quarta-feira, 11 de junho de 2008

porque você sempre existe onde quer

Glacy tinha razão, e eu não entendia (eu não entendia mesmo quase nada, na época): a questão do querer é complicada.
Ainda lembro que esperava pra ver quantas vezes ela diria a frase durante a aula, arregalando os olhões azuis ao final e fazendo um silêncio misterioso, como se esperasse que alguém ali pensasse seriamente na idéia.
A frase tem voltado & voltado várias vezes, mas até há pouco tempo sempre relacionada à dificuldade que era querer e não ter. Só hoje, mais de 10 anos depois daquelas aulas de Psicologia Médica, eu acho que a compreendo um pouco melhor . Querer é complicado, ainda mais se não se sabe o quê.
E eu nem sempre sei querer.
.

domingo, 8 de junho de 2008

veja esta canção


Deu no New York Times?
Não exatamente; no Jornal da Paraíba de hoje, by Renato Félix:

- "Qual a sua música preferida? Qual é aquela que, se sua vida fosse um disco, não poderia faltar? Qual é a que está acima de todas as outras ou marca tanto um momento da sua vida que, sempre que você a escuta, antigas lembranças vêem à tona? Qual é, enfim, a trilha sonora da sua vida?"

Na matéria há respostas de, entre outros, Ruy Castro, Paulo Betti, André Cananéa (curiosamente, falta a do autor do texto!), com músicas brasileiras ou não; algumas eu gosto também, outras nem tanto... mas eu tenho listatropismo positivo, definitivamente.
E fiquei pensando nos meu próprios pitacos.

Que seriam:

* She's Leaving Home - talvez a música que mais ouvi no Sgt. Pepper's, e a favorita da Princesa Diana (!). Nunca fugi de casa, nunca deixei bilhetes de despedida (muito pelo contrário, eu resisti tanto a sair do ninho...), mas a música ainda é irresistível para mim.
* For no One - mais Beatles. Eu ouvia, cantava, chegava a escrever com giz a letra em algumas paredes da Faculdade, na minha primeira decepção amorosa. Hoje acho que era exagero, mas que a música é linda, é.
* Every Time We Say Goodbye - na versão de Annie Lennox, ou de Ella Fitzgerald, ou de John Coltrane. Mas gosto mais com Annie, que foi a primeira que ouvi, a melhor coisa de Eduardo II, aquele filme de Derek Jarman. Ouço e choro, ouço e choro, tanta a beleza da música.
* Wave, com João Gilberto - ouvi numa reprise de Água Viva, novela de Gilberto Braga, e foi um amor à primeira audição, e um amor definitivo. Se só pudesse ouvir uma música, naquele clichê da ilha deserta, seria ela.
* Head Over Feet - como não me lembrar de 1997, o ano que não acabou?
* A Whiter Shade of Pale - seria levada para a tal ilha, junto a Wave. (afe, que coisa velha: um compacto-duplo!)
.

ciao


Este blog daqui a pouco parecerá a sessão de obituários de um jornal, mas não dá pra não dizer: morreu ontem, dia 07 de Junho, Dino Risi, cineasta italiano que brilhava em comédias e fez ao menos dois clássicos do cinema de seu país (ou seja, do cinema, se pensarmos no cinema italiano como um dos dois melhores do mundo): Perfume de Mulher (o original, de década de '70, como Vittorio Gassman maravilhoso) e, meu favorito, Aquele que Sabe Viver (Il Sorpasso, 1962).
Filme também estrelado por um iluminado Gassman, atuando junto ao jovem Jean-Louis Trintignant, a obra de Dino Risi reúne aquela mistura italianíssima de comédia, drama, tragédia e observação da vida comum e suas transfomações inevitáveis nos costumes e nas relações humanas, e é um dos grandes filmes pós - Neo Realismo.
Dino Risi tinha 91 anos de idade ao falecer, ontem, em Roma. Além de grande cineasta ele era médico, psiquiatra.

(Viu, James?)
.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

mas o que isso significa pra você?


