
Em uma cena de Os Sonhadores (The Dreamers, 2003), o filme (mais) cinéfilo de Bernardo Bertolucci, Theo (Louis Garrel) lê para Matthew (Michael Pitt) um trecho do livro que estava lendo. À leitura segue uma discussão que reproduz uma das mais acirradas disputas entre os amantes do cinema mudo:
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Theo - " A diferença entre Keaton e Chaplin é a mesma que entre prosa e poesia, o aristocrata e o vagabundo, a excentricidade e o misticismo, entre o homem como máquina e o homem como anjo." Não é ruim, é?
Matthew - Não, só que, para mim, não há comparação.
Theo - Por quê? Porque Chaplin é incomparável?
Matthew - Não. Porque Keaton é incomparável.
Theo - Keaton? Acha que Keaton é melhor que Chaplin?
Matthew - Sem dúvida.
Theo - Não fala a sério.
Matthew - Claro que sim.
Theo - Está doido.
Matthew - Ora. Não vai negar que Keaton seja mais engraçado que Chaplin.
Theo - Claro que vou.
Matthew - Não acha Keaton mais engraçado?
Theo - Ninguém é mais engraçado que Chaplin.
Matthew - Keaton é. Até quando não faz nada. Ele parece com Godard. Keaton é um cineasta de verdade. Chaplin só liga para sua atuação, seu ego.
Theo - Bobagem.
Matthew - Não é.
Theo - É sim. Às vezes penso que os americanos não entendem a própria cultura. Não é à toa que não entendem Jerry Lewis.
Matthew - Nem me fale de Jerry Lewis.
Theo - Escute. Chaplin sabia fazer uma bela tomada quando queria. Melhor que Keaton; melhor que qualquer um. Lembra da última cena de Luzes da Cidade? Ele olha para a vendedora de flores, ela olha para ele. Não esqueça que ela era cega, que o está vendo pela primeira vez. É como se, através de seus olhos, nos também o víssemos pela primeira vez. Charles Chaplin, Charlot, o homem mais famoso do mundo. É como se nunca o tivéssemos visto antes.
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O argumento final de Theo encerra a discussão, e a imagem que temos do rosto de Matthew expressa no mínimo dúvida, onde antes havia tanta certeza, sobre os dois comediantes, dois dos maiores gênios do cinema.
Talvez não tenha visto muito de Buster Keaton - vi menos do que de Chaplin, certamente - mas estou do lado do belo Theo: Chaplin era mesmo o maior deles. "Uma espécie de Adão, de quem todos descendemos", como já disse dele outro gênio do cinema, o italiano Federico Fellini.
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imagem: o grande encontro, após décadas: Charles Chaplin & Buster Keaton contracenam pela primeira vez, sob a direção de Chaplin, em Luzes da Ribalta (Limelight, 1952).
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