
Sou menos autobiográfico do que as pessoas acreditam. Tudo o que eu queria era contar uma história, e agradou-me escolher um personagem solitário, sem família, sem amigos, que só se sente bem na companhia das mulheres. Eu não o queria cínico ou cruel. Se há coisas fortes no filme, estas são unicamente frutos das situações. Minha idéia do "paquerador" não passa do que mostro. Os profissionais da paquera, não conheço. Não conversei bastante com eles. Não sei. Com certeza não teriam feito esse filme. Sem dúvida lançariam um olhar crítico sobre a minha visão do personagem. Isso me interessaria saber. Eu não quis traçar o itinerário de do paquerador empolgado com o próprio desempenho. Escolhi propositalmente um indivíduo ansioso, discreto, que evita os conflitos passando irresistivelmente de mulher em mulher, talvez por medo de se fixar, por medo de dar muito espaço a um sentimento único. Uma cena de reencontro com uma antiga relação indica claramente que outrora esse homem volúvel experimentou sentimentos de uma tal violência que adquiriu para sempre o medo doentio de senti-los novamente... Pois o paquerador é também que tem medo do amor. Esse ângulo me interessou. E depois sua maneira de ser atraído pelas mulheres é totalmente visual. É o movimento das pernas, apenas o movimento. O ritmo. Isso é tudo. O filme é construído em torno desse movimento. Todas as vezes, ele capta um detalhe do movimento aqui ou acolá e se deixa levar pelo ritmo. Não me identifico em nada com o meu paquerador. Mas, como ele, eu poderia dizer sobre as mulheres, e essa seria a minha frase mais sincera: "Esta, eu amo porque parece ter saído de um romance russo, essa outra, devido ao seu sorriso de órfã, aquela lá..."
François Truffaut,
falando sobre seu filme O Homem que Amava as Mulheres (L' Homme qui Aimait les Femmes, 1977).
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mas aquela frase de Bruno Bettelheim que serve de epígrafe ao filme é mais reveladora que as palavras do próprio diretor: "Revelou-se que Joey nunca tivera muito sucesso junto à mãe."
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