A idéia de vigiar e ser vigiada sempre me intrigou.
Não gosto da segunda situação (eu sob vigilância) e tampouco tenho interesse por reality shows como o BBB, mas não há como negar que a vida alheia parece muitas vezes mais interessante que a minha, e acabo me rendendo às Contigos da vida. E a séries como Em Tratamento, exibida há algumas semanas pela HBO, e meu mais novo vício televisivo (em seqüência a House, claro).
Mas como não ficar atraída por uma série que trata de análise e da relação terapeuta-paciente, coisas que não me são, de modo algum, estranhas? Independente de ter ou não resolvido todas as minhas gestalts, não posso negar que o que sou hoje é em parte cria de análises, terapias e desistências das duas, e, devido a isso ou apesar disso, ainda confio nelas.
E, claro, há Gabriel Byrne maravilhoso como Paul Weston, terapeuta em crise pessoal e conjugal. Quem nunca escorregou numa relação de transferência, que levante do divã e atire a primeira pedra!
A série é apresentada de uma forma diferente das demais, organizada em dias da semana como a agenda do terapeuta, inclusive com a necessária realização da análise dele, feita aqui por uma excelente Dianne Wiest, sempre ótima com seus olhos de quem acabou de colocar colírio. Cada dia, um paciente. A estrutura parece meio monótona, como parece ser uma sessão de análise - duas pessoas, uma em frente da outra, falando e ouvindo durante minutos às vezes arrastados. Mas os conflitos narrados intrigam , despertam a curiosidade e se tornam mesmo viciantes.
É, Bial, quem não gosta de espiar?
.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

.

Acordei hoje triste, sem muita vontade de nada.
E a segunda-feira ainda fez o favor de manter sua fama de dia ingrato: começou com má notícia.
Morreu ontem à noite Yves Saint-Laurent, genial estilista que, como seu amado Proust, pertencia à família dos nervosos, que são o sal da terra.
Confirma - morrem só as pessoas mais interessantes.
.

Aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=Yfuw_8YvNuE
.

E aqui,
no seu discurso em 07 de Janeiro de 2002, ao anunciar seu afastamento do mundo da Alta Costura:


