sexta-feira, 3 de abril de 2009

cinemin


Cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

Ariano Suassuna,
O Auto da Compadecida.

Li a notícia enquanto assistia a partes da enésima reprise de O Auto da Compadecida, exibida agorinha mesmo na Sessão da Tarde:

Revista SET é cancelada
Publicação chegava às bancas há 21 anos com as notícias mais quentes do cinema
Marcelo Forlani
A revista SET foi cancelada.
Há 21 anos a publicação trazia notícias e informações de Hollywood direto da fonte. Não era difícil ver edições em que todas as grandes matérias tinham sido feitas de Los Angeles, de onde os nossos amigos Roberto Sadovski, Ricardo Matsumoto e Rodrigo Salem ou algum outro colaborador enviavam artigos quentinhos.
(...)
Resta a torcida para que a SET consiga uma nova editora para dar continuidade ao trabalho.

Esta nota foi copiada & colada diretamente do site Omelete, mas a notícia me chegou através do blog do Renato Félix, e fui correndo ver a fonte que ele citava, claro.
Nos últimos tempos eu comprava a SET mais por obrigação (coisa de doido, mesmo, mas a expressão é exata: o-bri-ga-ção) que por prazer em ler suas matérias; aliás, de algumas delas eu pouco li, mas como compro a revista desde o número 01, para mim era impensável deixar o vício, mesmo quando dava mais raiva do que alegria - houve fases atrozes ao longo dos mais de 20 anos da revista, convenhamos. Apesar disso, fiquei triste ao ler sobre a mudança - segundo RF, a revista talvez continue como site apenas, sem a edição das bancas.
Claro que pode ser só meu mau humor ou meu anacronismo, mas não consigo me convencer a substituir a edição de papel pela eletrônica, seja dela ou de qualquer outra revista.
O que me entristece: a revista era uma das poucas (e eu não consigo me lembrar agora das outras ainda vivas) em circulação dedicadas ao cinema exclusivamente, mesmo que muitas vezes seu foco estivesse quase todo voltado somente para o que era mais blockbuster; há já uma história de mais de 20 anos de SETs, e devo muito à revista em relação a informação, conhecimento, até mesmo lembranças pessoais (por exemplo, meu primeiro namorado era leitor assíduo da revista e muitas vezes ela estava presente no namoro, seja nas fichas de cine & vídeo colecionadas pelos dois, seja nas votações dos melhores de cada ano, seja pelo simples ato de ir à Banca do Orlando juntos para comprarmos nossos exemplares, o que era um programão na época); a gente se sente tão velha quando percebe que acompanhava uma coisa há vinte anos e, mais ainda, quando vê que ela acabou, que talvez não haja interesse em sua manutenção. Afe.
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Um comentário:

Concertgebouw disse...

Bach, no outono da vida, se impressionou com um oratório de Haydn, que tempos depois reconheceu o talento do jovem Mozart, que por sua vez se emocionou com uma sonata do iniciante Beethoven, cuja Nona Sinfonia foi o ponto de partida da concepção dos dramas musicais de Wagner...

A cadeia artística, o efeito dominó da emoção, é o salvo-conduto da imortalidade. O verdadeiro elixir da juventude. Mesmo que as circunstâncias mudem, as lembranças a elas associadas são perenes. Uma vivência recheada de conhecimento e reflexão, que iremos passar adiante, legaremos aos que estiverem sob nossos cuidados ou influência.

A revista SET está longe de merecer grandes lamentações pelo seu fim. Algumas das coisas mais absurdas que li foram registradas nas suas páginas. Uma vez faltava papel para escorrer fritura e ofereci um exemplar dessa publicação. Deu indigestão depois...

Mas o que fazer com nossa memória afetiva? Nada. Ela subsiste por si mesma, assim como as melhores imagens, sejam as projetadas na tela de cinema ou pelo olhar do coração.

São filmes clássicos e eternos.... Igual às reminiscências que acalentamos.