sábado, 30 de junho de 2007

sem novidades no front


Ainda tentando me atualizar em relação aos filmes em cartaz, ao mesmo tempo em que escapo mais um pouco do Parque do Povo, fui ontem assistir, sem muitas opções, ao suspense Um Crime de Mestre (Fracture, 2007).
Dirigido por Gregory Hoblit - de quem antes só vi As Duas Faces de Um Crime ( Primal Fear, 1996), bem melhor - é mais um daqueles filmes de tribunal, em que criminoso-inteligente-e-maquiavélico-digladia-com-advogado-brilhante, sem muitas novidades, mas com mais uma boa atuação de Ryan Gosling, sempre interessante.
Há alguns anos eu achava que qualquer filme com Anthony Hopkins já seria no mínimo bom, a priori. Talvez isso tenha acontecido com muito mais gente no mundo, a ponto do grande ator galês ficar sabendo e resolver requentar um pouco alguns maneirismos de seu personagem mais famoso - Dr. Hannibal Lecter, claro - repetindo-se e repetindo-se...
Aqui não é diferente, e até achei que, em alguns momentos, ele fosse dizer que o advogado vivido por Ryan Gosling usasse "L'Air du Temps, but not today"(não disse). Mas está longe de ser um mau ator, e talvez o problema seja do roteiro, um tanto mirabolante demais, até para esse tipo específico de filme.
Há também, sempre discreto e bem, David Strathairn - num papel menor, ainda que importante.
Mas a melhor coisa do filme é mesmo Ryan Gosling, de longe.
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estrelas para mim


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

Adília Lopes,
A propósito de estrelas.
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imagem: Noite estrelada, de Vincent Van Gogh.
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solitude standing


Às vezes me sinto muito só.
Sem ontem e sem amanhã.
Não adianta que haja pessoas em volta de mim.
Mesmo as mais queridas.
Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo.
Estou muito só hoje.
Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei.
Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor.

Antônio Maria,
em seu Diário.
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Ando apaixonada por Antônio Maria, desde que o descobri nos livros de Ruy Castro e lendo sobre Danuza Leão, com quem ele foi casado - garota de sorte!

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sexta-feira, 29 de junho de 2007

melhor é impossível


Em uma cena de Os Sonhadores (The Dreamers, 2003), o filme (mais) cinéfilo de Bernardo Bertolucci, Theo (Louis Garrel) lê para Matthew (Michael Pitt) um trecho do livro que estava lendo. À leitura segue uma discussão que reproduz uma das mais acirradas disputas entre os amantes do cinema mudo:

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Theo - " A diferença entre Keaton e Chaplin é a mesma que entre prosa e poesia, o aristocrata e o vagabundo, a excentricidade e o misticismo, entre o homem como máquina e o homem como anjo." Não é ruim, é?

Matthew - Não, só que, para mim, não há comparação.

Theo - Por quê? Porque Chaplin é incomparável?

Matthew - Não. Porque Keaton é incomparável.

Theo - Keaton? Acha que Keaton é melhor que Chaplin?

Matthew - Sem dúvida.

Theo - Não fala a sério.

Matthew - Claro que sim.

Theo - Está doido.

Matthew - Ora. Não vai negar que Keaton seja mais engraçado que Chaplin.

Theo - Claro que vou.

Matthew - Não acha Keaton mais engraçado?

Theo - Ninguém é mais engraçado que Chaplin.

Matthew - Keaton é. Até quando não faz nada. Ele parece com Godard. Keaton é um cineasta de verdade. Chaplin só liga para sua atuação, seu ego.

Theo - Bobagem.

Matthew - Não é.

Theo - É sim. Às vezes penso que os americanos não entendem a própria cultura. Não é à toa que não entendem Jerry Lewis.

Matthew - Nem me fale de Jerry Lewis.

Theo - Escute. Chaplin sabia fazer uma bela tomada quando queria. Melhor que Keaton; melhor que qualquer um. Lembra da última cena de Luzes da Cidade? Ele olha para a vendedora de flores, ela olha para ele. Não esqueça que ela era cega, que o está vendo pela primeira vez. É como se, através de seus olhos, nos também o víssemos pela primeira vez. Charles Chaplin, Charlot, o homem mais famoso do mundo. É como se nunca o tivéssemos visto antes.

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O argumento final de Theo encerra a discussão, e a imagem que temos do rosto de Matthew expressa no mínimo dúvida, onde antes havia tanta certeza, sobre os dois comediantes, dois dos maiores gênios do cinema.
Talvez não tenha visto muito de Buster Keaton - vi menos do que de Chaplin, certamente - mas estou do lado do belo Theo: Chaplin era mesmo o maior deles. "Uma espécie de Adão, de quem todos descendemos", como já disse dele outro gênio do cinema, o italiano Federico Fellini.
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imagem: o grande encontro, após décadas: Charles Chaplin & Buster Keaton contracenam pela primeira vez, sob a direção de Chaplin, em Luzes da Ribalta (Limelight, 1952).
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a sorta fairytale


Eles não seriam heróis se fossem infalíveis.
Na verdade, não seriam heróis se não fossem pobres coitados, os párias da Terra, e portanto a única razão para se erguer um ídolo é derrubá-lo novamente.

