
Usar uma viagem como metáfora para mudança de vida, amadurecimento, é um clichê dos mais gastos. Mas a viagem que fiz no final do ano passado marcava exatamente um momento de transição, uma mudança importante, talvez menos para fora que para alguns dos meus conceitos pessoais e sentimentos. Arrumando as malas, pensei no que poderia colocar que me lembrasse de mim mesma, porque sempre fico com medo de me "perder" nessas transições, e precisava de algo que pudesse, à simples visão, me "trazer de volta". Rosebud.
A solução veio na forma de um livro velho, edição barata de papel-jornal, dessas que vendem em bancas de revista, e já com várias mostras da passagem do tempo e da má conservação, como buraquinhos de traças em tantas páginas. Outra marca do tempo: a primeira folha, com letrinhas redondas, infantis mesmo, dizendo - Alana, 16/ julho/ 1990. (com o meu risquinho de sempre sob o nome, tortuoso e com um pontinho ao final)
O livro - A Mulher do Tenente Francês - havia sido lido na época, e devo ter demorado quase todo o resto daquele ano com a leitura, porque sempre demoro mais quanto mais gosto do que leio, para não me afastar tão cedo dos personagens e da história.
Vi há pouco que está sendo relançado e ainda estou com a dúvida boba entre comprar uma nova edição de um livro que não vou reler, e que certamente não substituirá minha edição velhinha. Acho ridículo isso de trocar uma edição antiga por uma mais nova, como se o livro fosse um carro ou, para algumas pessoas, amores - sempre novidade, sempre um modelo mais novo.
A história do inglês John Fowles, escrita em 1969 e adaptada para o cinema por Harold Pinter, em 1981, me atraía por três coisas (quatro, na verdade, se considerar que só comprei o livro porque sabia que havia "virado filme", na época ainda não visto): a estrutura narrativa tão "diferente", com um narrador que não faz e faz parte da trama, já que todo o tempo faz intervenções e observações sobre os personagens e os fatos, chegando a sugerir duas possibilidades de desfecho - a escolha é do leitor; as várias referências à literatura inglesa, da poesia aos romances de Jane Austen e Thomas Hardy, despertando em mim um interesse que, mesmo com períodos de latência, está sempre presente, e é sempre fonte de belezas; e, claro, a história de paixão, loucura e perda entre um inglês nobre e entediado e uma mulher misteriosa e mal-falada, abandonada por seu amante, numa Inglaterra vitoriana e cheia de rigores moralistas.
A melancolia e a intensidade dos sentimentos de Sarah, a tal "Mulher do Tenente Francês", a sua ansiedade por arriscar-se à liberdade, por viver da forma que queria e não só como os outros esperavam, mesmo a um preço tão caro, ficaram marcadas na minha cabeça adolescente.
E me acompanham.
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