sábado, 14 de junho de 2008

olha, repara, ausculta: essa riqueza


A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história, em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, aconsciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!

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O texto abre o belo O Arco e a Lira, de Octavio Paz, e me deslumbra desde que li a primeira vez (obrigada, Cadu!). Há algumas semanas me lembrei novamente dele, ao pensar em outro ensaio famoso e de grande beleza, agora do italiano Pier Paolo Pasolini, em que ele fala de um cinema de poesia em oposição a um cinema de prosa. ("O Cinema de Poesia", conferência publicada em seu livro Empirismo Herege).
Voltei a ele depois de ver, finalmente, Limite, o famoso e comentadíssimo filme de Mário Peixoto, que só conhecia de leituras e de uma versão em livro dos seus fotogramas (ou seja, ou havia lido uma fotonovela!).
Ou melhor, depois de ver a beleza.
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Um comentário:

anakan disse...

tu tens o Empirismo Herege em portugues??? ou pelo menos o artigo?
Esse texto foi base da minha dissertaçao e agora no doutorado preciso dele de novo...
soh q soh tenho em ingles!
(aproveito pra dizr q Limite é o melhor pior filme q eu jah vi. Eh lindo, e eh pessimo)