segunda-feira, 30 de março de 2009

nem belo nem maldito

A desconfiança surgiu já quando vi o filme e não achei muitas semelhanças entre o que li de F. Scott Fitzgerald - não que tenha sido muito, claro, mas gostei tanto do que li que já tomei meus "ares de proprietária" - e o "espírito" de O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher.
Provavelmente graças ao sucesso do filme, apareceram relançamentos de coletâneas de contos do autor americano incluindo o conto original homônimo, e há alguns dias pude tirar a dúvida: não, Scott Fitzgerald, o pessimista e lírico americano que deve ter sido um dos maiores do século XX, não escreveu aquele pré- Forrest Gump!
Seu Benjamin Button é bem diferente do que na tela é vivido por Brad Pitt. Nada de muito altruísmo ou valorização da amizade (ou mesmo do amor eterno por sua Daisy, que no livro se chama Hildegarde e é abandonada tão logo a diferença aparente entre suas idades fica mais favorável a ele); BB versão FSF é um homem sarcástico desde o nascimento, que não é abandonado pelo pai para ser criado em um asilo, não faz nenhum grande amigo entre os colegas da Marinha, não tem uma filha que depois se emocionará com sua nada comum história de vida - ele tem um filho com Hildegarde, mas que está longe de ter uma relação mais carinhosa com seu pai-criança, a quem pede, a certa altura, para ser chamado de "tio"...
Não há nenhuma intenção mais evidente de contar uma história edificante; trata-se de uma "surpreendente história", como se anuncia já no primeiro parágrafo, mas nada mais exemplar ou comovente, como está na adaptação de Eric Roth e Robin Swicord.
Não é também um conto tão marcante quanto, por exemplo, Um Diamante do Tamanho do Ritz, que é o que eu mais gosto dele, mas ainda assim é atraente, cheio de ironia e desesperança, mas também de lirismo e humanidade. E de mais sinceridade que o filme.
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domingo, 22 de março de 2009

as três faces de eva



As duas imagens são quase opostas: a curvilínea e frágil Marilyn Monroe recriada pela über magra e imbatível Kate Moss?
Bem, Kate não está mais tão magérrima quanto nos tempos em que assombrou o mundo e levou bandos de adolescentes a flertarem perigosamente com o padrão anorético de beleza das modelos waifs; houve até boatos de que estaria grávida, há alguns meses, quando apareceram fotos suas mais "cheinha" (= só magra). E não falta vulnerabilidade nas suas expressões registradas por Bert Stern, o mesmo fotógrafo que, décadas antes, faria a "última sessão de fotos" (The Last Sitting) da mitológica Marilyn, para a VOGUE americana. E que recriaria a famosa sessão, há pouco tempo, com Lindsay Lohan, também para a mesma New York Maganize que agora tem Kate na capa.
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domingo, 15 de março de 2009

qualquer semelhança


Audrey Hepburn? Audrey Tautou?
Penélope Cruz! - em Los Abrazos Rotos, o novo filme de Pedro Almodóvar (o quarto dele com ela), que foi apresentado à imprensa semana passada.
Ok, Audrey (H.) talvez não deixasse o dedinho levantado...
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toda mulher é meio leila diniz


Não tenho certeza de quando Brigitte e Jean-Louis fizeram amor pela primeira vez. Mas percebi que já tinham se tornado amantes quando estávamos rodando uma das cenas principais.
Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o desejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:
Michel: Você não está feliz?
(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra a camisa dele, com o rosto cheio de angústia)
Juliette: Você deve me amar um bocado.
Michel: Sou louco por você.
(Close-up de Juliette)
Juliette: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me!
(Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela)
Juliette: Estou com medo.
Michel: De que, meu bem?
(Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam a areia).
Juliette: (doce e quase tranquila) É difícil ser feliz.

Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo, por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza pirandelliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmera que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo.
Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:
- Ele é seu amante, não é?
- Sim.
- Você o ama?
- Estou com medo.
Antes de dormir, ela murmurrou:
- É difícil ser feliz.
Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia.

Roger Vadim,
Bardot, Deneuve & Fonda.
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...E Deus Criou a Mulher (Et Dieu ... Créa la Femme, 1956). Ou: quando a fofoca é melhor que o filme.
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quarta-feira, 11 de março de 2009

mulher de verdade


A personagem de Laura Cardoso ( mais uma vez ótima) acabou de dizer à de Eliane Giardini (idem), em Caminho das Índias:
- Você não ensinou à sua filha que para uma mulher mais vale aprender a segurar uma vassoura do que um livro...
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domingo, 8 de março de 2009

vestígios do dia


Não existem planos fechados nesse filme, nenhum close de rosto. Ele está sempre distante. Penso que a distância não aconteceu por acaso. Ao longo da edição, entendi o que agora parece evidente.
A maneira como conduzi as entrevistas me afastou dele. Desde o início, havia uma ambiguidade insuperável entre nós que explica o desconforto de Santiago. É que ele não era apenas meu personagem; eu, não era apenas um documentarista. Durante os cinco dias de filmagem, eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa, e ele nunca deixou de ser o nosso mordomo.

Este comentário do diretor João Moreira Salles, na narração de seu irmão Fernando, aparece já bem próximo do final de seu Santiago (2007), e é desenvolvido nos extras do DVD, quase um mea culpa do "filho do dono da casa" em relação ao mordomo que dá seu nome ao documentário.
É até difícil escolher um trecho mais tocante da narração, mas este achei talvez o mais objetivo sobre a relação dos dois, ou sobre a forma como foram conduzidas as filmagens com Santiago, anos antes do lançamento do filme - JMS filmara no início dos anos '90 as cenas de seu "personagem", mas apenas treze anos depois concluiria o filme, o que é contado desde as primeiros momentos do documentário.
A vida é uma decepção, como nos diz uma personagem do filme Viagem a Tóquio, no "pós-escrito edificante" de Santiago? Pode até parecer que sim, às vezes. Sem sentido, sem muita transcendência. Mas o que nos salva - o que salvou Santiago, e nos salva a quase todos - são coisas inúteis e gratuitas como uma dança no parque, ou como filmes como esse, feitos de afeto e respeito, de generosidade e compreensão.
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sexta-feira, 6 de março de 2009

sexo frágil


As propagandas - anúncios publicitários, pra ser mais moderna, ou reclames, apelando para uma expressão ainda mais antiga - daqui não costumam ser as mais originais ou interessantes do mundo, mas às vezes uma ou outra consegue se destacar mais.
Como a que vi hoje, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, que termina com uma mensagem (u)ótima: Porque toda mulher precisa de cuidado e proteção.
Aiai.
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