
Uma das experiências mais realizadas em mostras escolares de Ciências é aquela em que se retira o coração de um animal e ele continua batendo - tum, tum - mesmo fora do organismo.
Não é feitiçaria, nem tecnologia.
Como qualquer realizador do tal experimento esclarece, o coração pode continuar funcionando fora do corpo do animal por algum tempo se mantido em condições parecidas com as normalmente existentes no interior dos organismos: uma composição química semelhante à do meio interno dos animais, le milieu interieur dos livros de Fisiologia, uma fonte de energia adequada - que no caso do coração é principalmente a glicose , além do oxigênio, que permite a utilização de energia por parte das células.
Alguns até podem bater por mais de dez anos, por mais mudadas que sejam as condições em volta.
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2 comentários:
Em suma, a fronteira entre a vida e a morte nos confirma a lógica: o coração foi feito mesmo para bater.
Dentro ou fora do corpo, feliz ou amargurado, o coração prossegue sua função divina e/ou orgânica. Muitos já escutaram nas batidas do próprio coração os ecos do passado ou mesmo as perspectivas do futuro. Nele localizamos a vida, a isolamos, buscamos a consciência de que estamos vivos.
O tempo que um coração bate, em circunstâncias normais, longe das experiências de laboratório, sempre será um enigma, um eterno mistério. Mas, com certeza, aquele que bate sob a glicose da paixão e com o oxigênio do amor, certamente existirá pleno e palpitante, independente do número de anos à frente.
César tinha 10 anos. Como todos nós, tinha um coração. Como todos nós, tinha medo de vagar sozinho pelas ruas, mas se arriscava. Sabia que era melhor não sair, mas ele tinha saudade das ruas, onde nasceu. Foi adotado. Não se acostumava a viver preso. Tinha nome de imperador dos humanos. Mas um dia César saiu e não voltou mais. Sua família pôs anúncios, mas não obteve resposta. Alguns viram quando foi capturado. Outros, que escaparam da câmera de gás, lembram quando foi brutalmente arrastado da carceragem. Como todos nós, César tinha sangue, quatro patas, latia e abanava o rabo quando feliz. Era apenas um 'animal'. Não era como todos nós. Seu corpo vazio apodreceu no lixão perto do mangue, mas seu coração foi a sensação nas mostras escolares de ciências. Continou batendo por quase dez anos, causando grande admiração entre os bichos humanos.
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