
Duas ou três noites mais tarde foram ao cinema ver Rocco e Seus Irmãos, um filme pelo qual competiam com um fanatismo selvagem. Quantas vezes já o tinham visto? Doze? Dezessete? Alguns segundos antes de chegar à cena com Annie Girardot e Delon no telhado da catedral - a cena em que Rímini perdia o controle e chorava como um menino -, Sofía apenas olhou para ele, como se o escrutasse na escuridão, e antes que Rímini desmoronasse aproximou a mão aberta de sua nuca e a manteve ali por alguns segundos, irradiando seu calor, como um desses curandeiros que não precisam ter contato com o corpo para curá-lo. Tinham substituído o consolo pela prevenção. A cena passou, Annie Girardot saiu correndo pelo terraço. Delon perseguiu-a, os dedos de Sofía tremeram levemente junto à nuca de Rímini, e Rímini, naturalmente, não chorou. Não chorou dessa vez nem nunca mais, e Rocco foi engolido nessa noite terrível. Tinham alcançado uma forma rara de perfeição. Viviam no interior de um interior, como nesses ambientes que reproduzem por meios artificiais, entre quatro paredes, atrás de gigantesco tabique de vidro, para que os visitantes possam admirar seu realismo, a temperatura e a umidade e a pressão e a fauna e a flora de ecossistemas exóticos. Não havia região da bolha que não estivesse recoberta pela membrana. Rímini e Sofía respiravam normalmente, mas o exterior já começava a se tornar um pouco borrado para eles, embaçado pelas velaturas que, ao exalarem, deixavam nas paredes de vidro.
Alan Pauls,
O Passado.
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3 comentários:
O amigo que me acompanhou à Flip estava lendo esse livro.
(até então, eu nunca tinha ouvido falar em Alan Pauls, muito menos sabia que ele era um gato)
Mas, ele nem tava gostando muito do livro, esqueci de perguntar se já viu o filme...
Eu só vi Rocco uma vez e a cena que mais me impressionou foi a da morte da Annie Girardot.
Que morte bonita!
A morte mais bonita do cinema.
O Visconti é um esteta.
"Rocco e Seus Irmãos" também dá uma demonizadinha nas mulheres, não?
Ainda que indiretamente...
(ou ainda que seja uma crítica a isso)
Aquela mãe-italiana e sua família-italiana-partriarcal (ainda que sem pai!), a culpa de toda a desgraça familiar, naturalmente, é de Nadia, a puta.
Rocco foi o primeiro filme do Visconti que eu vi, e fez-se a mágica.
Acho que a cena que mais me chocou foi a do estrupro (claro!) e tenho uma paixão pela cena final, com o filho caçula vendo a foto do irmão no jornal e a manchete: "A Vitória de Rocco".
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