (Marco Leonardi) conversam e o projecionista (que é também maníaco do trechinho) cita uma frase de John Wayne em Rastros de Ódio (The Searchers), de 1956. Logo antes, havia sido exibido no cinema E Deus Criou a Mulher (Et Dieu... Créa la Femme), também de '56, com Brigitte Bardot. Ok, mas a cena seguinte mostra um calendário em que se vê: 1954!
* a trilha é linda, sempre, mas também é "comova-se, espectador, comova-se".
.

sasseva sá odut


Procurando ilustrações para os slides de uma aula sobre transtornos mentais, recorri, como sempre, a René Magritte, para mim o mais interessante e perturbador dos surrealistas. Um tanto óbvio ou não, minha-mãe-mandou-escolher-este-daqui: La Reproduction Interdite, de 1937, que está logo acima deste texto, ok?
Desde quinta à noite, então, que foi quando preparava a tal aula, não paro de pensar no quadro. Mas não no homem reproduzido ao avesso, não no espelho; penso no único outro objeto lá: o livro. Reproduzido corretamente no espelho, mas capaz, talvez, de provocar a reprodução inversa, o não reconhecimento do homem que o leu.
Que raio de livro seria esse?
E que livro teria essa força estranha, de ser capaz de virar o espelho ao contrário?
Para mim: O Deserto dos Tártaros - uma vida toda do que poderia ter sido.
.

Ah:
o tal livro no quadro é, na pintura de Magritte, O Relato de Arthur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe.
Afe.
.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

pour ne pas vivre seul


Pergunta no site da revista GLOSS (vamos manter o clima cult deste blog, plis):

- Você precisa da aprovação dos outros?

Sem muita resistência a testes "científicos", corri pra responder às questões com a maior sinceridade possível.
O resultado:

* Resposta: 6 pontos ou menos -

" Louca para agradar.

" Você se preocupa tanto com o que os outros pensam a seu respeito que nunca leva em conta as próprias opiniões. Em vez de tomar decisões baseada no que precisa ou quer, passa a vida tentando evitar julgamentos desfavoráveis. Só que tal comportamento nem sempre dá certo. Todo mundo é criticado e precisa aprender a diferença entre o que dizem os críticos e quem você é. Primeiro passo: pare de ver segundas intenções nos comentários das pessoas. Se seu namorado disser que suas calças parecem apertadas, não imagine logo que acha que está gorda e não quer mais saber de você. Entenda: o problema é com as calças, só isso. Também precisa dar o peso justo ao que lhe dizem. Se a chefe aponta um erro que cometeu, é um fato isolado, não significa que você seja uma incompetente. Procure ainda separar as opiniões importantes dos palpites infelizes. As das pessoas mais íntimas são as que contam; as do restante (tipo colegas de trabalho que mal a conhecem) muitas vezes se baseiam em impressões que não têm a ver com a sua essência — logo, não são problema seu e não há por que se preocupar. " *

.

Até tu, revista ?!
.

quino (vi)

.