Ultimamente tenho estado mais e mais preocupada com o Tempo, mais do que em qualquer momento antes, que eu me lembre. É simples e claro: tenho tido menos tempo hoje do que em qualquer outro momento antes etc. etc. Pra piorar tudo, fico pensando nisso - o que acaba me tomando ainda mais tempo.
Me assusta muito a possibilidade de me tornar uma daquelas pessoas estressadíssimas e pragmáticas demais, para quem as condições do cinema são um exotismo que há muito deixou de ser alcançável, ou mesmo desejado. As duas horas de um filme, a ausência de intervalos e a impossibilidade de apertar nos botões de pause, << ou >>, o deslocamento até o shopping (o cinema no centro da cidade, o Babilônia, já é tão morto quanto Inês) são muitas vezes empecilhos para quem trabalha todo o dia (e às vezes toda a noite anterior também), se cansou não só fisicamente e ainda tem à sua espera louças, vassoura, obrigações sociais e afetivas.
E tem sempre o DVD. O DVD e o sofá fofinho, a TV e os biscoitos de chocolate, o controle-remoto...
Só que há pessoas chatas e antiquadas o suficiente para acharem que o DVD, o VSH* e a TV são subprodutos do cinema, não são cinema. O cinema é a sala, é a tela graaande, é o caminho, é o ingresso que depois será guardado nma caixa coloridinha. O cinema é o estado de espírito - de volta a frase plagiada - que não pode ser recriado em casa, com a possível exceção de quem vive em uma ilha isolada na Suécia. Por mais que se tente, o cinema existe contra o lar, não dentro dele, e a expressão cinema em casa me parece absurda, uma contradição em termos. Mas, se há também quem diga que masturbação é sexo, é uma besteira pensar essas coisas.
O cinema é um amante exigente. Por mais que a gente queira domesticá-lo, vulgarizá-lo, misturá-lo com lojas, fast food, sofás e pijamas, ele resiste. A paixão que ele desperta pode muito bem ser, assim, uma das poucas maneiras possíveis de moldar o Tempo. Ou de fingir que ainda se tem 16 anos, que só teve aula de manhã e que a tarde e a noite são todas nossas, minhas e dele.
* ato falho! o Video Home System virou Velocidade de Sedimentação das Hemácias.
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2 comentários:
De volta aos plágios: acho um filme, não o cinema, um estado de espírito.
Conta uma lenda que, ao ver um filme projetado pela primeira vez, na exibição dos Irmãos Lumière, em 1895, em Paris, o futuro pioneiro Georges Méliès, ao se retirar da sala, imaginou como seria bom carregar aquela maravilha consigo. Não bastava ter se emocionado com a imagem do trem avançando de frente, como se fosse rasgar a tela e atingir a audiência. Ele queria ser dono daquela sensação, tê-la consigo a qualquer momento, acionar a adrenalina e a emoção quando desejasse.
Por mais inventivo que fosse, Méliés nem de longe concebeu a televisão, o vídeo-cassete ou o DVD. Talvez tenha sonhado com tudo isso mas, como a maioria dos mortais, talvez fosse daqueles que não lembrava dos próprios sonhos ao acordar. Ao olhar para um quadro ou fotografia desde então, provavelmente passou a ansiar que tivessem movimento.
Se Méliès, um visionário na vida e no trabalho (há como dissociá-los?), ao final do século 19, idealizava algo que nem sabia, não há maneira única de determinar o que é certo ou errado na apreciação de um filme. Se a tela é grande ou pequena, se o som é mono ou surround, se vou antes na cozinha buscar meu biscoito Bono ou depois da sessão lanchar no McDonald’s, o que importa? O verdadeiro cinéfilo, enquanto apaixonado, apenas quer o objeto de seu amor. E dele não abre mão.
Por outro lado, conforme foi dito, existem sempre os chatos e antiquados. Parece que nasci do lado deles e dali nunca saio. O ritual do cinema é fascinante. Mais do que as lembranças que traz, existem as novas a serem construídas. Numa sala escura, defronte uma tela grande, enxergo Lumière e Méliès, Ford e Hitchcock, Bergman e Zurlini, criando uma referência transportável a qualquer outro contexto. Assim, fica mais fácil recriá-los dentro de casa, num dia de chuva, numa semana sem tempo livre ou numa noite de insõnia.
O cinema, enfim, é mesmo também um estado de espírito.
para pensar ouvindo... "samba da pergunta".
Não nos permitimos mais o tempo ,
mas ausência dele ...
Não nos permitimos amigos , mas saudade deles ...
Não nos permitimos o manual do aparelho eletrônico ,
mas o software auto programável...
Se tudo é ausência , que não falte o biscoito bono tradicional e o Rhett falando pra Scarlett : - Frankly, my dear, I don´t give a damn.E pra fechar com deusas...
Minha Scarlett... a Johansson!!Toca aí Getz ...La ra lá Sofrer é da vida eu já me convenci...
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