sexta-feira, 25 de julho de 2008

karate kid







Passeio de turista que se preze tem que ter compra de quinquilharias. E a Liberdade (não o bairro de Campina, cheio de ruas com nomes de Estados, mas o de São Paulo. Sorry, periferia.) é um lugar ótimo pra encontrar tais preciosidades, e em profusão. Procurava inicialmente por aqueles gatinhos brancos do bracinho levantado, que dizem atrair sorte e dinheiro, mas acabei simpatizando mais com umas bolinhas zangadas que havia sempre perto dos tais felinos.
Entre imagens de Pucca e camarões empanados, acabei comprando uma das bolinhas, que veio com a informação de que se chama Daruma-san e serve como um talismã, trazendo para quem o possui paciência de Jó, realização do seu sonho e finalmente sucesso nas atividades profissionais.
É pouco? É não.
Então (como dizem os paulistas)... o tal gordinho vem sem os olhos desenhados, e cego espera que seu dono pinte-lhe os olhos: o primeiro, quando pensa um desejo, o segundo, quando o tal pedido se concretiza. Ou seja, a bola vermelha fica caolha até que se realize a graça prometida.
Olhei hoje para o meu Daruma-san e notei que ele continua cego, coitado, mesmo depois de um mês de casa nova. Repousa no escuro entre livros e uma fofolete amarela, na estante do quarto do computador. Muitas manhãs eu o procuro com o pincel atômico, mas, ao me aproximar, meus pedidos sempre parecem bobos e forçados. Às vezes, também pelas manhãs, quando tenho o prazer de ficar no ócio justo e merecido, encosto na cadeira e fico encarando a triste figura de olhos brancos.
Não quero cair na besteira de desejar pelo ímpeto, como já fiz antes. Hoje, tenho a humildade de saber que não posso de maneira alguma desejar pelo que quero. Até porque sou displicente com meus sentimentos e objetivos. A idéia é pedir uma ajudazinha para que as coisas, da maneira com que elas se destinam ser, se concretizem. Não é questão religiosa ou espiritual, os amuletos são mera armazenagem para a perseverança. Desejar algo é levantar os olhos para o cosmos, e o Daruma-san é a fitinha amarrada na ponta do dedo para nunca esquecermos de uma meta.
Esta manhã acordei para dar ao talismã um olho e um pouco de luz. Algo me veio em um sonho, mas sinceramente não lembro bem. Tenho acordado de supetão, com o coração em ritmo de corrida. Ando sonhando com trabalho e coisas que não valem passar pelo umbral da porta.
Finalmente, encontrei o que pedir a Daruma-san. Precisava mesmo esperar para ver mais claramente, assim como ele e seus novos olhos de hoje.
Ele ganhou uma pupila e, eu, a promessa de coragem.
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