(Lester Bangs)
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A indústria cultural é assustadoramente eficiente em fazer exatamente isso: erguer e derrubar ídolos, muitas vezes inflando-lhes o ego, transformando corpos e rostos em ideais de beleza, criando imagens ideais. E quando a pessoa vem à tona, sem que respeite à risca o que lhe foi traçado, muitas vezes a recepção é proporcional, em recusa.
Mas é geralmente assim também aqui, deste lado da tela.
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imagem: Marilyn Monroe & Montgomery Clift, belos & malditos, em Os Desajustados (The Misfits, 1960). Pinos redondos em buracos quadrados.
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quinta-feira, 28 de junho de 2007

tempo de diversão


E, finalmente, um filme mais leve!!
Não é tão bom nem tão engraçado quanto os dois anteriores, mas ainda assim Shrek Terceiro ( Shrek the Third, 2007) é divertido, passa rápido e provoca algumas boas gargalhadas. Além de ser sempre muito engraçado ficar descobrindo quem são os personagens das histórias infantis que aparecerão( e como será a aparição!)
O filme tem sido criticado, mas as comparações são inevitáveis quando se trata de filmes de tanto sucesso e realmente tão bons como os dois primeiros do ogrão verde. Se o primeiro Shrek (2001) tinha um divertidíssimo clima de humor inteligente e cheio de irreverência, além da idéia original de preferir deixar a princesa Fiona em sua forma "borralheira", anti-Barbie, e o Shrek 2 (2004) tinha mais a presença do irresistível Gato-de-Botas latin-lover com voz de Antonio Banderas, este mais novo não tem nada tão marcante, nenhuma grande novidade, e umas piadas meio forçadas (e, maior crime, não muito engraçadas).
Mas continua, entre outras qualidades, com uma trilha sonora muito melhor que as costumeiras para animações: nada melosa - com direito a Paul McCartney e sua Live and Let Die cantada por um coro de sapos!; além de Damien Rice (uma substituição a altura de Rufus Wainwright cantando Leonard Cohen, num dos anteriores).
E eu ri muito - o que não é muito difícil, mas é sempre ótimo!
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imagem: God save the Queen...
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terça-feira, 26 de junho de 2007

a pedra do reino



A vida deve ser enfrentada por duas coisas: o galope do sonho e o riso do cavalo. É uma tentativa de fundir o humorístico, o cômico, com o poético, o dramático. (...) A alma humana é dividida em dois hemisférios: o palhaço e o rei. É pelo caminho do hemisfério rei que realizamos o que de mais elevado, nobre e generoso existe dentro de nós. Mas, se o homem deixa o universo do rei predominar, o homem chega á a desumanidade. Quando sinto que meu hemisfério rei está predominando, o palhaço que, graças a deus, eu tenho dentro de mim, dá uma cambalhota, faz uma careta para o rei e me liberta dessa carta excessivamente pesada.

Ariano Suassuna.
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imagem: Don Quixote, de Pablo Picasso.
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segunda-feira, 25 de junho de 2007

embriagai-vos!


"De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor!"

Assim aconselhou Charles Baudelaire, o Pai do Simbolismo Francês, o criador da Poesia Moderna.
Baudelaire lançava há exatos 150 anos uma obra revolucionária para a poesia, iniciando uma nova época, uma nova poética, uma nova beleza: ele lançava, em 25 de Junho de 1857, o escandaloso As Flores do Mal.
Alvo de grande polêmica então, o livro foi mutilado - retiraram-se dele seis poemas - e seu autor multado. Mas nada impediria que se tornasse um clássico da literatura francesa e mundial, capaz de influenciar gerações & gerações de "poetas malditos", como Mallarmé ou Rimbaud.
Uma das belezas da obra:


Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatoz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

O Albatroz,
Charles Baudelaire (traduzido por Guilherme de Almeida).
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imagem: La Promesse, de René Magritte.
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domingo, 24 de junho de 2007

amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada


Já está no finzinho o dia, e logo virá o dia 25.
Mas hoje ainda é 24 de Junho, ainda é Dia de São João.
E este tem sido um dos meses de Junho mais felizes dos últimos anos - apesar dos posts tristes daqui, que em parte são do meu "eu lírico", ou da minha "metade obscura", sei lá...
O fato é que há séculos não tenho mais ido dormir chorando, e, apesar de ainda ter os momentos de tristeza (misturados a uma sensação de tempo e sentimento perdidos), eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera!

\O/
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não é engraçado a gente ser assim, sozinha?

A vida só é possível
reinventada.

Estes versos de Reinvenção, de Cecília Meirelles, ficaram na minha cabeça enquanto apareciam os créditos finais de Françoise (2001), o curta-metragem de Rafael Conde, baseado em um conto de Luiz Vilela.
Com três atores apenas no elenco - Débora Falabella e seu pai, Rogério Falabella, e Fernando Ernest - o filme mostra o encontro, em uma rodoviária, local dos mais propícios à solidão, de dois personagens solitários, dois perdidos numa noite suja: um homem que espera o ônibus para o Rio e uma garota que parece ficar sempre ali.
Praticamente só ela fala, contando coisas de sua vida: memórias, sonhos, impressões, para um encantado interlocutor.
Parece bobo, mas é tudo tão exato, tão docemente melancólico, tão bem interpretado - Débora Falabella, como a Françoise do título, é encantadora, comovente - que se torna irresitível, quase uma pequena obra-prima.

