quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

o mal de montano


Falei em A Mulher do Tenente Francês outro dia, e agora lá vem outro livro cheio de referências a outros, outro livro apaixonado pela literatura inglesa: Reparação, de Ian McEwan, lançado há alguns anos e adaptado para o cinema ano passado, num filme de repercussão meio "amor ou ódio".
É uma reação que o livro dificilmente desperta, acho; não imagino como se pode não amar o livro do inglês, seja por sua história de culpa e dilemas sobre memória e verdade, seja pelo estilo envolvente e com tantas citações (mais ou menos diretas) a escritores e obras inglesas. Citações que nunca estão lá despropositadas ou, pior, para exibir a erudição do autor. Da citação de Jane Austen, abrindo o livro, às referências às inovações trazidas ao romance por Virginia Woolf, passando pelas leituras que os personagens principais fazem e amam, a literatura está presente não apenas para "embelezar"; ela influencia, move, consola e acompanha os que a amam. E, não, a metalinguagem, recurso tão "moderno", não compromete a estrutura de romance clássico inglês - ela o torna ainda mais interessante.
É o primeiro romance do autor que li, e confesso que fui levada à leitura depois do filme (que nem vi ainda). Mas me envolveu e comoveu como poucos, nos últimos tempos (além, claro, de O Passado), por suas tantas qualidades literárias mas também pelo que torna um livro mais importante pra mim: enquanto o lia, além de pensar naqueles personagens retratados nas letras sobre o papel, pensava também em mim mesma, revisando meu passado e minha realidade, às vezes sob novos ângulos; mesmo que a minha seja uma realidade de natureza extremamente diversa da relatada.
E essa capacidade, a de trazer ao leitor conhecimento da história contada mas, ao mesmo tempo, de si mesmo, é um dos aspectos que Ítalo Calvino considera para tornar uma obra um clássico, né não?
.

Nenhum comentário: