quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

a resposta é - recuso


Eu já fui uma daquelas fãs chatas de cinema que se recusam a ver em Steven Spielberg mais do que um cineasta "pipoca", de filmes "pipoca", cheios de efeitos especiais e destinados a amealhar dólares pelo mundo, sem maior profundidade.
Mas o tempo passa, o tempo voa.
E a gente cresce e vê que há poucas coisas mais burras que o maniqueísmo, e poucas coisas mais bobas que cinéfilos com cara-de-conteúdo.
Um cineasta de técnica irrepreensível, aliada a um amor ao cinema e uma cultura cinematográfica invejáveis, que estão presentes em seus filmes e em muitas de suas atitudes deste lado da tela, como financiar um octogenário [valhamenossasenhora! será que é octAgenário?] David Lean, ao final da década de '80, quando o mestre do cinema clássico tentava fazer sua versão de Nostromo, de Joseph Conrad, enfrentando a reserva dos produtores americanos. Ou realizar um filme seguindo as orientações de outro grande diretor, como fez no kubrickiano A.I. - Inteligência Artificial.
E agora, mais uma vez, Spielberg surpreende com uma atitude das mais políticas, ao renunciar ao cargo de "consultor artístico" das Olimpíadas de Pequim, a se realizarem em 2008, alegando que a China não está pressionando suficientemente o seu aliado Sudão no sentido de o país por fim ao "continuado sofrimento humano" que se prolonga na região do Darfur. Segundo Spielberg, a situação é grave e urgente, tendo morrido mais de 200 mil pessoas, e chegando a dois milhões o número de refugiados: "A minha consciência não me permite continuar a trabalhar como antes."
Ele diz, em sua declaração: "Neste momento, o meu tempo e a minha energia devem ser gastos, não em cerimônias olímpicas, mas em fazer tudo o que puder para por fim aos indescritíveis crimes contra a humanidade que continuam a ser cometidos no Darfur." E ainda: "O governo do Sudão é o principal responsável por estes crimes, mas a comunidade internacional, em particular a China, devia fazer mais."
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Um comentário:

Anônimo disse...

É, Alana, assim como você, passei também por tal metamorfose crítica. Antes, acho que bem pouco tempo atrás, eu era um xiita: não me via assistindo a tais filmes de tais autores com tais atores. Enfim, uma atitude obtusa, no mínimo. Me desvencilhei dessa lamentável postura, passei a ver com outros olhos o cinema, a me aprofundar mais, a ter mais visões sobre essa arte que nos é tão essencial. Hoje, o cinema dito comercial pode não me atrair tanto como outros filmes mais densos, do ponto de vista temático, por exemplo. Mas sei que todo cinema é arte. E esta última sendo tomada no sentido não de riqueza cultural, mas no sentido de excelência: retratar o mundo pelas lentes de uma câmera, buscar a vida pulsante por intermédio de imagens, personagens, ações, sentimentos, etc, tudo isso já é uma arte. Há vida inteligente em todo tipo de película, como você bem sabe.
Nós todos, que fomos crianças na década de 80, estivemos expostos a muita coisa hoje vista com desdém, e às vezes muito tola, puro caça-níquel. Mas, ainda bem, o tempo passou e sabemos e podemos ter uma visão mais holística do cinema. E sabemos e podemos apreciar aquelas obras que, em contraposição a outras, têm suas qualidades ressaltadas.
É "consumindo" cinema que aprendemos a apreciá-lo cada vez mais, não acha?
§ei que não expressei nenhuma novidade, mas senti a vontade de deixar estas "mal-traçadas" pois uma vez trocamos idéias sobre o assunto e posso dizer que você me ajudou muito, mesmo sem saber, a ter essa visão mais cinza (em vez de preto no branco) do fabuloso mundo do cinema.

Um grande abraço, Miss.

Excelente fim de semana pra ti.


Elienai Araújo