Aqui:

http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=560
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for no one


O encontro foi constrangedor.
Ela ficou de cabeça baixa
esperando ele se aproximar.
Ele não veio, faltou coragem,
e ela, então, se foi.
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Desde que vi, há alguns meses, 2046 - Segredos do Amor (2046, 2005), achava que seria difícil ver outro filme com imagens de beleza tão sufocante, de tanto impacto.
Mas hoje, novamente pelas mãos de Wong Kar Wai, me vi arrebatada pelas imagens, pela música, pelo clima de Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love, 2000), que traz a história anterior ao 2046, que o motiva.
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Eu fico imaginando como eles começaram.
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A sra. Chan (Maggie Cheung, maravilhosa em suas roupas belíssimas e sua seriedade) e o sr. Chow (Tony Leung, apaixonante) começam o filme se mudando para apartamentos vizinhos, onde ficarão a maior parte do tempo solitários, um tanto ignorados pelos respectivos cônjuges.
Os pares dos dois não são revelados, aparecem apenas em voz e em presença(ou ausência?) - apenas a sra. Chow ainda é vista, em algumas poucas cenas. Mas o peso deles estará sempre ali, a partir do momento em que os vizinhos descobrem que eles estão tendo um caso.
Aliás, é uma das cenas mais melancolicamente irônicas do filme: um dos indícios da traição é uma bolsa que a sra. Chow tem, igual à de Su Li-zhen (a sra. Chan). Su Li trabalha em um escritório, e costuma ajudar seu chefe a despistar a esposa, enquanto ele se encontra com a amante; em uma cena anterior, ele lhe pede que compre duas bolsas, uma para cada uma, e que "podem até ser da mesma, não fará diferença", ela lhe diz.
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Nós não seremos iguais a eles.
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O envolvimento, nunca explicitamente sexual, entre os dois traídos, inicia-se sem muita emoção, marcados por jogos em que um procura ser como imagina que seria o cônjuge do outro. Como se Wong Kar Wai dissesse : "Estão vendo? tudo é cinema, enfim!" Mas logo vêm o desejo, o amor, os boleros na voz de Nat King Cole (cantor favorito da mãe do cineasta). São muito interessantes os "ensaios" que o casal faz, de encontros e despedidas, em que acaba por se revelar toda a carga de sntimentos despertados. E aqui o título original é bem mais feliz que o clichê da versão brasileira: in the mood for love, "no clima para o amor".
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Eu só queria saber como eles começaram.
Agora já sei.
As emoções começam por acaso.
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O sr. Chow decide, a certa altura, mudar-se do apartamento vizinho ao da "cúmplice", para assim talvez terem mais liberdade, sem despertar suspeitas. É quando se muda para o apartamento 2046, que ficará sempre lembrado - a razão do título do filme seguinte.
O filme não tem um final feliz, os amantes não têm o destino que desejavam, mas não se fica triste ante a separação deles. É tudo tão belo, tão nostálgico, acaba-se achando bonita até a melancolia da desilusão amorosa.
Bonita como as roupas de seda de Maggie Cheung, como as cenas em que ela e Tony Leung cruzam nas escadas, lentamente, como os boleros que estão por todo o filme - e talvez não seja à toa a trilha ser tão latina, tão passional e romântica, em contraste com a rigidez contida dos costumes orientais.
Afinal, o que seria do amor e das desilusões amorosas sem as músicas românticas? O mesmo que o cinema sem filmes como os de Wong Kar Wai.
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Ele se lembra dos anos passados...
como se olhasse por uma janela embaçada.
O passado é uma coisa que ele vê,
mas não toca.
E tudo o que ele vê é borrado e indistinto.
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que este amor não me cegue nem me siga


O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso amor!


Dante Milano,
Poema do falso amor.
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imagem: Sua Alteza Sereníssima, o Príncipe Rainier, de Mônaco, casa-se com sua estrela-princesa, Grace Kelly, em 1956.
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sábado, 23 de junho de 2007

o fel da mágoa ressentida


Em uma edição de O GLOBO de alguns dias atrás, mais um daqueles jornais que eu vou comprando & deixando pra ler depois, havia um pequeno trecho de uma entrevista que deveria ter lido antes. E com cuidado.
A entrevistada é a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora de um livro chamado A Cama na Varanda (que não conhecia, nunca li), atualmente sendo relançado em edição revista e ampliada.
O que me atraiu:

OG - O que mudou nas relações?
RNL - O amor romântico, este amor idealizado de novela, está saindo de cena. E está levando com ele as exigências de exclusividade sexual. Cada vez menos pessoas vão se fechar numa relação a dois. A tendência agora é o poliamor.

OG - É novidade amar mais de um ao mesmo tempo?
RNL - Os poliamoristas, e isso já existe no mundo inteiro, não são pessoas casadas que transam escondido com outros. Eles não têm ciúmes, ficam contentes em, por exemplo, saber que sua mulher está amando e sendo amada por outros. A tendência agora é a de as pessoas terem parceiros para assuntos variados: um para ir ao cinema, outro para transar, outro para viajar...
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Mais uma que confirma as mais recentes pesquisas, segundo as quais eu teria uma idéia equivocada sobre o amor ou, ainda pior, não saberia amar direito.
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imagem: François Truffaut dirige Isabelle Adjani, em A História de Adèle H. (L' Histoire d' Adèle H., 1975).
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sexta-feira, 22 de junho de 2007

no tempo da delicadeza

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http://www.youtube.com/watch?v=3JS4JMY0JWM
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perdoai-os, pai; eles não sabem o que fazem (Lc, 23, 24)


Poucas vezes ao longo do ano se ouve falar em Campina Grande em rede nacional. No mês de Junho se torna um pouco mais comum, graças ao Maior São João do Mundo, uma festa realmente divertida e agregadora, apesar de um tanto repetitiva e pasteurizada, com o passar dos anos e a invasão dos palcos por bandas de forró nada autêntico, "de plástico", mesmo.
Mas esta semana, em pleno mês dos festejos mais célebres daqui, temos o desprazer de ver a cidade como notícia, nacionalmente, na Folha de São Paulo e no Jornal da Globo, só pra dizer o que eu vi. Não falando de festas, ou de forró, nada que lembre alegria e união de pessoas.
O que virou notícia foi algo bem oposto: o preconceito.

