terça-feira, 5 de agosto de 2008

durma-se com um barulho desses

Lei de Murphy na MTV: os melhores clipes passam muito cedo da manhã, nas horas mais curtas do dia - entre 06 e 08 (ainda vou contar, mas acho que não dá nem 50 min entre uma e outra).
Hoje: Madonna em Vogue, U2 em One, Depeche Mode em Enjoy the Silence, Alanis em You Oughta Know...
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

quem é ateu e viu milagres como eu

3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
4. Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão porque ninguém a tem ou todos a tem.
8. Feliz o que perdoa aos outros e o que se perdoa a si mesmo.
9. Bem-aventurados os mansos porque não condescendem com a discórdia.
10. Bem-aventurados os que não têm fome de justiça porque sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.
11. Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.
12. Bem-aventurados os de limpo coração, porque vêem a Deus.
13. Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu destino humano.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja. Deus a verá.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.
17. O que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.
18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.
19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide…
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido, com razão muitas vezes.
25. Não jures porque todo juramento é uma ênfase.
26. Resiste ao mal, mas sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que não te mova o temor.
27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça e nao é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de comprazer tua vaidade.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu o erro.
32. Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.
33. Dá o santo aos cães, deita tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.
34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar…
39. A porta é a que escolhe, não o homem.
40. Não julgues a árvore por seus frutos nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia…
47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.
49. Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.

Jorge Luis Borges,
Fragmentos de um evangelho apócrifo,
O Elogio da Sombra.
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domingo, 3 de agosto de 2008

a césar o que é de césar


Uma das experiências mais realizadas em mostras escolares de Ciências é aquela em que se retira o coração de um animal e ele continua batendo - tum, tum - mesmo fora do organismo.
Não é feitiçaria, nem tecnologia.
Como qualquer realizador do tal experimento esclarece, o coração pode continuar funcionando fora do corpo do animal por algum tempo se mantido em condições parecidas com as normalmente existentes no interior dos organismos: uma composição química semelhante à do meio interno dos animais, le milieu interieur dos livros de Fisiologia, uma fonte de energia adequada - que no caso do coração é principalmente a glicose , além do oxigênio, que permite a utilização de energia por parte das células.
Alguns até podem bater por mais de dez anos, por mais mudadas que sejam as condições em volta.
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os incompreendidos


Saí pra ver um show, ontem à noite, e praticamente voltei da porta.
Secreta, secreta- e doada às coisas mínimas, como no poema de Herberto Helder. E é melhor ficar em casa, quando estou assim.
Me encorujo toda, não ligo o computador, desligo o telefone e ligo o DVD. Não há melhor companhia do que Antoine Doinel.
Revi Beijos Proibidos (você aqui de novo, Cecilia?!) e fiquei com uma cena na mente:
Antoine está sentado em um banco de praça ao lado de Christine (Claude Jade). Ela está sendo seguida semanas a fio por um misterioso homem., e eis que finalmente o estranho resolve lhe dirigir a palavra. Diz ele:
- Nunca havia provado o gosto do amor, até que conheci você. A vida é repleta de experiências provisórias, de pessoas provisórias. Mas eu sei que, para você, serei definitivo. Não estou pedindo para que você me diga "sim" neste momento. Eu lhe darei um tempo para pensar. Quero apenas que você saiba que eu a amo, muito. E que estarei aqui, para você, sempre.
O homem vai embora.
Christine e Antoine se entreolham, espantados, em silêncio. Até que Christine lhe diz:
- Esse homem é completamente louco!
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Será?
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seu miguel


Quando o telefone toca muito cedo da manhã eu já tenho medo - notícia boa é que não deve ser.

E não era. Soraya ligou ontem umas sete horas da manhã, com uma voz séria que não deixava qualquer dúvida de qual seria o tom da notícia, me pedindo pra transmiti-la a meu irmão e minha mãe.

- Lane, é sobre Vanita.
- Foi quando? Ontem?
- Ontem à noite. O velório está sendo em frente ao Pedro I.

