
" Tudo o que vale a pena, em cinema, depois de 1941, sofreu a influência de Cidadão Kane. "
- François Truffaut.
É, de longe, o filme mais citado como o Melhor de todos os tempos, ou o Mais Importante, até mesmo o Mais Revolucionário. A mais fantástica estréia de um diretor, então um jovem de 25 anos, depois largamente considerado um dos gênios do século XX: Orson Welles.
Além de todos os elogios às suas qualidades cinematográficas, Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), é também um daqueles filmes que parecem atrair histórias intrigantes em torno de si, desde mesmo antes de sua estréia, quando surgiram as primeiras especulações de que a inspiração de Welles para criar seu magnata da imprensa seria o todo-poderoso William Randolph Hearst; passando pela análise de Pauline Kael, com sua polêmica tese da real autoria do filme - no maravilhoso artigo "Criando Kane "(publicado em 1971 no The New Yorker).
E ainda hoje, passados mais de 60 anos de seu lançamento, novamente o filme vira notícia. Desta vez, menos gloriosa, para alguns, mas, ainda assim, interessante.
Como não é raro acontecer, o filme de Orson Welles não foi unanimemente apreciado em sua própria época, como depois seria. Seria até indicado a vários Oscars em 1942, inclusive ao de Melhor Filme, mas receberia apenas um: o de Melhor Roteiro Original, concedido a Orson Welles e Herman J. Mankiewicz.
Menos de 10 anos depois de receber a estatueta, o diretor/ator/roteirista do filme a usaria, numa atitude das menos usuais (para outros colegas dele, ao menos), como forma de pagamento a um técnico, que com ela ficaria até 1994, quando foi colocada em leilão pela Sotheby's. Beatrice Welles, filha e herdeira de Orson, processou, à época do leilão, tanto o tal técnico quanto a Sotheby's, mas seria também processada dela Academia, que concede os Oscars e prefere manter as estatuetas fora do mercado. Beatrice enfim ficou com o prêmio do pai, mas doou-o depois a uma organização, que, este ano, o colocaria novamente em leilão, pela mesma Sotheby's.
Para encerrar - ? - a epopéia da estátua dourada, o leilão aconteceu este mês, no dia 11, em Nova York.
And the Oscar went to...
ninguém!
Nenhum comprador aparentemente se interessou pelo prêmio, pelo qual se esperava algo entre 800.000 e 1.200.000 dólares.
A estátua parece, assim, seguir a trajetória do próprio Orson Welles, cuja genialidade despertava sempre tantas expectativas que suas realizações acabavam por parecer menores, em comparação com o que deveria ser seu destino.
Como uma grande promessa não cumprida.
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