Há algumas semanas todos têm visto, em vários locais da cidade, dez outdoors em que há escrito: HOMOSSEXUALISMO - "E fez Deus homem e mulher e viu que era bom"! Embaixo, a referência bíblica de onde se retira o trecho (do Gênesis), e um endereço virtual.
Logo se soube a origem dos cartazes: uma campanha movida pela ONG Visão da Nova Consciência Cristã (VINACC), com propósitos bem evidentes, carentes de tolerância (uma virtude das mais cristãs) mas cheios de homofobia.
A reação logo veio, por parte de diversas entidades ligadas aos movimentos GLS e aos Direitos Humanos, até que, há poucos dias, uma juíza da cidade determinou, por liminar, a retirada dos tais outdoors ( o que ainda não foi feito), sob pena de multa, e também proibindo a realização de um ato público "contra o homossexualismo, em defesa da família" , que estava programado para a manhã de hoje.

Até o forró de plástico seria melhor que isso.
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quinta-feira, 21 de junho de 2007

alguma sombra de beleza


Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado; músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão,
Um tísico profissional.

Manuel Bandeira,
Auto-Retrato.
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cada vez gosto mais dele.
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quarta-feira, 20 de junho de 2007

chamem o conselho tutelar!


Qualquer pessoa que teve seu "gosto cinematográfico" definido em sua maior parte na década de 80 foi afetada pela beleza inacreditável de Nastassja Kinski.
Tess(1980), A Marca da Pantera (Cat People, 1982), Os Amantes de Maria (Maria's Lovers, 1984) - este , até hoje o meu favorito - eram filmes a que sempre se queria assitir, nem que fosse só para ver o tão falado ar felino da atriz alemã, e talvez tentar imitá-la... Já ao final da década Nastassja não era mais tão celebrada - após filmes ruins ou fracassados, mesmo trabalhando com alguns dos mais conceituados diretores da época, como Polanski, Coppola ou Wim Wenders; casamentos conturbados e crises de depressão - mas continuava bela e misteriosa, ainda atraindo a atenção dos fãs.

Um ponto incompreensível, mas que até contribuía também para o mito, era o pai da atriz.
E que pai! Feio, irascível, temperamental, quase louco, megalomaníaco, grande ator: Klaus Kinski, o melhor inimigo do diretor alemão Werner Herzog.
Alguns dos filmes mais importantes do Novo Cinema Alemão traziam KK no elenco, em grandes atuações e geralmente com personagens tão perturbados quanto se imaginava que ele próprio fosse. Ele foi Aguirre, Fitzcarraldo e, o melhor de todos, Nosferatu, na versão mais trágica e melancólica que o vampiro já teve no cinema, sempre sob a direção de Herzog. Antes dessa fase, ninguém apostaria muito naquele ator polonês esquisito e horroroso, que só fizera algumas pontas em Doutor Jivago (Doctor Zhivago, 1965) e em spaguetti -westerns italianos.

A filha estrearia com outro diretor-símbolo do período, Wim Wenders, em Movimento em Falso (Falsche Bewegung, 1975), e daí partiria para uma carreira internacional, com filmes europeus e americanos de irregular qualidade e bilheterias variáveis. Mas com direito a uma foto lendária feita pelo genial Richard Avedon, em que aparecia deitada na areia, enrolada em uma cobra enorme, numa das imagens mais belas e vistas do início dos '80, e a uma capa da revista TIME, feito raríssimo para uma atriz européia, em que era apresentada como uma "criança sensual que amadurece".


O momento em que Nastassja começou a fazer sucesso(o final da década de '70) marca também - e não deve ser coincidência, já que nada é, nunca - uma fase de grande valorização da sensualidade em atrizes e modelos cada vez mais jovens. Basta lembrar de Jodie Foster aos 13 anos, como a prostituta adolescente Iris, em Taxi Driver (1976), obra-prima de Scorsese, ou Mariel Hemingway aos 15, em Lipstick, a Violentada, também de '76. E ainda: as fotos de David Hamilton, cheias de ninfetas; Roman Polanski (que namoraria a Nastassja de 15 anos) e seu escândalo ao seduzir uma menor, crime até hoje em aberto. E, claro, a pretty baby Brooke Shields, que vestia seu jeans Calvin Klein sem nada mais, num famoso comercial de TV.
Na época não se falava tanto em pedofilia, e o sensualidade de meninas/ adolescentes não era mesmo nenhuma novidade, anos após a Lo-li-ta de Nabokov e, mais tempo ainda, após Lewis Carroll e as menininhas que ele retratava. Então não era tão chocante. Ou, mais exatamente, era mais escândalo do que choque o que se conseguia, e daqueles escândalos que vendem, atraem e fazem sucesso.
A imagem de Nastassja, sempre muito sexualizada, foi usada à exaustão - como em A Marca da Pantera, que perdeu grande parte do charme do original Sangue de Pantera (Cat People, 1942) devido ao tom mais explícito.
E foi usada até por seu pai, ao insinuar um ligação incestuosa entre ambos em sua autobiografia All I Need Is Love (e quem não há de?), poucos anos antes de falecer, em 1991. Nastassja contestaria a declaração do pai, o processaria e, quando ele morreu, ela ainda não falava com ele.

Uma história tão conturbada quanto faziam sugerir os personagens de Klaus Kinski nas telas.
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imagem: os dois, há muitos anos.
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a literatura é o catálogo de vidas possíveis.

