sábado, 16 de junho de 2007

f for fake


Uma das comunidades mais interessantes que acho no Orkut foi criada por uma de minhas ídalas, a minha colega e prima Melania, e chama-se "Eles Nunca Disseram Isso". Lá se discutem aqueles textos, frases, citações, muitas vezes difundidos ad nauseum como sendo de alguém já consagrado - comumente Mario Quintana, Luis Fernando Veríssimo, Shakespeare! - mas sem que a autoria seja verdadeira. Às vezes nem são de todo ruins os tais textos ( a maioria é, indeed, ruim de doer!), mas o que incomoda mesmo é a mentira, a intenção de enganar o leitor neste mundo cheio de "Ctrl C /Ctrl V".
E, quando uma pessoa razoavelmente bem informada (e orgulhosa disso...) cai em uma dessas armadilhas, tornadas endêmicas com a internet, é mais ridículo ainda! É de dar raiva. E digo isso por experiência própria(grrrrrr).
Estou pensando nisso desde que prestei mais atenção a alguns versos que li e gostei, atribuídos ao russo Vladimir Maiakovski, e que agora me parecem estranhamente fakes.
Vamos à matéria...

.
Talvez os versos mais conhecidos do poeta sejam:

brilhar pra sempre
brilhar como um farol
brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar
este é o meu slogan
e o do sol.

Até aí, tudo bem.
O problema é que antes destes foram colocados mais alguns, e estes é que não parecem ter a mesma nobre origem...

todos os amores deveriam ser possíveis.
pessoas não deveriam chegar,
nem antes, nem depois
tudo deveria ser exatidão.
pontualidade vital
para que o amor aconteça.
a terra deveria girar
com esse único propósito:
o encontro das almas.
o resto seria resto.
e tudo seria para sempre.

.
Problema criado, vamos às pesquisas de campo, que mostraram:


# nenhum registro confiável da autoria dos versos acima;
#os primeiros são muito difundidos, e são uma tradução do concretista Augusto de Campos, geralmente antecedidos de apenas um outro verso: a tarde ardia com cem sóis, após o qual viriam *****, indicando elipse de alguns trechos do poema, e então os outros, os tais do brilho.
# este poema seria A porta do sol, de Maiakovski e Robert Delaunay, datado de 1923, e teria origem no bem maior A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakovski no verão na datcha. A partir deste poema, que fala de um fantástico encontro com o sol, o poeta faria, segundo Augusto de Campos, "um gigantesco caligrama do sol": "uma das portas internas de apartamento de Delaunay, em Paris, foi dividida em quatro retângulos coloridos, contendo um grande círculo central, no qual se escrevem a primeira e as sete últimas linhas do texto".

Afe...

O pior é que cheguei a copiar o poema aditivado em uma correspondência amorosa, há alguns meses, sem a menor desconfiança de estar enganada(em relação ao poema).
Pensando bem...
...é, não valia mesmo a pena colocar outras verdades ali.
Desculpe, Maiakovski.
.


Nenhum comentário: