Na mais bonita seqüência, Domingos [Oliveira] radicaliza o processo de se aproximar da realidade e, fingindo esatr diante da personagem Maria Alice, filma Leila [Diniz] nua. Desde a separação, não a via assim. Num quarto no hotel Quitandinha, em Petrópolis, ele varre com a câmera, como se fizesse um longo carinho de despedida, cada detalhe do corpo da mulher que, cansada das traições, o abandonara. Nenhuma vulgaridade sexy. Há apenas um close em que ela aparece com um breve esgar de riso. É apenas uma mulher nua com a naturalidade do seu sexo.
Em off, Paulo José lê sobre aquelas imagens o texto que Domingos escrevera, minutos antes, na Kombi que levara a equipe para o hotel:
(...)
A equipe tinha subido ao Quitandinha para realizar outra seqüência. A do "poema" não existia no roteiro. Leila foi no banco da frente da Kombi, e Domingos, atrás, escrevia com uma esferográfica enquanto tentava esconder as lágrimas. Mário Carneiro tentou uma piada: "É disso que eu gosto, cinema escrito à mão. Quando começa a datilografia, começa a acabar o cinema." Mas Domingos sabia, mesmo que depois visse falhas no estilo, que estava escrevendo as poucas linhas de um dos seus textos mais sérios.
Ele reconhece:
Era o último bilhete de amor. A gente não ia voltar mesmo. Leila estava em outra, embora minha paixão prosseguisse desvairada. Eu queria filmá-la nua, venerar a deusa, mostrar ao mundo o deslumbramento que sua alma e seu corpo tinham me causado. Gritar, numa palvra bela, um segredo que durante muito tempo tinha sido só meu.
Leila entendeu que a cena fazia todo o sentido - era o momento de reaproximação de Maria Alice e Paulo após a separação por causa da traição dele com a argentina - e topou fazer, o que aconteceu, segundo Domingos, "num silêncio de missa". O diretor não esquece a imagem grave de Mário Carneiro acionando a câmera. Todos sabiam da história por trás da cena e acrescentavam, com gestos mudos e delicadezas extras, um algo a mais à liturgia tradicional de filmar uma mulher nua.
"Eu gravava um plano e ia lá dentro chorar um pouco", lembra Domingos. "Por isso a comédia saiu tão boa."
Leila Diniz
(Perfis Brasileiros),
de Joaquim Ferreira dos Santos.
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Aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=PQVCDCBDYuI
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