Contardo Calligaris.
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segunda-feira, 18 de junho de 2007

sabina

Os homens às vezes dizem das mulheres que elas são frias e sem coração. Outras vezes dizem que são carentes demais e exigentes. Não sei das outras mulheres, só sei de mim. E, sobre mim, digo que muitas vezes fui fria e sem coração, mas até hoje não sei como evitar um mecanismo cruel que faz com que os caras que trato mal me adorem, mas, quando gosto de algum, de repente fico carente e ele pára de gostar de mim. Meus olhos mudam para uma espécie de visão de raio X, e começo a ver, em cada gesto que ele faz, que está me deixando; ver isso é doído. Por algum tempo até faço que não vi. Tento me convencer que ele está preocupado com outra coisa, que sou carente, que invento coisas. Depois às vezes compro umas roupas, me arrumo, porque dizem, e parece verdade, que a mulher sempre decide: enquanto ela quer, ela segura o homem ao lado dela. Só que chega um dia - quantas vezes? quantas vezes vou ter que fazer isso? - chega um dia que a gente cansa. Cansa de estar sempre pensando em tudo, controlando tudo pra que aquele homem não vá embora. A gente simplesmente cansa.
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silly love songs


Coisas nada originais para dizer ao falar em sir Paul McCartney:

. o beatle mais bonito;
. o beatle das composições mais melodiosas, o mais romântico deles;
. o beatle mais bem sucedido, pessoal e musicalmente;
. hoje ele não é mais 64!

São clichês, mas, como costuma acontecer com os clichês, as frases acima são verdadeiras e, ao mesmo tempo, não bastam para definir um dos mais importantes músicos do século XX, responsável por algumas das mais belas canções dos Beatles, e algumas das mais belas baladas da música pop em todos os tempos, como Yesterday, The long and winding road, For no one...
Se hoje é mais unânime, durante certo tempo Paul conviveu com uma fama pouco elogiosa: ele seria o responsável pelo fim da banda de rock mais revolucionária e mais querida do século, ao tentar estabelecer suas idéias de lucro sobre as opiniões do idealista John Lennon. Afinal, se o clima entre os quatro já não ia muito bem, no final dos anos 60, piorou com a contratação do sogro de Paul para cuidar dos negócios dos Beatles, e Linda McCartney, sua esposa, não era muito bem vista pelas fãs apaixonadas e ciumentas - ser uma beatle wife não devia ser muito fácil...e os fãs dos Beatles são reconhecidamente os mais chatos do Universo, em árdua competição com os de Elvis!
Foi Paul também que, em abril de 1970, ao escrever uma espécie de auto-entrevista para a imprensa, ao ser lançado o último álbum da banda, Let It Be, revelaria que estava farto do que considerava ser uma mentira e, assim, anunciava o fim da banda:

"- Seu rompimento com os Beatles é temporário ou definitivo? Ele se deve a diferenças pessoais ou musicais?
"- Pessoais, comerciais... Mas aconteceu sobretudo porque, para mim, é melhor estar com a família. Se é temporário ou definitivo? Não sei.
"- Você prevê que Lennon & McCartney possam voltar a ser uma parceria ativa na composição?
"- Não."

Ao lançar seu primeiro disco solo, McCartney, logo depois de Let It Be, Paul "confirmaria" o papel de responsável pelo fim da banda, e ocuparia, ao lado da imbatível Yoko Ono, um temporário lugar entre os "vilões", para os beatlemaníacos. Os mesmos, aliás, que estavam certos e cheios de provas de que ele morrera em 1965, em um acidente de carro (isso é outra história).
Mas nada como um dia após o outro...
Paul continuaria a produzir belas canções, sozinho ou com sua nova banda, os Wings, e continuaria amado e respeitado (concorrendo até ao Oscar de Melhor Canção), admirado por sua participação em campanhas humanitárias e ecológicas, e se tornaria um dos músicos mais ricos do mundo.
Em plena forma aos 65 anos, o inglês James Paul McCartney ainda pode celebrar hoje o fato de estar com novo sucesso: o CD Memory Almost Full, lançado em junho último, segue cheio de elogios da crítica e é um dos mais vendidos nos EUA e na Inglaterra.
Parabéns, Paul!!
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imagem: Paul & Linda, claro! (Heather não, please!)

domingo, 17 de junho de 2007

cadê a minha estrela bailarina?

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dúvida (iii)

de onde vem o otimismo?
onde ele está quando mais precisamos?
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c'est un ruban de soleil qui s'enrole sur ta main


A tarde ardia com cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte,
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
"Desce! Chega de vadiar nessa fornalha!"
E grito ao sol:
"Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
E eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!"
E grito ao sol:
"Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?"
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
"Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!"
Lágrimas na ponta dos olhos
- o calor me fazia desvairar -
eu lhe mostro
o samovar:
"Pois bem,
sente-se, astro!"
Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluia sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta
etc.
E o sol:
"Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!"
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro,
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
"Somos amigos,
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir,
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu,
com seus versos."
O muro das sombras
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama;
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan,
e o do sol.

