quinta-feira, 23 de abril de 2009

a hora do povo na tv

Há poucos dias li no novo blog de Astier - já aí nos links, ao lado - sobre uma certa tendência nossa (nós = brasileiros) à identificação mais frequente com bandidos que com a polícia. Um dos exemplos disso, a meu ver, é a reação que tive ao ver Cidade de Deus, e acho que não fui a única a ficar torcendo mais por Zé Pequeno e outros elementos do que pelos homens-de-farda.
Logo me lembrei de uma conversa inusitada que tive na manhã seguinte à cerimônia do Oscar-2004, referente aos filmes de 2003, entre eles Cidade... e O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei, o super-premiado encerramento da trilogia de Peter Jackson. Na noite anterior eu havia ido dormir tardíssimo, assistindo até o final à transmissão na TV, e estava logo cedo tomando café ainda sonolenta, antes de ir pro trabalho, quando chegou na cozinha um rapaz que fazia algum serviço no quintal, que não lembro mais o que era. O tal rapaz entrou justamente quando eu comentava sobre os vencedores, e me surpreendeu ao dizer que também havia ido dormir tarde, esperando até o fim pra ver se o filme brasileiro ia ganhar.
- Eu fiquei acordado a noite toda e o filme não ganhou foi nada! Quem ganhou tudo foi o dos Anéis. Eu nem vi esse; o brasileiro eu vi no DVD, e duvido que o outro seja melhor. Mas americano não gosta de realidade, não, eles gostam é de mentira, de fantasia.
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2 comentários:

Astier Basilio disse...

nossasinhora, q história!

Concertgebouw disse...

Acho a realidade insípida. A fantasia, idem.

A síntese delas é a melancolia, muito mais interessante. Ser melancólico é fantasiar com um pé na realidade. Ou ser realista com um dedo de fantasia. É deixar o pensamento solto, ao som de Bach ou dos Rolling Stones, enquanto se evoca corpos desabando, como pedras de dominó, numa escaldante e distante selva asiática. Os contrapontos imitando gemidos, os acordes somatizando rajadas.

A melancolia nos leva a perceber a similaridade das posições, a falta óbvia de parâmetros. Ela nos poupa o trabalho de tomar uma posição ou torcer por quem estaria certo numa determinada questão. Num filme, por exemplo, os melancólicos assumem o ponto de vista de quem conduz a ação. Butch Cassidy e Sundance Kid são os foras-da-lei mas torcemos por eles, pois nos contam a história, se apossam da narrativa. Idem para o violento Capitão Nascimento de Tropa de Elite.

Seja o enfoque leve ou pesado, pegamos carona em quem movimenta a mesmice. Alguns dirão que não são melancólicos, pelo contrário, afirmando-se otimistas, antenados ou críticos. Mesmo assim, garantirão, torcem também por Butch, Sundance ou o Capitão, num mero exercício de catarse. E concluirão que Cidade de Deus supera por qualquer razão O Senhor dos Anéis, ou vice-e-versa.

Na verdade, eles são postulantes frustrados à melancolia. Infelizmente, uma arte que se perdeu, restando nascer-se com ela ou não, independente de elegermos a realidade ou a fantasia.