Foi uma daquelas notícias que, se a vida fosse como nas novelas da Globo, desencadeariam logo um flashback, e apareceriam imagens da adolescência, do colégio (era tão grande, parecia tão grande... outro dia entrei lá e me assustei pelo tamanho tão menor do que nas minhas lembranças), da farda horrorosa, da sala-de-Vanita, da biblioteca, da cantina, de tudo.
Eu nem sou tão velha pra já sentir saudades daquela fase, da aurora-da-minha-vida-que-os-anos-não-trazem-mais (nem quero que tragam, de jeito nenhum!). Mas não há como não lembrar e sentir uma certa nostalgia, como não ver com mais ternura até o que me parecia chato, na época.
Vanita Leitão era bem mais próxima de meu irmão, e ele a adorava. Eu preferia Ceminha, sua irmã mais risonha e adorável, na sua alegria quase infantil. E, mais ainda, Dona Eleonora, talvez a pessoa que eu mais gostasse no CAD, mesmo que disputasse comigo o amor do Capitão Rodrigo Cambará , ela também fã de O Tempo e o Vento.
Mas tenho muitas lembranças importantes dela, de sua firmeza, de seu sarcasmo (adorava quando oferecia um copo de H2O a alguém que claramente simulava um mal-estar súbito após o intervalo, pra poder sair mais cedo), de seus conselhos. Certa vez, no auge daquelas crises de auto-estima da adolescência, foi ela que sentou comigo, na sala dos professores, e passou quase uma tarde toda tentando em convencer de que eu não precisava todo o tempo me comparar com meu irmão, que "ninguém pensa nisso".
Aliás, lembro até hoje a cena: a essa altura eu já estava quase sorrindo, depois de lágrimas & lágrimas, e perguntei "será? tem certeza?" "mas é claro, cada um de vocês tem as próprias qualidades, essas comparações não existem". Nessa hora entra na sala Maranhão (o querido o saudoso professor de Inglês) e nos cumprimenta: "Ah, desculpe, Dona Vanita, não sabia que tinha alguém aqui... E você é a irmã de Alarcon , não é? Seu irmão é meu melhor aluno, sabia?"

Descanse em paz, criatura querida.
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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

não sei, só sei que foi assim


Para a série perguntar não ofende:

Uma vez, há anos já, estava eu calmamente sentada numa almofada, na sala da casa de meus pais, assistindo a Pacto Sinistro no DVD.
Passa então o jardineiro, que havia ido beber água e voltava pela porta da frente. E pára um pouco, olhando para a TV.

- É um filme, é?
- É. Um filme velho.
- De quê?
- De suspense.
- Ah. E o que é suspense?

:(
Valha-me Deus. Hitchcock & tantos teóricos já discutiram tanto isso, pra eu agora, na lata, dar uma definição que preste?
- É quase terror, só que dá mais medo.
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quarta-feira, 30 de julho de 2008

e basta de melancolia!

Ultimamente tenho estado mais e mais preocupada com o Tempo, mais do que em qualquer momento antes, que eu me lembre. É simples e claro: tenho tido menos tempo hoje do que em qualquer outro momento antes etc. etc. Pra piorar tudo, fico pensando nisso - o que acaba me tomando ainda mais tempo.
Me assusta muito a possibilidade de me tornar uma daquelas pessoas estressadíssimas e pragmáticas demais, para quem as condições do cinema são um exotismo que há muito deixou de ser alcançável, ou mesmo desejado. As duas horas de um filme, a ausência de intervalos e a impossibilidade de apertar nos botões de pause, << ou >>, o deslocamento até o shopping (o cinema no centro da cidade, o Babilônia, já é tão morto quanto Inês) são muitas vezes empecilhos para quem trabalha todo o dia (e às vezes toda a noite anterior também), se cansou não só fisicamente e ainda tem à sua espera louças, vassoura, obrigações sociais e afetivas.
E tem sempre o DVD. O DVD e o sofá fofinho, a TV e os biscoitos de chocolate, o controle-remoto...
Só que há pessoas chatas e antiquadas o suficiente para acharem que o DVD, o VSH* e a TV são subprodutos do cinema, não são cinema. O cinema é a sala, é a tela graaande, é o caminho, é o ingresso que depois será guardado nma caixa coloridinha. O cinema é o estado de espírito - de volta a frase plagiada - que não pode ser recriado em casa, com a possível exceção de quem vive em uma ilha isolada na Suécia. Por mais que se tente, o cinema existe contra o lar, não dentro dele, e a expressão cinema em casa me parece absurda, uma contradição em termos. Mas, se há também quem diga que masturbação é sexo, é uma besteira pensar essas coisas.
O cinema é um amante exigente. Por mais que a gente queira domesticá-lo, vulgarizá-lo, misturá-lo com lojas, fast food, sofás e pijamas, ele resiste. A paixão que ele desperta pode muito bem ser, assim, uma das poucas maneiras possíveis de moldar o Tempo. Ou de fingir que ainda se tem 16 anos, que só teve aula de manhã e que a tarde e a noite são todas nossas, minhas e dele.


* ato falho! o Video Home System virou Velocidade de Sedimentação das Hemácias.
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