sábado, 14 de junho de 2008

assombro e silêncio

Li o depoimento de Bráulio Tavares, que colei pouco antes, e me deu inveja dele.
Não por ele ter vivido em '68, não. Mas pelo trecho "Juntamente com Jakson e Marcos Agra, eu pegava o ônibus até Recife para ver Blow-Up de Antonioni ou Alphaville de Godard no Cinema de Arte Coliseu, em Casa Amarela. "
Os dois Agras citados são meus parentes distantes; um deles eu conheço (Marcos) ao menos de vista e de chapéu, mais por ser amigo e colega de minha mãe que pelo parentesco - a família é grande, e eu não sou exatamente a pessoa mais extrovertida do mundo, não me aproximo muito. Mas o primeiro, já falecido há mais de 20 anos, sempre foi meio lendário para mim.
Jackson morreu quando eu ainda era bem pequena, junto a outro primo, este sim mais próximo, "primo legítimo" ou em primeiro grau, muito jovem ainda, chamado Fábio, de quem tenho muito vagas lembranças (que podem nem ser dele, aliás, já que ele tinha um gêmeo idêntico e eu era pequena demais pra ter lembranças mais exatas de um ou de outro).
Sempre que se falava na morte dos dois rapazes, havia um misto de dor, claro, e algo mais silencioso, menos explícito, mas que se tornou mais claro à medida que eu crescia e perguntava mais e mais sobre eles à minha avó, tias, pais e irmão. Uma sensação de perda maior que a de dois jovens parentes, como se com eles se perdesse muito da alegria, da vivacidade da família, já que os dois pareciam haver sido realmente marcantes, pessoas de quem todos se lembravam com saudade e admiração, por transmitirem liberdade, alegria, cultura, num período em que aparentemente esta cidade viu momentos bem mais interessantes que os de hoje, apesar das dificuldades óbvias do país.
Jackson era cinéfilo, fã dos Beatles (de quem tinha duas coleções de discos, um para ouvir e outra para guardar, como eu!) e de poesia. Lembrado pelos amigos como "sempre presente", "inesquecível".
Não tenho inveja de muita coisa, ao menos conscientemente, mas tenho de quem o conheceu.
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4 comentários:

Roberto Souza disse...

O sábado, pelo jeito, foi produtivo.

Este texto, em especial, é belíssimo. A citação na medida certa, como ponto de partida para um mergulho em fragmentos de memória, reminiscências que se confudem. Mas vindos à luz sob uma forma transparente e pura. Me lembro que já fui capaz de escrever assim. Passado.

Lembranças vagas e impressões, fisionomias que se confundem, independente de serem assemelhados ou idênticos. Todo irmão acaba mesmo sendo gêmeo, não é? Parece que sim. No entanto, isso de sensações indefinidas remete mesmo a Debussy e Ravel. Sem precisar cair da cadeira, tá? Já não existe surpresa nisso, apenas prazer.

O que é incrível, reside nessa precisão do uso das palavras. Iguais às notas harmoniosas na pauta de “La Mer” ou na “Pavane Pour Une Infante Défunte”. A pontuação, dom cada vez mais raro, é perfeita. Sempre remete a uma quebra natural, como as ondas quebrando ao meio dia ou o ritmo solene do cortejo. A ponte entre o antigo e o atual é fascinante, cruzada entre vírgulas e parágrafos, sentimentos e lamentos sem pieguices ou dores fora de lugar. O implícito carrega tudo que seja necessário.

Não tenho inveja de muita coisa também, mas tenho de quem escreveu, Alana.

E são 4:40 de domingo, aproximadamente. Assim, por favor, não suprima meu comentário. Aceite os elogios, não mordem.

anakan disse...

tu n imagina a lenda q eh meu tio (q 'a gente' chamava de Son) pra mim. Nao existe palavra pra esse sentimento, mas eh um tipo de nostalgia por algo q eu n vivi, por uma parte da minha vida d q fui privado, q seriam os momentos com Son. Qdo ele morreu eu tinha somente 1 ano, entao... n o conheci. Mas pelo menos ele me colocou no braço, me deu beijo, algo disso ainda ficou.
Alem das duas coleçoes dos discos dos beatles.

Moacy Cirne disse...

Recordar é uma forma de reviver, não?, mesmo quando nos reportamos a pessoas que só conhecemos indiretamente. De qualquer modo, gostei bastante de seu texto. Um abraço.

Anônimo disse...

alana,
sinto que son é o amigo
q me falta.
Escrevi um poema.
Tá em "antimercadoria".
Eu cheguei a sonhar
com ele uma vez.
Sim, o poema
tá dedicado a Anakan.
Beijo