Vladimir Maiakovski,
A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha .
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imagem: ele.
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sábado, 16 de junho de 2007

f for fake


Uma das comunidades mais interessantes que acho no Orkut foi criada por uma de minhas ídalas, a minha colega e prima Melania, e chama-se "Eles Nunca Disseram Isso". Lá se discutem aqueles textos, frases, citações, muitas vezes difundidos ad nauseum como sendo de alguém já consagrado - comumente Mario Quintana, Luis Fernando Veríssimo, Shakespeare! - mas sem que a autoria seja verdadeira. Às vezes nem são de todo ruins os tais textos ( a maioria é, indeed, ruim de doer!), mas o que incomoda mesmo é a mentira, a intenção de enganar o leitor neste mundo cheio de "Ctrl C /Ctrl V".
E, quando uma pessoa razoavelmente bem informada (e orgulhosa disso...) cai em uma dessas armadilhas, tornadas endêmicas com a internet, é mais ridículo ainda! É de dar raiva. E digo isso por experiência própria(grrrrrr).
Estou pensando nisso desde que prestei mais atenção a alguns versos que li e gostei, atribuídos ao russo Vladimir Maiakovski, e que agora me parecem estranhamente fakes.
Vamos à matéria...

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Talvez os versos mais conhecidos do poeta sejam:

brilhar pra sempre
brilhar como um farol
brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar
este é o meu slogan
e o do sol.

Até aí, tudo bem.
O problema é que antes destes foram colocados mais alguns, e estes é que não parecem ter a mesma nobre origem...

todos os amores deveriam ser possíveis.
pessoas não deveriam chegar,
nem antes, nem depois
tudo deveria ser exatidão.
pontualidade vital
para que o amor aconteça.
a terra deveria girar
com esse único propósito:
o encontro das almas.
o resto seria resto.
e tudo seria para sempre.

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Problema criado, vamos às pesquisas de campo, que mostraram:


# nenhum registro confiável da autoria dos versos acima;
#os primeiros são muito difundidos, e são uma tradução do concretista Augusto de Campos, geralmente antecedidos de apenas um outro verso: a tarde ardia com cem sóis, após o qual viriam *****, indicando elipse de alguns trechos do poema, e então os outros, os tais do brilho.
# este poema seria A porta do sol, de Maiakovski e Robert Delaunay, datado de 1923, e teria origem no bem maior A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakovski no verão na datcha. A partir deste poema, que fala de um fantástico encontro com o sol, o poeta faria, segundo Augusto de Campos, "um gigantesco caligrama do sol": "uma das portas internas de apartamento de Delaunay, em Paris, foi dividida em quatro retângulos coloridos, contendo um grande círculo central, no qual se escrevem a primeira e as sete últimas linhas do texto".

Afe...

O pior é que cheguei a copiar o poema aditivado em uma correspondência amorosa, há alguns meses, sem a menor desconfiança de estar enganada(em relação ao poema).
Pensando bem...
...é, não valia mesmo a pena colocar outras verdades ali.
Desculpe, Maiakovski.
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...e deus criou a mulher!

Alguns atores e atrizes estão sempre nas minhas listas de favoritos, mesmo quando nem fazem tantos filmes bons. É a minha cinefilia afetiva, aquela que dá prazer ao ver um filme, que faz ter curiosidade e procurar informações, que faz amar o cinema, enfim.
Jane Birkin é uma dessas atrizes, e com o bônus de também ser admirável como cantora, além de ter uma história daquelas!
Inglesa nascida em Londres - em 14 de Dezembro de 1946 - Jane Birkin tem sua carreira bem mais ligada à França, onde passou a morar a partir da década de 70. E o motivo da mudança foi dos melhores: Jane se casara, no final dos anos 60, com o mitológico ator/cantor/compositor Serge Gainsbourg, pai de sua filha Charlotte, hoje cantora e atriz cult.
Com pouco mais de 20 anos, Jane se tornava famosa mundialmente, ao fazer com que Gainsbourg esquecesse sua musa anterior, ninguém menos que Brigitte Bardot! Para BB ele fizera uma canção que até chegaram a gravar, mas a francesa não gostara do resultado e não permitiu que fosse a público, o que o levou a gravá-la, mais tarde, ao lado de sua jovem esposa - e quem imagina a sussurrante Je T'Aime ... Moi Non Plus com outras vozes?
Escândalo!
Sucesso!
E Jane agora era uma estrela!
Ficaria casada com Gainsbourg por muitos anos, com ele gravaria discos antológicos, faria um filme também escandaloso : Paixão Selvagem (Je T'Aime... Moi Non Plus, 1976), em que se explorava sua imagem de sensual androginia - Jane muitas vezes lembra uma espécie de Mick Jagger em versão feminina. E o trocaria pelo francês Jacques Doillon, pai de sua filha Lou Doillon, também atriz.
É pouco? Então mais: mesmo após mais de 10 anos da separação, Serge ainda se inspiraria nela para seu disco Amours des Feintes, de 1990.
Agnès Varda a elegeria como musa na década de 80, inclusive fazendo o Jane B. par Agnès V. (1988), em que celebra a atriz como um símbolo da mulher moderna, casada três vezes e com uma filha de cada marido. Sim, antes de Gainsbourg ela já fora casada com o inglês John Barry (ele, o compositor!), pai de sua filha Kate.
Os filmes de Jane são geralmente melhores que seus papéis, e ela trabalhou com alguns dos grandes cineastas do século XX, como Antonioni (no mítico Blow-Up, de 1966), Godard (em Soigne ta Droite, de 1987), Jacques Rivette (em A Bela Intrigante [La Belle Noiseuse, 1991]), Bertrand Tavernier - aqui, junto a outro inglês de carreira internacional, o maravilhoso Dirk Bogarde, em Daddy Nostalgie(1991).
Sua carreira de cantora talvez seja mais celebrada, a ponto de, aos 60 anos, ainda ser mordeníssima, cantando maravilhosamente ao lado de ídolos jovens como o Franz Ferdinand.
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E eu quase esquecia a bolsa Birkin, criada para ela pela Hermès em 1984, outro sucesso....
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para ouvir ver:

http://www.youtube.com/watch?v=sHiMDB19Dyc
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amor, amor, estação minha


Livro do nosso amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!..."

