Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.
Era uma alusão às Filipinas. Pois que não amo a política, e ainda menos a política internacional, fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da memória ou da digestão; basta-me um sono quieto e apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas.
Machado de Assis,
Dom Casmurro.
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...na espera por Capitu, que estréia amanhã.
Há duas semanas revi partes de Os Maias; vi todo o início, com a história de Pedro da Maia e Maria Monforte, pulando para o final, quando Marília Pêra já ocupa o papel que fora de Simone Spoladore.
Sempre me deslumbro com as cenas, com aquele clima meio O Leopardo, com a música do Madredeus.
Hoje É Dia de Maria e A Pedra do Reino também são encantadoras, então só posso esperar algo muito bom da adaptação de Dom Casmurro por Luiz Fernando Carvalho.
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