quarta-feira, 27 de agosto de 2008

noia

Também esta noite passará

Esta solidão em torno
sombra titubeante de fios viários
sobre o úmido asfalto

Olho como os cocheiros
a meio-sono
cabeceiam


Tédio,
Giuseppe Ungaretti,
na tradução de Haroldo de Campos
.

2 comentários:

Astier Basilio disse...

Alana,
tô avisando
a todos os meus
amigos
q voltei pro endereço
antigo:
http://desliguemseuscelulares.zip.net

Roberto Souza disse...

O dia seguinte foi sombrio para Emma. Tudo parecia envolto numa atmosfera negra que pairava confusamente sobre as coisas, e o sofrimento engolfava-se em sua alma sutilmente, como o vento de inverno nos castelos abandonados. Era semelhante à nostalgia pelo que nunca voltaria, o cansaço que nos toma após cada fato consumado; a dor, enfim, causada pela interrupção de um sonho ou o cessar súbito de uma ilusão prolongada.
(Gustave Flaubert, Madame Bovary)

De Flaubert a Giuseppe Ungaretti, o lirismo é deteriorado pela angústia de viver. O cansaço e a dor da existência nos deixam vagando na escuridão da noite, num sonho acordado desprovido de substância ou lembranças:


A uva está madura e campo arado,
o monte se destaca das nuvens.

Nos poentos espelhos do verão
caiu a sombra

Entre os dedos incertos
sua luz é clara
e longínqüa

Foge com as andorinhas
o último desespero.


(Giuseppe Ungaretti, Quietude, tradução de Menotti del Picchia)


Ele achava que conhecera anos em demasia.
Na verdade, vivera trinta e dois. Era uma conta difícil de fazer, especialmente na ausência de parâmetros sólidos. Não se apaixonara pela primeira vez aos quinze ou muito menos fora pai aos vinte e dois.
(...)
As operações, diferente do resto, mostravam-se naturais. Os resultados, porém, jamais. Trinta e dois anos nada revelavam. Oito vezes quatro fazia sentido. Isso constituía um assunto que apreciaria discutir. Desde que não com um matemático. Um especialista pensa apenas no produto, na correção e validade do resultado. Preferia um insone, daqueles que ao buscarem no teto o descanso perdido, ao invés de estrelas para contar, enxergasse a realidade erguida sobre as ilusões esfareladas.


(O Calculador, autor anônimo)