Senhoras e Senhores,
Convidei vocês para virem hoje a esta casa a fim de lhes dar uma notícia importante, que diz respeito à minha vida pessoal e ao meu trabalho.
Eu tive a oportunidade de me tornar aos 18 anos assistente de Christian Dior, de sucedê-lo aos 21 anos e de encontrar o sucesso desde a minha primeira coleção, em 1958. Em poucos dias, serão já 44 anos desde que tudo isso começou.
Depois, eu vivi para o meu trabalho e em nome de meu trabalho.
Eu quero homenagear aqueles que me influenciaram, que me guiaram na minha atividade e me serviram de referência.
Antes de todos, Christian Dior, o meu mestre e o primeiro que me levou a descobrir os segredos e os mistérios da alta costura. Balenciaga, Schiaparelli. Chanel, claro, que me deu tantas coisas e, como se sabe, liberou as mulheres. O que me permitiu, anos mais tarde, dar a elas o poder e, de uma certa maneira, liberar a moda.
Ao abrir, em 1966, pela primeira vez no mundo, uma butique de prêt-à-porter com a marca de um grande costureiro, criando sem me referir à alta costura, tenho consciência de haver feito progredir a moda de meu tempo e de haver permitido às mulheres acederem a um universo até então reservado.
Como Chanel, sempre aceitei a cópia e me orgulho muito que as mulheres de todo o mundo vistam tailleurs-pantalons, smokings, cabans e trench-coats. Digo a mim mesmo que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, que participei da transformação de minha época. Eu o fiz com roupas, o que é certamente menos importante do que a música, a arquitetura, a pintura e várias outras artes, mas, seja como for, eu o fiz.
Creio que serei perdoado por contar vantagens, mas, desde há muito tempo, eu acreditei que a moda não era apenas para embelezar as mulheres, mas também para lhes dar confiança, certeza, permitir que elas se assumissem.
Sempre fui contra os fantasmas de alguns que satisfazem seu ego através da moda. Ao contrário, eu quis me colocar a serviço das mulheres. Quer dizer, servi-las. Servir seus corpos, seus gestos, suas atitudes, sua vida. Quis acompanhá-las no grande movimento de liberação que conheceu o último século.
Tive a oportunidade de criar em 1962 minha própria maison de costura. Já faz 40 anos.
Eu quero agradecer àqueles que, desde o início, tiveram confiança em mim.
Michel de Brunhof, que me conduziu até Christian Dior. Mack Robinson, que acreditou no meu destino e permitiu que eu abrisse minha maison. Richard Salomon, a quem eu devo tanto.
Como poderia esquecer os jornalistas, como John Fairchild, Carmel Snow, Diana Vreeland, Nancy White, Eugenia Sheppard, Edmonde Charles-Roux, Françoise Giroud?
Mais próximo de mim, quero agradecer a Pierre Bergé, claro, mas será que vale a pena insistir nisso? Anne-Marie Munoz, Loulou de La Falaise. É impossível para mim citar todos os Premiers e Premières de ateliê que me acompanharam desde o início. Contudo, o que eu teria feito sem eles, sem o seu grande talento, que eu gostaria de saudar? Todos os operários e operárias, cujo devotamento admirável me ajudaram tanto e aos quais quero exprimir minha profunda gratidão, como também ao conjunto dos funcionários da minha maison.
Quero agradecer às mulheres que vestiram minhas roupas, as célebres e as desconhecidas, que me foram fiéis e me deram tanta alegria.
Tenho consciência de ter feito, durante longos anos, o meu trabalho com rigor e exigência. Sem concessões. Sempre coloquei acima de tudo o respeito por esse trabalho, que não é de fato uma arte, mas que precisa de um artista para existir.
Penso que eu não traí o adolescente que mostrou os primeiros croquis a Christian Dior com uma fé e uma convicção inquebrantáveis. Essa fé e essa convicção nunca me abandonaram.
Todo homem, para viver, precisa de fantasmas estéticos. Eu os segui, procurei, persegui. Passei por muitas angústias, às vezes por infernos. Conheci o medo e a solidão terrível, os falsos amigos que são os tranquilizantes e os estimulantes. A prisão da depressão e das casas de saúde. De tudo isso, um dia eu saí maravilhado, mas desiludido. Marcel Proust me ensinou que “a magnífica e lamentável família dos nervosos é o sal da terra”. Sem sabê-lo, eu fiz parte dessa família. É a minha. Eu não escolhi essa linha fatal, contudo é graças a ela que eu me elevei ao céu da criação, que eu me aproximei dos fabricantes do fogo, dos quais fala Rimbaud, que eu me achei, que eu compreendi que o encontro mais importante da minha vida deveria ser comigo mesmo.
Apesar de tudo, eu escolhi dizer adeus, hoje, a esse trabalho que eu tanto amei.
O próximo desfile, para o qual eu convido os senhores, em 22 de janeiro, no Centro Georges Pompidou, será em grande parte uma retrospectiva de minha obra.
Muitos de vocês já conhecem os modelos que desfilarão. Eu tenho a ingenuidade de acreditar que eles podem desafiar os ataques do tempo e assegurar seu lugar no mundo de hoje. Eles já provaram isso. Outros modelos desta saison os acompanharão.
Quero agradecer igualmente ao sr. François Pinault e manifestar a ele a minha gratidão por permitir que eu colocasse harmoniosamente um ponto final a esta maravilhosa aventura e por ter acreditado, como eu, que a alta costura desta maison deveria se interromper com minha partida.
Enfim, quero agradecer a vocês, que estão aqui, e àqueles que não estão, por terem sido fiéis aos encontros que tivemos ao longo de tantos anos. Por terem me apoiado, compreendido, amado.
Eu não os esquecerei.

.

domingo, 1 de junho de 2008

like endless rain into a paper cup


O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo
que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo,
saboreando, junto com ele, o cheiro das
torradas-na-manteiga que alguém pediu na mesa próxima.

Mário Quintana.
.

de repente 30


Nem lembro mais há quanto tempo eu havia sonhado com artistas. Deve ser culpa dessa lua, desse conhaque, que botam a gente comovido como o diabo.
O fato é que, nas poucas horas de sono que a FAP me permitiu ontem, o cansaço foi maior que o interesse em ver o jogo do Brasil (quem ganhou? quem ganhou?) e dormi e sonhei. Sonhei que a vaga aberta na Emergência era ocupada por um médico novo na cidade, mas que eu, euzinha, reconhecia: Jean-Pierre Léaud. E não o Léaud envelhecido e melancólico do Os Sonhadores (e da vida real) mas o Antoine Doinel de Domicílio Conjugal, jovem, confuso e meio gauche na vida.
Ninguém mais o reconhecia (metida a besta até nos sonhos, afe), o que ele parecia preferir. Mas era até melhor, ficava sendo um segredo nosso.
Ao longe, uma música me desperta do segredo. Charles Trenet? Não, un vieux clocher me chamando ao mundo, duas da manhã.
E fiquei pensando no que teria comido à noite pra provocar esse tipo de sonho: algodão-doce?
.