
Sérgio ia me emprestar "Outsiders - Vidas sem Rumo", de S.E. Hinton, mas antes me perguntava por que eu havia me interessado pelo livro.
Do alto dos meus 14 anos, meio encabulada por aquele rapaz de 20 estar me dando atenção - ainda mais alguém que tinha livros daqueles (ele tinha também Os Filmes de Minha Vida, de Truffaut, que me emprestaria depois) -, eu tinha tanta coisa pra responder, mas só consegui dizer que "ah, porque tem o filme, eu gosto de livros que viraram filmes".
Silêncio. Nada sobre rebeldia, sobre inadaptação, sobre ter lido antes "O Apanhador no Campo de Centeio" e, desde então, querer conhecer mais e mais livros ou filmes que falassem de adolescência e sua solidão. Nada sobre estar feliz por poder compartilhar leituras, impressões.
Tanto tempo depois, lembrei hoje dessa conversa. Eu não tenho mais 14 anos, Sérgio não deve ter mais o livro (eu devolvi, juro). Mas minha dor é perceber, como na música de Belchior, que ainda sou a mesma, tantos anos depois, querendo dizer coisas que não consigo, nem ao vivo nem aqui.
Do alto dos meus 14 anos, meio encabulada por aquele rapaz de 20 estar me dando atenção - ainda mais alguém que tinha livros daqueles (ele tinha também Os Filmes de Minha Vida, de Truffaut, que me emprestaria depois) -, eu tinha tanta coisa pra responder, mas só consegui dizer que "ah, porque tem o filme, eu gosto de livros que viraram filmes".
Silêncio. Nada sobre rebeldia, sobre inadaptação, sobre ter lido antes "O Apanhador no Campo de Centeio" e, desde então, querer conhecer mais e mais livros ou filmes que falassem de adolescência e sua solidão. Nada sobre estar feliz por poder compartilhar leituras, impressões.
Tanto tempo depois, lembrei hoje dessa conversa. Eu não tenho mais 14 anos, Sérgio não deve ter mais o livro (eu devolvi, juro). Mas minha dor é perceber, como na música de Belchior, que ainda sou a mesma, tantos anos depois, querendo dizer coisas que não consigo, nem ao vivo nem aqui.
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2 comentários:
Olá ! Saudades de ler os seus escritos !
Eu adorei esse. Bem sei o que é não conseguir formular que está sentindo, embora tenha a impressão de que a explicação está passeando, em algum ponto, do cérebro. De preferência, passeando escondido para não ter que dar explicações,rs;
A foto e o texto. Bette Davis e Olívia De Havilland. O centeio de Salinger e o misto quente de Bukowski.
No auge do star system hollywoodiano, algumas estrelas, mesmo acorrentadas por um meticuloso contrato, vez ou outra recusavam determinados papéis. Geralmente por acharem o roteiro fraco, evitando uma produção que buscava apenas preencher a demanda.
Ambas régias contratadas da Warner Brothers, nos anos 30, Bette, então rebelde com causa, constantemente o fazia, enquanto Olívia, então virginal, era mais dócil. Como os astros e as divas quase acreditavam na imagem deles projetada nas telas, significava o mesmo que recusar um papel social ou vesti-lo como uma luva.
Mas meros mortais não dispõem dessa possibilidade, sequer alcançam a encruzilhada Davis-Havilland. Na profissão ou no lar, no casamento ou nas relações sociais, entre parentes ou amigos, geralmente tratamos de “preencher a demanda”. O resultado é que nas grandes ou pequenas ocasiões, até mesmo nosso lado Mulher Maravilha ou Homem de Ferro surge acorrentado na fotografia. Nessas horas, ao invés de lendas do cinema, somos meros figurantes da vida.
Nada parece disponível: a força de expressar nossa vontade, o meio de jogar fora o script, a disposição de dizer não ao sistema que nos acorrenta qual um buraco negro, sem o brilho prateado do écran. Onde está nosso público, a audiência, os fãs clubes? Os recortes de revista dizendo o quanto somos maravilhosos? Qual percentual nos reserva a bilheteria do cotidiano?
Alguns se drogam ou se deprimem. Outros se seguram, se minam interiormente, mas respiram fundo e seguem em frente. Na dualidade final adentramos o boteco do nosso espírito melancólico e, no lugar da cachaça barata fazemos a escolha final pelo alimento de nossa alma: uma fatia pura de centeio ou um engordurado misto quente.
Como nossos pais...
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