Florbela Espanca,
O nosso livro.
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imagem: Tony Leung & Maggie Cheung, em Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love, 2000)
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sexta-feira, 15 de junho de 2007

84 charing cross road

Acabei de encontrar, assistir e me encantar com :

http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?cod=4186&exib=2636#

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na medida do impossível


Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

Murilo Mendes,
O utopista.
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imagem: Pablo Picasso, The Old Guitarist (c. 1903).
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quarta-feira, 13 de junho de 2007

lost in translation


Talvez seja mais bisbilhotice que cinefilia.
Mas o fato é que amo fotos de filmagens, ou de bastidores de filmagens; e se forem em p&b, então, se tornam irresistíveis!
Esta é do início da década de 50, durante as filmagens do fofo A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday, 1953), de William Wyler, o primeiro filme de sucesso de Audrey Hepburn, maravilhosa. Ela estava ao lado de Gregory Peck - que já era Gregory Peck, na época, astro experiente e um charme só, com sua imagem austera e digna. Mas quem brilhou mesmo foi a bela e jovem Audrey. A ponto do ator exigir que ela fosse creditada com o mesmo destaque que ele.
Praticamente estreando no cinema, já que antes fizera apenas pequenas participações em filmes (europeus) menos famosos, Audrey conquistaria público, crítica e prêmios - até o Oscar de Melhor Atriz - pelo seu papel. A princesa Anne, que em visita oficial a Roma se perde de sua comitiva e vive um romance inesperado e breve com o repórter sarcástico, vivido pelo grande ator, seria uma das imagens que se confundiriam com a própria atriz: jovem, bela, elegante, nobre e romântica. Quem não gostaria de estar em seu lugar?
O roteiro do filme era de um autor nem sempre relacionado às comédias românticas, mas sempre brilhante: Dalton Trumbo, creditado na época como John Dighton, já que estava na famigerada lista negra dos macarthistas.
E o papel de Audrey parecia inspirado na inglesa Princesa Margaret, na época também envolvida em um romance plebeu, na vida real, e que também cedera às obrigações e convenções da nobreza.
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a viagem do capitão quaderna


E começou A Pedra do Reino, finalmente!
Após meses de espera - desde que li as primeiras notícias das filmagens aqui tão perto, em Taperoá, o centro do mundo de Ariano Suassuna - pude afinal ver como ficaram as aventuras de Quaderna contadas por Luiz Fernando Carvalho, o mais artesanal e viscontiano diretor da televisão brasileira.
E como há beleza e graça, força e ousadia no que o escritor paraibano e o diretor carioca mostram nas histórias do Brasil do belo e enorme (são mais de 700 páginas!) romance original de Ariano Suassuna. Cenas impressionantes em poesia, engraçadas e líricas; soluções inventivas para o que é contado, no livro, em meio a muita fantasia e mitologia sertaneja; atuações que prometem ser muito boas (não conhecia o ator que faz o personagem principal, achei a cara do Tom Zé, e é ótimo!), mesmo que não sejam rostos tão conhecidos das novelas da Globo. Quero muito ver Everaldo Vasconcelos, que adoro e não apareceu ainda no primeiro capítulo.
A Globo, aliás, parece querer forçar um pouco para que seja uma espécie de Auto da Compadecida II, o que é um equívoco, mas a produção deve ter deixado o diretor livre para mostrar suas idéias, e ele não costuma ser muito condescendente, para sorte de quem assiste.
Luiz Fernando Carvalho declarou em entrevistas que Quaderna representa um dos arquétipos da identidade brasileira (costuma ser comparado a Policarpo Quaresma e Macunaíma), e que, para ele, representaria "o homem comum brasileiro, que não perde a capacidade de sonhar, porque se perdesse não teria coragem de pegar quatro ônibus todo dia para ir e voltar do trabalho, ganhando pouco e sofrendo todo tipo de pressão."
Lindo, lindo.
E foi para representar esse "homem comum brasileiro" que ele parece haver deixado um pouco de lado o seu amado Visconti, para abraçar o Ettore Scola do mambembe A Viagem do Capitão Tornado (Il Viaggio di Capitan Fracassa, 1990), um dos mais belos filmes da década de 90.
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imagem: a cena que abre a microssérie.
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terça-feira, 12 de junho de 2007

siammo donne

Ainda encontrando distrações & distrações pelo youtube...

http://www.youtube.com/watch?v=nUDIoN-_Hxs

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domingo, 10 de junho de 2007

rumo, estrada turva, sou despedida


Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo?
Quando eu estava bem, morta de sono.

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste?
Quando eu estava bem, morta de medo.

Por que não me deixaste adormecida?
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída.

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida?
Quando eu estava bem, morta de frio.

