sexta-feira, 29 de agosto de 2008

a vida como ela era

E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

O Primo Basílio,
de Eça de Queirós.
.

(estou vendo a minissérie de novo, e de novo achando incrível como Daniel Filho conseguiu fazer tudo tão perfeito e, quase vinte anos depois, estragar daquele jeito...)
.

Um comentário:

Roberto Souza disse...

A vida como era e como pode ser. Que distância podemos estabelecer entre ambas...

A coragem de virar as páginas em definitivo. Dar adeus às antigas e saudar as novas, com beijos, suspiros e carícias. Perceber o calor que sai de linhas amorosas, de ligações distantes, de afagos de pelúcia. Irrigar o espírito de emoções puras e plenas, assumidas como sinônimo de verdadeiras. O coração cessa de bater apenas quando não exercita sua vocação emocional, quando se torna um pêndulo repetitivo e teimoso que bloqueia a passagem do afeto e da chance de vivenciá-lo.

Mas o caso de Luísa era peculiar. Ela transitava no perigoso terreno do adultério, da culpa, da chantagem. Apesar disso ela percebeu algo diferente, um sopro renovador, e passou por cima dos riscos e das aparências. Não cabe julgar suas intenções mas sim entender suas motivações. O ardor evocado da juventude, de uma época onde os medos, se existiam, eram apenas teorias e conjecturas, enfim predominou. Os amargurados dirão que morreu de remorsos e recriminações. Os que possuem o coração palpitando de vida apontarão o fim do encanto, o predomínio do desencanto, como a genuína causa mortis.

Luísa, personagem ou símbolo, já partiu. Contudo suas lições perduram. Prinicipalmente naqueles que priorizam as intenções em detrimento das motivações, se remoendo e se recriminando de antemão pelo que aconteceu antes e sequer aconteceu depois. A experiência se torna um fardo pessoal. No entanto, as sensações afloram, cutucam nossa pele, nos dão a chance de perceber que a rigor nos fazem bem, conforme ocorreu com a heroína de Eça de Queirós. Garanto que, em algum lugar, existe alguém aprisionada por receios porém sabendo-se intimamente livre. Alguém sentindo excitada seu coração pular, sua estima entrar em ebulição, o encanto se manifestar nas mínimas coisas, o êxtase ressurgir no coroamento das percepções. Tudo regido pela certeza da mão que lhe é estendida, de braços inteiramente abertos em convite e de palavras que à ela se entregam naturalmente.

Por que não completar então a mágica transmutação se esta é uma doce realidade, ao invés de uma azeda ilusão?

O tempo continua sendo aliado...