
Prêmios pelo "conjunto da obra" costumam ser dados a artistas já veteranos, de carreira amplamente admirada mas sem o equivalente em honrarias "oficiais". Mas também pode acontecer de serem dedicados a artistas em plena atividade criativa, ainda jovens e capazes de surpreender e deslumbrar seus admiradores com suas criações. O prêmio, assim, seria mais uma espécie de afago, não uma consolação.
É este o caso do prêmio dado hoje, no Festival de Cinema de Veneza, a um dos mais originais, inteligentes e, como foi dito na cerimônia, "um dos cineastas norte-americanos mais corajosos, visionários e inovadores": Tim Burton.
O californiano Timothy William Burton começou sua carreira desenhando para os estúdios Disney, no início dos anos 80, e desde seus primeiros trabalhos dava mostras de inventividade e humor negro, como no maravilhoso curta-metragem Vincent, de 1982, animação em p&b narrada por Vincent Price e inspirada em Edgar Alan Poe, uma de suas mais freqüentes influências. Os anos seguintes veriam filmes sempre criativos e com toques de morbidez, afetuosos com seus personagens desambientados, gauche na vida, ternos e solitários. Como o inesquecível Edward Mãos-de-Tesoura (Edward Scissorhands, 1990), primeira parceria de Burton com seu ator mais assíduo, Johnny Depp (ele mesmo um exemplo de independência e escolhas inteligentes). Ou Ed Wood (1994), o "pior cineasta do mundo" - Depp, again - humanizado em uma obra-prima do cinema dos anos 90. Até Batman adquiriu contornos mais macabros e humanos sob a ótica de TB, nos dois melhores filmes com o herói vingativo: Batman (1989) e Batman - O Retorno (Batman Begins, 1992) - este, ainda melhor que o primeiro.
Ainda há pai e filho no belo Peixe Grande e Suas Histórias (Big Fish, 2003) , o perturbado investigador Ichabod Crane (Depp!) em A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (Sleepy Hollow, 1999), os personagens em stop-motion de A Noiva Cadáver (Corpse Bride, 2005)...
O cinema de TB é cheio de personagens algo desajustados e histórias sombrias, mas sempre divertidas, comumente consideradas "contos de fadas macabros".
"Eu não li muitos contos de fada. Os filmes de monstros eram um tipo de conto de fadas para mim" - disse Tim Burton, em Veneza.
Bom para nós, para quem não imagina o cinema sem os tons mórbidos e inteligentes de seus filmes.
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imagem: quem mais poderia entregar esse prêmio?
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