Chico Buarque,
Soneto.
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para ler ao som de Astor Piazzola.
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sábado, 9 de junho de 2007

dúvida (ii)

todos os ucranianos têm o cérebro em u?
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alone in the desolate dark


De volta à noite difícil de Caio Fernando Abreu, ou Caio F., como ele às vezes gostava de se chamar, acrescentando "primo de Christiane".
Porque ele também preferiu o lado escuro da lua e da vida.
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Aqui sentada abandonada
Contemplo o mundo imundo
O tudo e o nada
Assim eu estou tão cansada
Assim perdida alucinada
Sobre o verde veludo desta poltrona
Apaixonada por tudo e nada
Navego em sedas me perco em mares
Eu tão distante do mar da vida
Farta de amores
Cheia de bares
Aqui sentada incendiada
Contemplo o mundo vagabundo
O nada e o tudo
Fumar é um prazer
Toda ferida aqui parada
Quase afogada na lama verde
Veludo mudo poltrona vida
Única amiga de uma cilada
Tão colorida
Que me deixou
Aqui sentada iluminada
Contemplo o mundo o mal o bem
O tudo o nada e o mais além
Vou pra não voltar

Poltrona Verde,
uma parceria entre Caio e Laura Finocchiaro, gaúcha como ele e amiga do escritor.
A música é inspirada no romance Onde Andará Dulce Veiga? , de Caio, que tem uma das personagens - Márcia F. - inspirada, por sua vez, na irmã mais velha de Laura, Lori F. .
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segunda-feira, 4 de junho de 2007

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o que falta à nossa época é a gratuidade, fazer algo por nada.

Françoise Sagan.
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even if I am in love with you


Dois mitos do século XX tiveram há pouco revelada parte de sua correspondência, fruto de uma relação de amizade que durou quase 30 anos, da década de 30 até 1961, ano em que um dos amigos faleceria - o escritor americano Ernest Hemingway.
A sua correspondente? - a atriz alemã Marlene Dietrich, uma das grandes estrelas do cinema em sua chamada "época de ouro", com bela carreira nos EUA e grandes papéis com grandes cineastas (Hitchcock, Billy Wilder, Orson Welles...).
Não deixa de ser uma certa invasão de privacidade a leitura de cartas alheias, mas pessoas tão interessantes dificilmente deixariam de atrair a atenção, e os trechos que já foram divulgados são mesmo ótimos. Os dois foram amigos e apaixonados platônicos ao longo de todo o tempo de correspondência, numa relação descrita pelo escritor como uma "paixão assíncrona": sempre que um deles estava livre, o outro não estava, e assim foram, trocando cartas, intimidades e pequenas declarações de amor, agora revelados (ao menos o que escrevia o autor de O Velho e o Mar, entre outros clássicos da literatura americana).
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Hemingway:
" Sei de muitas fofocas, algumas até verdadeiras. "
(26. setembro. 1949)

" O que você realmente quer para o trabalho de uma vida?
Quebrar o coração de todos por dez centavos?
Você sempre pode quebrar o meu por cinco, e eu trarei a moeda. "
(19. junho. 1950)

" Você e eu vivemos as piores épocas de todos os tempos.
Não quero dizer só as guerras.
Guerras são espinafre.
A vida em geral é a parte difícil."
(27 . junh. 1950)

" Também, se não houver problema, não gosto muito do Prêmio Nobel. Eles dão a você aquele dinheiro; mas o dinheiro se perde nos dados e o resto é dor de cabeça e milhares de cartas."
(24. março. 1955)
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imagem: Marlene Dietrich, fotografada em 1952 por Milton H. Greene.
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quino (ii)


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dúvida (i)

quantos mal-me-quer existem numa flor?
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domingo, 3 de junho de 2007

o olhar que penetra nas camadas do mundo


Para François Truffaut, que chegara a ser seu assistente no início da década de 50, tratava-se do " homem mais inteligente que já conheci".
Em um filme de Bernardo Bertolucci, em certa cena um personagem diz que "Non si può vivere senza Rossellini" ( não se pode viver sem Rossellini), bela frase que o cineata brasileiro Paulo César Saraceni afirma ser sua.
Martin Scorsese nunca deixa de citá-lo como um de seus grandes inspiradores - ao ponto de Isabella Rossellini, filha do cineasta italiano e ex-esposa do americano já haver até declarado que o então marido parecia se interessar mais pelo seu genial pai que por ela própria.
E, claro, foi por ele que Ingrid Bergman, então uma das maiores e mais respeitadas estrelas americanas, aceitou deixar a segurança do seu mundo por amor, deixando carreira brilhante, marido chatinho e filha nos EUA e resolvendo viver sua história de amor na Itália, mesmo sendo chamada de "concubina" em pleno Senado norte-americano (e de outras coisas mais, provavelmente, pela grande Anna Magnani, abandonada por Rossellini ), e exilada pelo conservadorismo macarthista.
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Mas, mesmo que nada disso fosse real, ainda assim Roberto Rossellini (nascido em 08 de Maio de 1906, em Roma) seria fundamental no cinema italiano, europeu e mundial, e definitivo seu lugar de sumo sacerdote e profeta do Neo-Realismo italiano, celebrado mesmo 30 anos após sua morte, ocorrida num outro dia 03 de Junho, em 1977.
“Para mim (o neo-realismo) é sobretudo uma posição moral em relação ao mundo. Dela, segue-se uma posição estética; mas o ponto de partida é moral.” - e não há mais o que se acrescentar às palavras do cineasta, autor de filmes essenciais como Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta, 1945), Paisà (1946), Alemanha, Ano Zero (Germania, Anno Zero, 1947) ou Francisco, Arauto de Deus (Francesco, Giullare di Dio, 1950), entre outros.
Dedicado em seus últimos anos à TV, Rossellini nunca deixou de exercer sua inteligência, seu espírito verdadeiramente cristão (mas nunca carola) e seu humanismo incorrigível, apesar das críticas e da diminuição do seu público e até do reconhecimento, em seus últimos dias de vida - nada que o tempo, senhor da razão (como fui associar Rossellini àquella camiseta?!), não tenha se encarregado de corrigir, devolvendo-lhe o prestígio merecido.
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imagem: no início dos anos 50, Rossellini & Ingrid Bergman, com os filhos Roberto (Robertino), Isabella e Isotta.
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