
Talvez por serem muitas vezes mais freqüentes as sessões de cinema solitárias do que com uma ou mais pessoas, nem sempre eu consigo pensar objetivamente sobre um filme logo que acabo de vê-lo. Fica então muitas vezes inútil a pergunta - "e aí, gostou?"- porque muitos dos filmes de que mais gostei não me deram uma certeza tão imediata da minha real impressão. Os filmes que mais me interessam são aqueles que ficam comigo; gosto de terminar de ver um filme e ficar ainda pensando nele, lembrando as seqüências e os diálogos, tentando entender o que realmente ele me disse.
O último que me acompanhou, mesmo já encerrado, foi Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited, 2007), o mais recente de Wes Anderson, diretor que se tornou especialmente interessante, para mim, depois que me deslumbrei com seu Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001).
De início nem gostei do que ia vendo - aquele curta que antecede a trama principal, como uma espécie de introdução, não me agradou muito, apesar dos bons atores (ok, eu definitivamente não aprovei o bigodão de Jason Schwartzman). Mas uma sensação de estranhamento diante daquele trem indiano coloridíssimo e dos três irmãos tão diferentes (cadê Luke Wilson?) mas que, à medida que a história avança, acabam por ficar tão parecidos, cada um com sua esquisitice própria, aos poucos deu lugar a curiosidade, identificação e empatia. Pode até haver muitos dos elementos já presentes (e melhor desenvolvidos) nos Tenenbaums, como a família disfuncional que se ressente da ausência dos pais, os personagens "estranhos" mas cheios de humanidade, a atmosfera artificial e atemporal, as músicas nostálgicas (Kinks; Rolling Stones em uma cena definitiva; Ravi Shankar, claro), mas a fórmula não está ainda desgastada, e Wes Anderson é sem dúvida um dos mais talentosos cineastas dos "novos" americanos.
E, sobretudo, o filme deu forma a uma dúvida que não saiu da minha cabeça, e que aparece numa pergunta de Jack (Jason Schwartzman): "Eu me pergunto se nós três seríamos amigos na vida real. Não como irmãos, mas como pessoas. "
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